Redução de Danos MNS. Conheça os riscos que abuso do Loló, o Lança Perfume e o Poppers podem causar à sua saúde

Bia Pattoli
Por Bia Pattoli

Na segunda edição da nossa série de matérias sobre Redução de Danos, a droga da vez é o loló. A substância baseada em clorofórmio, éter e benzina é um hit há gerações. O loló é a versão caseira do lança perfume. E pelo que temos notado, houve um crescimento no consumo da droga caseira. Conversamos com pessoas que já usaram a droga e também com a redutora de danos Fernanda Soncini, que já fez parte do ResPire/É de Lei. Antes de entrarmos na questão do loló, porém, precisamos voltar no tempo e ir até a difusão do lança perfume.

O Lança Perfume

Nem dá pra acreditar, mas o lança perfume deu as caras no Brasil lá em 1904  ou seja, há grandes chances da sua avó ter usado durante algum baile de Carnaval. De acordo com a Fernanda Soncini, por volta de 1910 ele passou a ser usado de forma recreativa no Rio de Janeiro e de lá se espalhou pelos bailes de Carnaval de todo o país. No ápice da popularidade, em 1960, o lança foi proibido, mas o Brasil passou a contrabandear da Argentina (onde seu uso recreativo não é tão popular). Vale dizer que aqui, mesmo com a proibição, o uso sempre foi tão difundido e aclamado que em 1980 virou tema da música Lança Perfume, de Rita Lee. O lança até foi proibido, mas não demorou para que os mais espertos começassem a fazer a versão genérica em casa. Assim nascia o loló.

A real é que a popularidade do loló parece sofrer ciclos. É comum, ao conversar com desavisados sobre a volta de seu consumo, ouvir: “Nossa, mas isso é tão anos 80, 90”. Mas o fato é que o loló está de volta. O problema é que a droga que dá uma brisa momentânea e oferece mais perigo do que muitas outras mais conhecidas e mais populares, como o álcool e até mesmo o crack. Aquela aparentemente inocentemente brincadeira de Carnaval, infelizmente pode ser letal em uma única dose.

Relatos bizarros

Quando fui trocar ideia com amigos e conhecidos sobre experiências com Loló, não imaginei que fosse ler coisas tão pesadas. O maior problema é que, como comentou uma pessoa que já usou a droga, “você trava e não percebe”. O que faz com que o uso possa ser tão ou mais perigoso que drogas como a Ketamina ou até mesmo o Crack – de acordo com a Fernanda Soncini.

O Loló, assim como o Lança-Perfume dá aquela sensação de leveza assim que inalado, fora isso, o usuário pode experimentar distorções nos campos visuais e auditivos – é quando a pessoa ouve o famoso “tuim” que a substância provoca. O problema é que por ser inalável e evaporar muito rápido, é comum as pessoas perderem a noção do quanto já inalaram em uma única baforada. Aí é que mora o problema. Em um dos relatos que ouvimos, o usuário caiu no chão e ficou inconsciente por cerca de 10 minutos. Já uma outra pessoa contou sobre um amigo que entrou em óbito por causa do abuso. O amigo em questão acabou tendo uma embolia pulmonar fatal durante um feriado regado a Loló. Porém a causa mais comum por óbito de Loló é a parada cardiorrespiratória.

Outra situação curiosa que aconteceu durante a conversa dos relatos foi a dúvida de qual a diferença entre o Loló e o Poppers. Pra tirar a limpo todas as dúvidas, saber como não se dar mal com o Loló e entender o que fazer caso ocorra um B.O., batemos um papo com a Fernanda e você confere a seguir.

Redução de danos

Music Non Stop – Fernanda, conte um pouco sobre a sua atuação na área de redução de danos com o Loló.

Fernanda Soncini – Eu estudei um pouco a respeito quando fui tutora do curso Supera, e também enquanto redutora de danos no ResPire – projeto do Centro É de Lei, que realiza ações de redução de danos em festas. A princípio essa atuação era em festas eletrônicas, festas universitárias e, mais tarde, através do projeto ResPire no Fluxo, nos aproximamos dos bailes funks de São Paulo através de encontros e troca de conhecimentos entre pesquisadores, redutores de danos, militantes e frequentadores dos bailes, MC’s e outros trabalhadores deste contexto. Percebíamos que o uso de Loló nos bailes era muito frequente, tanto quanto – ou mais – que consumo de bebida alcoólica. Desde o início dos anos 2010 temos percebido uma crescente popularização do Loló e atualmente boa parte dele é produzido de forma caseira, podendo assim provocar riscos e danos de forma muito maiores que o Lança-Perfume, como o risco de parada cardiorrespiratória.

