MTG Imagem do filme “A Batalha do Passinho”/Reprodução

De onde vêm as tais ‘MTG’, sucesso do momento em redes sociais

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Fenômeno é uma espécie de revitalização das montagens funkeiras dos anos 80

O bagulho é doido. Se você mergulhar no universo das redes sociais com foco no público jovem (e bota jovem nisso!), como o TikTok, vai se deparar, entre as músicas mais ouvidas, com faixas que começam com a sigla “MTG”, uma abreviação da palavra “montagem”. Sobre uma base percussiva extremamente simplificada, vocais e instrumentos extraídos (já falaremos mais sobre isso) de músicas sertanejas, de piseiro, forró e o que mais der na telha na cabeça da molecada, são misturados, formando Frankensteins musicais, dando origem a algo novo.

Erroneamente, muitos adotaram a sigla como o significado para o funk feito em Minas Gerais. Efetivamente, os produtores de Belo Horizonte abusam do formato e são responsáveis por boa parte das músicas mais ouvidas nas plataformas. O pé na música agrária, em muitas produções, meio que confere ao funk MTG uma espécie de rompimento da barreira Rio–São Paulo para o gênero musical. Mas o fato é que tem gente do país inteiro se aventurando nas tais colagens.

A verdade é que existe um caminho pronto para essas iniciativas artísticas abissais, improváveis, paridas na fértil mente dos responsáveis pelas novidades dos bailes de periferia. Primeiro, as doideiras caem no gosto da garotada e bombam nos pancadões e plataformas sociais. Depois, produtores de mente aberta e uma senhora intimidade com os equipamentos de estúdio se ligam na oportunidade e começam a dar uma tarimbada técnica nas produções. Aí, mermão, basta cair nas graças do Hermano Vianna, e logo depois, dos gringos. E isso já está acontecendo com o funk MTG.

Diplo, o mais brasileiro dos superstar DJs internacionais, já avisou que Mulú (antes conhecido como Omulu) é um de seus artistas favoritos do nosso país. O produtor carioca faz parte do time que, com experiência de estúdio, está levando o MTG funk para um outro lugar. No caso, lá para o lado de cima do linha do Equador.

Mulú já estava envolvido com os estúdios antes da febre das MTGs. Trabalhou com Zé Gonzalez (DJ Zegon) e o Tropkillaz. Participou da produção do primeiro lançamento de Pabllo Vittar, o EP Open Bar. O artista, apesar de manter o pé no rural, com montagens de Wesley Safadão, por exemplo, também busca dar uma certa sofisticada no negócio, misturando em suas músicas partes da obra de nomes como Elza Soares, Arto Lindsay, Gilsons, Carmen Miranda e Billie Eilish, cujo hit recente, Chihiro, viralizou nas suas mãos, com mais de 1,7 milhão de plays apenas no YouTube (primeiro vídeo incorporado nesta matéria).

O surgimento deste, e de tantos outros gêneros musicais presentes em bailes na periferias do país, é intrinsicamente ligado à chegada de novas tecnologias. E também de seu barateamento. O funk MTG é fruto direto de novas ferramentas disponíveis, capazes de extrair instrumentos e vozes de músicas já gravadas. Parece feitiçaria, mas é tecnologia: em softwares como o Moises, por exemplo, você escolhe isolar as vozes de uma canção. Usando recursos que chegam até a beliscar a nova Inteligência Artificial, o produtor tem à sua disposição apenas a parte extraída. Basta fazer a colagem (ou montagem) da tal voz sobre uma base de funk e, pronto, temos um MTG.

A rapidez deste novo processo, proporcionado pelas ferramentas tecnológicas, é responsável pela inundação de faixas que atulham o TikTok, devidamente avalizadas pelo público que as consome. A MTG Quero Te Encontrar, que usa os vocais da canção homônima de Silvanno Salles, cantor baiano do estilo arrocha (uma espécie de forró baiano), já contabiliza mais de 92 MILHÕES de tocadas no Spotify. Se você não conhecia os MTGs e não está lidando bem com o que está lendo e ouvindo aqui, vale parafrasear Chico Buarque: “você não gosta de mim, parceiro, mas sua filha gosta”.

A ideia não é (nem um pouco) nova

O interessante nesta história é que a estética geral dos MTGs é bastante parecida com um outro movimento musical que foi febril nos anos 80, curiosamente chamado também de montagem.

Antes até mesmo dos computadores e da tecnologia digital chegarem aos estúdios, produtores cariocas entravam em estúdio e colavam, na unha, pedaços de músicas, uma sobre as outras, utilizando-se de outra ferramenta havia acabado de chegar às mãos da galera: os samplers MPC, produzidos pela japonesa Akai.

Pequeno e com um painel cheio de botões “batucáveis”, o aparelho permitia que um moleque gravasse 16 partes diferentes de sons. Cada botão armazenava um teco de áudio, ou sample, e podia ser tocado como se fosse uma percussão, além de automaticamente encaixar cada pedaço no tempo certo do ritmo. A paradinha fez com que muita gente se aventurasse em lançar suas montagens, que eram prensadas em vinil e distribuídas para os DJs. Músicas como a Montagem do Sax, um dos grandes sucessos da época nos bailes, e cuja arte do vídeo contém uma ilustração da própria MPC.

O MTG, portanto, é uma repaginada das montagens funkeiras dos anos 80, então feitas por uma turma que estava de olho no que acontecia nos Estados Unidos com o advento da cultura hip-hop, rica no uso de samples, desde meados dos anos 70. As pirulagens dos produtores da época foram o alicerce para o desenvolvimento de obras mais autorais do funk brasileiro, nas quais a galera criava versos e rimava por cima das bases, usando, como no rap, muitos samples.

No espaço de tempo entre as montagens cariocas e o MTG funk, muita coisa aconteceu, sempre puxada por novas invenções da indústria musical. Quando os computadores pessoais ganharam potência de processamento a ponto de levar todo o processo de produção para dentro de seus chips, surgiram os edits e bootlegs, que eram versões mais bombadas, direcionadas à pista de dança, de músicas mais antigas que haviam feito sucesso ou pairavam empoeiradas.

Anos mais tarde, foi a vez dos mashups, que literalmente empilhavam duas músicas diferentes, mas com a mesma tonalidade, para que tocassem juntas, gerando resultados bastante divertidos. E agora, com a chegada da Inteligência Artificial, já é possível fazer com que Silvio Santos cante uma música do Coldplay, por exemplo. O futuro musical pertence ao deus tecnologia. A nós, resta relaxar e deixar que venha!

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.

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