Festival CoMA 2025 Foto: @luarabaggi/Divulgação

“Fazer festival é um risco altíssimo”: produtora fala sobre o fim do CoMA

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Rolê brasiliense realizou sua última edição nos dias 22 e 23 de agosto

Se você faz, frequenta ou toca em festivais, leia a entrevista que Michelle Cano deu ao Music Non Stop menos de uma semana após anunciar, no meio de seu evento, o fim do CoMA, festival brasiliense com edições clássicas. Para quem é de São Paulo, terra deste site, o CoMA é o C6 Fest deles: público médio, muito conforto, zero filas e uma bela estrutura. Ou melhor, era.

Cano começou comigo de dentro do seu carro, e isso foi bom. Se estivesse falando em um banco de parque, ao ar livre, sairia flutuando no meio da conversa, tamanha leveza transparecida após se livrar de um compromisso anual que traz aos profissionais envolvidos sete dias de celebração ante 358 de correria, preocupação e estresse.

É normal da vida de qualquer produtor de festival, mas poderia ser diferente. No Brasil, até as ferramentas de incentivo e fomento conseguem trazer muita “emoção” a quem está estruturando um evento em que nada pode dar errado, não só por questões financeiras, mas de segurança também.

Como escrevi com dedos tristes na semana passada, relatando que a organização do CoMA anunciara seu final, produtor não desiste, só troca de roupa. E é isso mesmo. Esperem muito ainda da profissional que deu olhar feminino aos bastidores de um festival de um forma efetiva, real, longe das políticas de inclusão para ninguém ver. Se duvida, leia também a resenha feita pelo seu Music Non Stop da edição de 2024, que pudemos conferir bem de pertinho, além de conversar com vários envolvidos no bonde.

Jota Wagner: O que fez vocês decidirem pelo fim do CoMA?

Michelle Cano: São tantas questões… Este ano, por exemplo, tivemos muitos problemas técnicos, como atrasos. E a gente se força tanto para acertar, mas quando se peca um pouquinho, o povo vai em cima como se você nunca tivesse feito nada certo na vida. Começa por aí. O público está exigente em um nível de que não perdoa, como se não tivesse gente humana por trás do processo. E o CoMA não é isso. Sempre foi feito com muita qualidade, muito carinho.

Quando foi que vocês tomaram essa decisão?

Quando fizemos a reunião de fechamento no evento do ano passado, começamos a entender as dificuldades. Fazer festival hoje em dia é um risco altíssimo. E no modelo de negócio que a gente se estruturou, tudo gerou uma rentabilidade muito baixa. Naquele momento, a gente já entendeu que precisaria repensar esse modelo. E vimos também que todos os sócios estavam com mil outras coisas na cabeça. Quando as pessoas estão com atenção em outras coisas, fica pesado para alguém. No caso, esse alguém era eu. Então sugeri para cada um seguir com seus projetos, encerrar enquanto a relação está boa, antes de começar a vir prejuízo e problema. É como casamento: melhor terminar amigo do que depois que o caos está instaurado…

Falando em casamento, quando alguém chega com “amor, precisamos conversar…”, a primeira pergunta de quem está recebendo a notícia é: “tem outro alguém?”. Você está querendo outra coisa?

(Risos) Há algum tempo eu tenho mesmo flertado com outro tipo de evento, até por conta do meu desenvolvimento pessoal. Comecei a mudar um pouco a rota das coisas que eu curtia. Ambientes com muita bebida, muita loucura, muito caos, já não está mais refletindo com o meu ser. Então eu tenho flertado com outro tipo de coisa. Mas logo de cara eu preciso de um tempo.

Um dos meus sócios não queria encerrar o CoMA de jeito nenhum, ele é mesmo apaixonado. Respondi que não consigo pensar em nada agora. “Preciso de um tempo, inclusive de você!” Mas todo mundo que está ali tem vontade de fazer outras coisas. O CoMA nasceu de uma vontade criativa de cada um dos sócios. Individualmente, todos têm alguma vontade, e talvez não seja a mesma.

Por isso, a gente está encerrando esse ciclo como evento. A marca vai continuar, já existem conversas e negociações sobre isso. Mas ainda não tem nada certo. O momento é de parar e ver o que cada um quer.

Quais foram as maiores dificuldades?

Sempre é uma luta. É complicado ter um projeto em que, todo ano, você tem de correr atrás dos patrocinadores como se fosse a primeira edição. Não existe uma política de continuidade. Um patrocinador deveria, quando encontra um marca, fazer um contrato de três anos, pelo menos. Porque aí você faz uma estruturação. Você termina uma edição já sabendo tudo o que tem de ajustar para a próxima, contratar equipes com antecedências, fazer fluxo de pagamentos… Não adianta só o dinheiro. Ter de resolver tudo de última hora, na correria, é complexo e muito exaustivo.

