MDMA

MDMA, a droga que caminha junto com o Covid19. Conheça os riscos e a opinião de especialistas

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Campanha de Redução de Danos Music Non Stop. O MDMA é o principal ingrediente das pastilhas de Ecstasy e se espalhou por todos os tipos de eventos (e reuniões, praia, casamentos etc.) como uma droga comercializada em um pó cristalizado. Conversamos com especialistas para contar sem tabus tudo o que envolve seu consumo.

O MDMA é uma abreviação para metilenodioximetanfetamina, ingrediente mãe das pastilhas de Ecstasy que ganharam o mundo como droga de uso recreativo que acompanhava as festas de música eletrônica e influenciou culturalmente toda uma geração, inclusive a do chamado “Verão do Amor”, que mudou a música em 1988.

Com o gigantesco aumento do consumo a partir da década de 90, o Ecstasy entrou no radar dos grandes traficantes de drogas e sua produção sofreu modificações, chegando a receber mistura de remédios vencidos, macerados e prensados novamente. Estudos mostram que pastilhas vendidas hoje em dia podem simplesmente não conter nenhuma porcentagem de MDMA.

Com o descrédito em relação ao que se comprava como Ecstasy, usuários migraram para o consumo de um pó microcristalizado, normalmente de coloração rosa ou amarelada, vendido por grama ilegalmente, chamado na linguagem da rua de MD (no Brasil) ou Molly (na Inglaterra e EUA).

Os efeitos que os usuários experimentam ao usar MDMA são euforia, aumento da temperatura do corpo, alteração da percepção da música e aumento da sensibilidade física, relatada por alguns como sendo de cunho sexual e por outros como algo emocional, daí a associação ao sentimento de amor.

Seu uso afeta o cérebro incrementando a atividade de pelo menos três neurotransmissores: a serotonina, a dopamina e a noradrenalina.  Seus efeitos duram de três a seis horas. Porém, a partir da primeira dose, o usuário perde muito da capacidade de compreensão quando o efeito está caindo, levando-o a recorrer a mais doses.

O uso do MDMA é hoje extremamente difundido em todos os tipos de eventos, de bailes funk a raves e shows. Um grama é comercializado por um valor em torno de R$ 100 e, como o pó cristalizado é entregue em saquinhos, os usuários colocam o dedo na embalagem e o levam a boca, muitas vezes dividindo-o entre amigos. Com a chegada do Covid19, o MD é uma das drogas que mais facilitam a contaminação pelo vírus.

MDMA

Gabriel Pedroza e seu canal Que Droga é Essa?

 

O grande e conhecido problema do MDMA. As misturas desconhecidas.

A não regulamentação da produção e venda do MDMA – a exemplo do que acontece com outras drogas – faz o que os produtos desconhecidos usados por traficantes para aumentar a quantidade do produto sejam mais perigosos ao usuário do que o próprio MD.

“Graças à falta de regulamentação e controle de qualidade dessa substância, o que circula pelo mercado clandestino pode conter uma ampla gama de substâncias que inclusive podem ser potencialmente mais prejudiciais para os consumidores, tanto pela imprevisibilidade dos efeitos quanto pelo risco de reações adversas a quem a consume – inclusive reações alérgicas, como é o caso da aspirina (ácido acetilsalicílico)”, nos conta Gabriel Pedroza, psicólogo, redutor de danos e criador do programa Que Droga é Essa, que visa desmistificar assuntos relacionados ao tema das drogas.

Essa opinião é compartilhada pelo psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira: ” os maiores problemas relacionados ao uso de MDMA não estão relacionados ao MDMA em si, mas a outras substâncias que são vendidas misturadas (anfetaminas e catinonas, por exemplo). Esse é dos argumentos a favor da legalização (já que o proibicionismo fomenta o mercado negro que vende MDMA não puro)”.  Dartiu já foi consultor do Ministério da Saúde e da Secretaria Nacional de Drogas do Ministério da Justiça. Hoje coordena  estudos acerca do MDMA.

Você não tem como saber se o que está consumindo é somente MDMA. Atualmente mais da metade do MDMA comercializado no Brasil é produzido internamente.

A segunda brisa errada do MDMA. A mistura com outras drogas

Conforme os anos de uso de drogas sintéticas no Brasil foram passando, o “amadurecimento” desse comportamento trouxe um hábito perigosamente comum, o chamado poli uso, quando o usuário experimenta várias substâncias na mesma viagem, muitas vezes contrapondo os efeitos de uma aos de outras. As principais são o álcool e a maconha.

Segundo Gabriel Pedroza, “o álcool é uma das substâncias mais problemáticas em se incluir numa situação de poliuso – isso é, o consumo de duas ou mais substâncias simultaneamente. Um dos problemas dessa mistura específica é que ao mesmo tempo em que o MDMA pode causar um aumento de temperatura corporal e sudorese, o álcool potencializa a perda de líquidos, graças a sua ação diurética, podendo levar a uma perigosa desidratação, principalmente se a pessoa está exercendo atividades que acentuem essa perda de líquidos”.

Dr. Dartiu complementa que “os efeitos indesejáveis que podem surgir a curto prazo são náuseas, contratura muscular, visão embaçada, calafrios e sudorese. Porém muitos especialistas atribuem esses efeitos indesejáveis ao seu uso em associação com outras drogas (como álcool ou maconha). O uso de MDMA puro não costuma produzir tais efeitos. Cabe lembrar que o aparecimento desses efeitos ou não vai depender de cada pessoa e também da quantidade de MDMA utilizada.

Reduzindo os danos e os riscos no uso de MDMA

Usuários frequentes ou ocasionais, como vimos, podem estar se expondo a riscos desnecessários e a nossa capacidade de avaliá-los diminui consideravelmente durante os efeitos da droga no cérebro.  Nossos especialistas dão algumas dicas que um usuário deve ter em mente ao decidir fazer uso de MDMA.

 

  • Teste o produto que vai usar com reagentes colométricos, que são vendidos online.
  • Não compartilhe sua dose. Gente metendo o dedo dentro da embalagem que você usará depois não parece muito seguro, não é?
  • Fracione o uso em pequenas quantidades, sempre espaçando bem as dosagens e se atentando aos efeitos
  • Esteja em um ambiente seguro e com pessoas de sua confiança.
  • Avalie se você está se sentindo bem (física e mentalmente) antes de começar a usar.
  • Hidrate-se com água e, se o rolê for mais longo, com isotônicos.
  • Permita-se descansar adequadamente durante e depois do rolê.

 

 

 

 

 

 

 

 

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é editor chefe do Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.

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