MNS – Muita gente tem dúvida de como reconhecer o loló. Qual a diferença entre o loló, lança-perfume e poppers?

Fernanda – Todas as drogas do tipo solventes/inalantes têm em comum a presença de hidrocarbonetos em sua fórmula. Hidrocarbonetos são compostos químicos como o tolueno, xilol, n-hexano, acetato de etila (éter), tricloroetileno, triclorometano (clorofórmio), entre outros. Todos eles são solventes orgânicos e estão presentes em aerossóis, produtos de limpeza, colas, tintas e outros produtos geralmente encontrados em depósitos para materiais de limpeza, reforma e construção.A diferença entre o lança-perfume e o Loló é, basicamente, o modo de produção. O lança-perfume era o nome dado a um spray utilizado como odorizador de ambientes, feito por uma mistura de perfumes com éter e clorofórmio, que facilmente se espalhava pelo ambiente, deixando um cheiro agradável e uma sensação de leveza e embriaguez.Em 1961 ele foi proibido e foi quando começou o contrabando do Lança-Perfume produzido na Argentina. Foi durante a década de 2000 que o “cheirinho da loló”, o Loló, se popularizou. De início os efeitos são semelhantes ao álcool, mas sua absorção é mais rápida pelas células e traz muito mais riscos de coma e morte súbita, pois como o efeito se inicia quase que imediatamente e desaparece em poucos minutos, dificulta a noção da pessoa em mensurar a dose desejada e facilmente leva ao uso abusivo agudo, que causa quedas, desmaios, coma e morte por parada cárdio-respiratória.Já o poppers, e o gás do riso, por outro lado, são inalantes produzido através do gás nitroso, um anestésico fraco utilizado desde a metade do século XVIII, e comum até hoje nos hospitais. O poppers é também conhecido como o “gás do amor gay” e é vendido como aromatizador de ambientes em sex shops. Seu uso é popular entre a comunidade gay pois ajuda a relaxar a musculatura do esfíncter e ajuda na preparação para o orgasmo. Seu efeito é tão rápido e instantâneo quanto o do Loló, mas seu uso costuma se restringir mais ao ato sexual. No entanto, é preciso tomar cuidado, pois seu uso abusivo também pode acarretar em morte súbita.

MNS – Qual o principal perigo que a pessoa que usa o loló corre?

Fernanda – Os principais riscos, em caso de uso abusivo agudo, são os de quedas, desmaios, contusões por contas das quedas, inconsciência, aumento do risco de violência e abusos físicos e sexuais ou vexatórios (como exposição nas redes sociais); até o coma e a morte por parada cardiorrespiratória. Já o uso crônico pode trazer prejuízos a atenção, concentração, cognição, memória e aprendizagem, alterações de humor e risco de desenvolvimento ou agravo de transtornos psiquiátricos. Apesar da deficiência de trabalhos científicos nessa área, não é raro ouvir relatos de prejuízos crônicos na coordenação motora, seja para a execução de trabalhos manuais, ou no próprio equilíbrio. Alguns associam também a sintomas de labirintite. Também existem riscos de alterações crônicas no coração e pulmão – sensibilidade cardíaca a adrenalina e insuficiência pulmonar, e até o desenvolvimento de esclerose múltipla e Mal de Alzheimer.
Quimicamente, qualquer solvente orgânico tem como função primordial dissolver gorduras. Nosso cérebro é revestido por uma camada de gordura (camada lipídica) chamada de bainha de mielina. Essa bainha funciona como uma espécie de fita isolante que impede que nossos neurônios entrem em curto-circuito e morram. Com o uso crônico de drogas solventes, há o desgaste da bainha de mielina e, com isso, o prejuízo no transporte da informação pelos neurônios. A transmissão da informação vai ficando mais lenta ao passo que a bainha de mielina vai sendo corroída pelo solvente, até o ponto em que os neurônios morrem. Ao longo desse processo é possível observar: prejuízos na memória e concentração, oscilações de humor, eventuais prejuízos fisiológicos como insuficiência pulmonar, alteração da sensibilidade cardíaca (o coração torna-se mais sensível a adrenalina, hormônio liberado naturalmente pelo corpo em situações de stress. Isso pode fazer com que a pessoa sofra uma parada cardíaca a qualquer reação de surpresa ou medo, mesmo não estando sob o efeito da droga.

MNS – Quais danos o loló causa pros tecidos da boca, pulmão, traqueia, etc?