Festival CoMA 2025

Foto: @luarabaggi/Divulgação

Dinheiro no mercado tem, mas é sempre uma luta para conseguir conquistá-lo. Demoram para pagar, mesmo nas leis de incentivo. O MinC está superdevagar. No ano passado, nós liberamos o valor da Lei Rouanet em julho. Só fomos conseguir acessá-lo em outubro. O dinheiro ficou parado na conta e a gente pagando juros para fazer o festival girar. Está tudo errado, principalmente para o festival independente.

A nossa bilheteria é uma parte muito pequena da receita. Até porque a gente optou fazê-lo com preços acessíveis, o que é coerente com quem trabalha com dinheiro público, que tem como função fomentar uma cena para depois ela se estruturar. E a gente realmente estava nesse processo de estruturação até 2019. Vínhamos em uma crescente muito boa, até que veio a pandemia e desestruturou tudo.

Há ainda muita procura dos artistas pelos festivais, e para os artistas ficou bom, pois todo mundo acaba buscando a mesma coisa. Começaram a cobrar mais caro, naturalmente. Tudo começou a ficar inviável, embora neste ano a gente tenha tido uma boa lição. Fizemos um line-up voltado para o jovem, menos caro, que levou um público quase dobrado no domingo, com valor muito maior. Isso faz a gente pensar que talvez não precise daquela fortuna. Foi legal a gente poder separar dessa forma para poder entender.

Festival CoMA 2025

Foto: @ninaquintana/Divulgação

Então foram artistas caros e fornecedores caros. Em Brasília, de junho a setembro temos a época da seca. Então pipoca tudo quanto é evento. E aí, falta um pouco de colaboração entre os realizadores. Tivemos até caso de um grande produtor da cidade não permitir que fizéssemos um show já negociado para que ele pudesse trazer o mesmo artista em janeiro, como um dono da relação. Falta trabalhar em conjunto.

Há um risco de todo o cenário de festivais se consolidar na mão de poucas empresas?

Isso é uma provocação que eu fiz. O CoMA vai acabar. E o que isso impacta na cena, nada? Os grandes vão continuar produzindo, o público vai continuar consumindo dos grandes. Os eventos independentes têm uma alma, algo que as pessoas conseguem sentir, muito mais do que os eventos comerciais maiores. Mas que diferença, de fato, isso vai fazer para o público? Eu temo isso. Para nós, que fazemos o evento uma vez no ano, que poder de negociação a gente tem? É tudo muito complexo.

Como ficou o coração de vocês durante o evento da semana passada? Dor ou alívio?

Pra cada um bateu de um jeito diferente. Eu acredito muito que a vida é cíclica. Termina um, abre outro, e às vezes é preciso encerrar um para começar outro. E até mesmo o CoMA, por que não, daqui a alguns anos, renascer de uma outra forma? Pra mim foi libertador (risos). Em um vídeo que fizemos estavam todos os sócios ali, falando sério e eu rindo pra caramba.

“Tá tudo bem gente, vamos nos divertir, vamos viver outras possibilidades”. Porque vira também uma amarração, em fazer aquilo todo ano. Eu agradeço tudo o que eu vivi, pessoalmente e profissionalmente. Quando fiz o primeiro, estava grávida de sete meses do meu primeiro filho. O CoMA foi a gestação de outro filho, e ele está aí, para o mundo.

Festival CoMA 2025

Foto: @ninaquintana/Divulgação

O que o CoMA deixou de legado?

Teve uma situação bem interessante este ano, que para mim foi o legado principal que a gente acabou deixando. Iniciamos um projeto ano passado chamado CoMA Lab, de desenvolvimento de estudantes junto com a UNB, que acabou virando até um curso de extensão. Fazemos uma programação mensal com esses alunos e eles vieram trabalhar no festival.

Dentro da conferência, trouxemos duas profissionais do mercado, Fabi Lian e a Elza Costa, que são mulheres que já trabalham há muito tempo na cadeia produtiva também. E elas fizeram uma visita técnica com essa equipe no sábado. Ouvir o feedback delas em relação ao cuidado que temos com eles, com a forma como as pessoas estavam se apropriando do CoMA como se fosse um evento deles… Esse legado ficou muito claro. Poder fazer uma produção afetiva, mais feminina, com cuidado, em que as pessoas se sintam pertencentes, e não só aquela coisa de “estão me contratando para fazer”. Esse olhar, e isso que as pessoas sentem, é a coisa mais importante deixada pelo CoMA.

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.