Yoko Ono

Muito além de John Lennon. Aos 89 anos, Yoko Ono é uma das artistas mais influentes do mundo e pilar do ativismo. Conheça sua trajetória

Por Maravilha

Lenda viva, Yoko Ono completa 89 anos: relembre a trajetória de uma das artistas mais influentes das últimas décadas

Numa breve pesquisa pelas ferramentas de busca mais populares na internet, a fim de levantar informações sobre a vida de Yoko Ono, o que encontramos de primeira é uma enxurrada de notícias, matérias e sites falando sobre John Lennon, homenagens de Yoko para Lennon, ou no máximo comentários sobre sua relação com John, e até mesmo pesquisando “Aniversário Yoko Ono” o que recebemos são notícias sobre aniversários de John.

Ok, a artista é muito lembrada por ter se casado com o Beatle, mas até quando esse fato de sua vida pode, junto da mídia, tentar encobrir sua longa e importante trajetória como mulher e artista? Tá tão batido esse negócio de reduzir mulheres a sua vida afetiva em detrimento de sua história particular e profissional… Então vamos ao que interessa: YOKO, quem é essa mulher tão conhecida, tão mal dita e também celebrada pelo globo?

 

 

Um pouco sobre a história de Yoko

Fonte: Pinterest

Acenda um fósforo e assista o fogo se apagar. Intitulada “Peça de Acender”, esta foi a primeira “instrução” que a artista japonesa Yoko Ono criou, em 1955. “Instruções” são obras de arte que demandam a participação do público e a partir de seu envolvimento a poesia e experiência se completam. Seu trabalho nas artes plásticas é constantemente permeado pela existência e interesse no “outro” e investiga a profundidade (e quiça a mediocridade) dos seres humanos. Com uma extensa e intensa produção e carreira artística, a particular história de vida de Yoko pode nos auxiliar a entender um pouco mais sobre como conquistou seu espaço na arte, influenciou grandes artistas e movimentos e hoje é considerada uma das artistas mais influentes da última década.

Artista multi-mídia, pianista, cantora, compositora, performer, ativista e cineasta Yoko Ono é uma mulher japonesa possuidora de múltiplos talentos, uma longa trajetória nas artes e sensibilidade ímpar.

A artista nasceu em Tóquio, Japão, no dia 18 de fevereiro de 1933. Filha de Yeisuke One, pianista e executivo descendente de uma tradicional família japonesa do século IX, e de Isoko Ono, também artista e pintora – neta do fundador do Banco Yasuda. Por ter nascido no seio de uma família tradicional e financeiramente abastada e envolvida com cultura, Yoko se educou em escolas direcionadas as elites tradicionais japonesas, teve contato com a arte muito cedo e mais tarde formou-se em piano clássico. 

Em 1945, durante a Segunda Guerra Mundial, Yoko e sua família, que morava em Tóquio, tiveram que se refugiar nas montanhas em Karuizawa. Com o fim da guerra, Yoko retornou à escola e em 1951 ingressou na Universidade Gakushuin, sendo a primeira mulher em seu país a entrar num curso de filosofia. Pouco tempo depois, em 1952, acaba se mudando com seus pais para Nova Iorque, onde passa a ter contato com movimentos artísticos e políticos ligados a contra-cultura. Influenciada por essa atmosfera sua relação com o mundo e com a arte se transformam.

Caminho nas artes

Yoko resolveu seguir pelo caminho das Artes sem auxílio financeiro de sua família que se preocupava com seu envolvimento com movimentos progressistas. Ela seguiu ministrando aulas de música em escolas públicas e ainda na década de 1950 a artista se muda para um loft alugado em NY no qual passa a fazer experiências sonoras com os colegas Mercy Cunningham e John Cage (conhecido como um dos precursores do que hoje chamamos de música experimental ou até mesmo arte sonora).

Em sua jornada artística Yoko flerta com diversas linguagens. Além dos experimentos com som, ao longo de sua produção destacam-se trabalhos na área da performance, pintura, esculturas, objetos, video arte e arte relacional, cinema e música.

Entre o fim da década de 1950 e 1960 Yoko enfatiza suas investigações nas artes visuais sob influência de movimentos ligados a arte conceitual que cresciam naquele período, atrelados a contracultura sob influência de perspectivas e críticas feministas sobre a sociedade patriarcal.