Fernanda – O loló e o lança perfume prejudicam especialmente a câmara lipídica de todos os tecidos com os quais tem contato, uma vez que a função dos solventes é dissolver gorduras. Dessa forma, pode prejudicar tecidos da boca, garganta e traqueias (mucosas), prejudica o desenvolvimento e o funcionamento dos pulmões.

MNS – Como a substância age no cérebro assim que a pessoa inala? Quais caminhos e que áreas ele afeta? Quais danos ele causa? São reversíveis?

Fernanda – Quando a pessoa inala um solvente, o gás espalha-se rapidamente – quase que imediatamente – pelos alvéolos pulmonares e vai direto ao cérebro. Por ser hidrossolúvel e dissolver gorduras, rapidamente atinge todas as células do encéfalo, embriagando instantaneamente o usuário. Por ser uma droga sedativa, diminui a atividade cerebral, a principio causando até uma desinibição, como no caso do álcool. O efeito começa quase que imediatamente após a inalação e perdura por cerca de 3 minutos, em média, podendo se estender um pouco mais, de acordo com cada organismo. Durante o efeito a pessoa sente uma sensação de sedação, é comum citar o pé gelado e a sensação de descolar-se do chão, fazendo perder também a noção de tempo e espaço. Junto a isso vem o “tuim”, que é um apito que a pessoa ouve ao fundo, como se todo o resto estivesse distante, ou como se a pessoa se tornasse expectador de si mesmo e dos demais. Esse “descolamento” da realidade, por um lado, ajuda aos tímidos que querem dançar em público, por exemplo. No entanto, o efeito passa muito rápido, deixando em seguida uma sensação de ressaca, o que faz com que a pessoa bafore novamente, e assim sucessivamente por longos períodos durante a festa.

MNS – Você já atendeu alguém que passou mal de loló?

Fernanda – Sim e a situação é bastante complexa, pois, no caso de parada cardiorrespiratória, às vezes é necessária a ressuscitação. Por isso uma noção de primeiros socorros e a disponibilidade e acesso a serviços de emergência são vitais nesse momento. No mais, a educação sobre drogas deve se fazer mais presente na vida da juventude como um todo, e o foco desta educação precisa mudar.

MNS – Existe alguma maneira segura de utilizar o loló?

Fernanda – O Loló é baseado em produtos químicos que não deveriam ser utilizados com este propósito (uso recreativo) e, por isso, é muito difícil pensar em formas seguras de uso. No entanto, é possível sim evitar danos maiores tomando algumas precauções com relação ao momento do uso, como: estar sempre acompanhados de amigos e pessoas de sua confiança, em um ambiente em que a pessoa se sinta segura, pois isso também influencia na direção da viagem que ela terá e, consequentemente, em suas reações; procurar sentar e manter-se afastado de quinas, guias, piscinas, durante o uso pois, no caso de quedas, evita-se contusões, afogamentos e acidentes mais graves; fazer muito uso de água antes, durante e após o uso, afim de hidratar e lubrificar as mucosas. Estar sempre bem alimentado e evitar usar durante toda a noite, evitando assim a sedação geral dos sentidos. Cuidar de si e do seu grupo é um ensinamento que vale não só para o uso de Loló, mas para a vida toda. É preciso resgatar um senso de comunidade nas pessoas de forma que, quando elas virem, por exemplo, uma mulher na calçada, inconsciente pelo uso e Loló, queiram ajudá-la e não violentá-la.

Saiba o que você está usando

Vale lembrar que o Loló, o Lança-Perfume e o Poppers são apenas 3 dos diversos tipos de inalantes que existem disponíveis no mercado e que são (ilegalmente) utilizados para dar um barato. É bom ficar esperto no que você está consumindo.
Apesar de todos terem a presença de hidrocarbonetos na fórmula, normalmente ou eles possuem o éter ou o tolueno, mas ainda existem os gases.

Tolueno: o tolueno é o que está presente nos removedores de tintas e também nas colas – ele é encontrado em substâncias como a acetona, o thinner e, antigamente, na cola de sapateiro – que hoje possui outros solventes e continua sendo utilizada do mesmo jeito.

Éter: Já o éter, apesar de também ser um solvente, é a substância que foi uma das primeiras a ser usada como anestésico.

Gases e Sprays: O butano, propano, buzina em spray e fluido de isqueiro também possuem efeito anestésico.

Agora que você já sabe de cabo a rabo quais os riscos (que não são poucos!) do uso do Loló vale a pena ficar esperto e, se for consumir, se lembrar de ficar atento com os cuidados necessários para que não dê xabu e a balada tenha um final não tão bacana.

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