Mais tarde, ainda nos Estados Unidos, descobre que seu amigo George Maciunas, baseado nas ideias que havia desenvolvido junto com John Cage e a própria Yoko Ono, estava associado a um novo grupo vanguardista denominado Fluxus, que ficou conhecido mundialmente entre artistas e pesquisadores da área por suas propostas artísticas provocativas, politizadas e de cunho libertário, muito próximas dos ideais do Dadaísmo e do Construtivismo russo, discutindo principalmente a condição de mercadoria da arte . Yoko se une ao grupo.

O grupo passa a influenciar vários artistas locais e a pesquisa da própria Yoko. Na década de 1960 Yoko Ono se aprofunda na arte conceitual e cria uma série de filmes experimentais. Assim, surgiu uma de suas obras mais conhecidas: Cut Piece, onde além de explorar a relação entre expectador e artista, a artista japonesa ainda passa a propor reflexões relacionadas à forma como as mulheres são tratadas nos mais distintos meios da sociedade.

Em Cut Piece, Ono surpreendeu o público quando sentou-se imóvel no palco do Carnegie Hall, em Nova York, ao lado de uma tesoura onde as pessoas poderiam cortar suas roupas. A performance evolvia mais uma vez a participação do público e colocava em questão as relações interpessoais e violência. A plateia passa um período cortando suas peças até que finalmente ela é deixada apenas com uma peça íntima rodeada por trapos. Essa performance influenciou o pensamento e produção de centenas de artistas pelo globo, entre eles Marina Abramovich, artista e performer conhecida por, entre muitas obras, realizar performances em que se coloca vulnerável frente ao publico com objetos diversos.

Além da histórica video performance resultante dessa obra de Yoko, que você pode conferir a cima, podemos citar diferentes trabalhos que se destacaram em sua carreira, como:

  • Painting To See The Skies (“Pintando para ver os céus”), de 1961, uma folha que contém sucintas instruções em japonês de como transformar uma tela convencional em uma espécie de óculos para observação do céu;

Yoko Ono Lighting Piece (Peça de acender), 1955, realizada por Yoko Ono em 24 de maio de 1962 – Foto: Yoshioka Yasuhiro ©Sogetsu-Kai Foundation / Cortesia de Yoko Ono) via exposição Instituto Tomie Ohtake

  • Lightining Piece“, de 1955, performance na qual convida os espectadores a observarem a consumação de um palito de fósforo pelo fogo, que mais tarde se desdobra no movimento de produzir obras e performances que instiguem o observador a se relacionar esteticamente com fenômenos corriqueiros e banalizados pela rotina — uma rejeição do que a vanguarda Fluxus chamava de arte europeizada e ao mesmo tempo uma tentativa de integrar a arte à vida cotidiana, no entanto sem a conotação de artesanato/utilitaridade.

 

  • Grapefruit – Em 1964, Ono publicou um pequeno livro intitulado “Grapefruit” (Em português: Toranja) que com palavras e imagens oferece um conjunto de instruções através das quais a obra de arte é completada literalmente ou através a imaginação do leitor. Encantador e subversivo, o livro influente foi considerado um monumento da arte conceitual do início dos anos 1960, e Ono publicou outros livros também ao longo de sua carreira. (entre eles Hide & Go Seek: “Esconda-se até que todos se esqueçam de você. Esconda-se até que todos morram.”) que desencadeou uma longa série de happenings. Se você não sabe o que são happenings, trata-se de um termo criado no fim dos anos 1950 pelo americano Allan Kaprow (1927-2006 – também envolvido com o grupo Fluxus) para designar uma forma de arte que combina artes visuais e um teatro sui generis, sem texto nem representação. Nos happenings ou espetáculos, distintos materiais e elementos são orquestrados de forma a aproximar o espectador, fazendo-o participar da cena proposta pelo artista.

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E é através de instruções  que, durante as exposições, a artista convida os visitantes a sair da posição de espectador e passar a fazer parte da construção das obras. Assim, a sensação de pertencimento e participação é estimulado por meio de diversas instruções em forma de poemas que levam o público a ser coautor, como acontece também na obra “Árvore dos Pedidos” (2016): “faça um pedido e peça à árvore que envie seus pedidos a todas as árvores do mundo”, onde várias mensagens são deixadas nos galhos de uma árvore.

Divulgação

Assim, ao mesmo tempo em que nos estimula a novas experiências, Yoko compartilha sua história e vivências: Yoko Ono diz: “A ideia deriva de uma tradição japonesa que conheci na infância…. Você tinha de escrever em um papel desejos relacionados apenas ao amor, à saúde e ao dinheiro e pendurá-los em uma árvore, que cresceria e levaria seu desejo para o alto.” conta numa entrevista.

Cinema

De 1964 a 1972 produz dezesseis filmes experimentais entre eles o polêmico Nº 4 (também conhecido como Bottoms), que apresenta 365 closes de nádegas, e Nº 5, uma sequência de stills de bocas que animados mostram a transição de um sorriso para uma expressão séria. Nos anos seguintes a artista criou novas obras que exploram a linguagem do cinema experimental em diálogo com a video arte.

Em geral, seus trabalhos em video, performance, instruções e instalações refletem um olhar e vontade da artista de diálogar com as pessoas sobre a importância de haver conexão com o momento presente (se reflertimos sobre a natureza das instruções), com nosso nosso corpo e emoções, sem deixar de lado a crítica a questões conectadas a convivência humana que precisam ser debatidas e superadas.

Música

A produção musical de Ono é extensa e muitas vezes experimental. Ao contrário das experiências de seu amigo John Cage, cujos questionamentos audaciosos dialogavam com a música erudita, a produção de Ono, apesar de sua educação formal em música, desconstruía e repensava a música popular, em especial o rock and roll. Yoko Ono é uma das precursoras do estilo rock experimental que viria surgir entre o fim dos anos 1970 e o começo dos anos 1980 com a música industrial e pós-punk. Seus discos de 1972 e 1973 atualmente são reconhecidos como históricos (apesar de não terem sido um sucesso na época de seus lançamentos) na música feminista.

Ouça Fly, de 1971:

O estilo confrontador e agressivo de Yoko foi lentamente dando lugar a um estilo mais próximo do pop-rock. No século XXI, ela se transformou em uma espécie de diva da música eletrônica através dos remixes de canções antigas feitos pelos mais renomados DJ’s da cena eletrônica.

Em fevereiro de 2007, aos 74 anos de idade, Yoko Ono lançou Yes, I´m a witch, disco no qual seus antigos trabalhos são recriados e reconstruídos por artistas como PeachesLe TigreFlaming Lips, Craig Armstrong, Apples in Stereo, entre outros.

Em 2010, lançou o aclamado Between the Sky and My Head, que angariou inúmeras críticas positivas e gerou uma série de shows, nos quais Yoko dividiu o palco com artistas como Eric ClaptonBette Midler, Lady GagaIggy Pop e Ornette Coleman, entre outros luminares do rock, do jazz e do pop.

Em 2012, lançou Yokokimthurston, álbum em parceria com Kim Gordon e Thurston Moore, do Sonic Youth.

Em 2013, mais um disco com a Plastic Ono Band, Take Me To The Land Of Hell, que caiu nas graças da crítica em geral e seguiu produzindo e se destacando na mídia especializa nos anos posteriores.

Amor e mídia

A arte e o pensamento ativistas aproximaram Yoko Ono do também artista e músico John Lennon, integrante da banda de sucesso mundial Beatle. O casal se conheceu em um museu, durante a abertura de uma das exposições de Yoko e casaram em 1969. Yoko incitou John a investigar-se além da música, o que o levou a colaborar em diversos trabalhos da artista. Entre suas colaborações memoráveis está, em oposição à Guerra do Vietnã, a ação em que desfilam uma faixa enorme que dizia “A guerra acabou” Se você quiser!”, título do nome da exposição de Yoko onde se conheceram anos antes. Muitos rumores são difundidos sobre o relacionamento dos dois, que terminou após o músico ser assassinado por um fã, mas os detalhes particulares de sua vida pessoal fica para outra conversa.

Yoko Ono

Divulgação

Yoko obteve nos últimos anos maior admiração como uma figura inspiradora por si mesma com uma série de exposições retrospectivas que disseminam poderosas mensagens de amor, paz e protesto. Sua obra não teria como passar despercebida nessa passagem secular de tempo que significou tantas mudanças no âmbito do pensamento e da cultura no ocidente e no globo. Mudanças que com certeza tiveram influência de sua visão de mundo e sensibilidade difundidas por sua arte. Yoko Ono não só é uma lenda viva como uma mulher poderosa, capaz de acordar corações com um sopro do outro lado do mundo. Viva a arte das mulheres!

 

Maravilha

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Maravilha é uma artista-multimídia, musicóloga, DJ, compositora, produtora musical e arte-educadora carioca radicada em São Paulo. Aqui no portal escreve e reflete sobre arte, música brasileira e toda a sorte de grooves. É também fundadora da Tremor Produtora.

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