Marcos Valle

“Esse momento contra a cultura é ‘cinzento’, mas eu continuo solar” – conta Marcos Valle em entrevista sobre a vida e carreira

Por Adriana Arakake

Nossa colunista Adriana Arakake entrevistou Marcos Valle nos bastidores do Sesc Pompeia momentos antes de seu primeiro show em São Paulo depois da pandemia.

Escrever sobre Marcos Valle para esta colunista que vos fala é algo realmente emocionante. Esse imenso artista, na ativa desde o comecinho dos anos 1960, quando montou um trio com Dori Caymmi e Edu Lobo e desde então, está em constante renovação. Me concedeu uma entrevista deliciosa, falamos sobre hits, disco novo e muito mais.

Marcos Valle nasceu no Rio de janeiro, em 14 de setembro de 1943. Começou estudar música clássica aos seis anos de idade e em 1962 lançou seu primeiro LP em companhia do irmão Paulo Sérgio Valle, com quem desenvolveu inúmeros trabalhos. Autor de vários sucessos, entre eles Estelar, Bicicleta e Samba de Verão, lançada inicialmente por Walter Wanderley, em 1966, alcançou o segundo lugar nas paradas de sucesso dos EUA na época, tornando Valle cada vez mais conhecido. A canção foi regravada por inúmeros artistas incluindo as instrumentais versões de Duke Ellington, Dizzy Gillespie, Ramsey Lewis, Oscar Peterson, ou a minha versão preferida, saída do Hammond de Brother Jack McDuff.

Esse é apenas um resumo muito pequeno da obra deste artista gigantesco, que certa vez declarou não curtir viver só de saudade, tem uma longa e maravilhosa estrada, sempre modernizando. Prova disso é que, ainda hoje, é extremamente querido pelo público jovem. Nos dias 3 e 4 de dezembro, finalmente pode apresentar para o público ao vivo, no Sesc Pompéia, algumas composições do groovado Sempre (2019), primeiro de inéditas desde o elogiadíssimo Estatística(2010); e principalmente de Cinzento, álbum lançado em  janeiro de 2020, que tem composições em parceria com Emicida, como a que dá nome ao disco; Bem Gil e Moreno Veloso, além de co-autores em algumas faixas, participaram do delicioso show, que contou também com Patrícia Alvi no vocal. Cinzento, traz mensagens políticas e fala de amor, próprio do estilo do artista.

Segue a deliciosa entrevista com a lenda viva Marcos Valle:

Adriana Arakake: Como foi a pandemia pra você? Produziu bastante!

Marcos Valle: Muito! Eu fiz muita música nova, devo ter feito umas quarenta músicas, no mínimo. Por exemplo, com Ivan Lins e Joyce, gravamos a música chamada “Casa que era minha”, cada um gravou na sua casa, produzi pra uma gravadora chamada Deck, eu e Ivan fizemos a música e Joyce a letra, e a banda toda, cada um na sua casa, depois mixamos, isso foi lançado nas plataformas digitais. Além disso, fiz músicas pra Céu, pro Silva, pro Francis Hime; e aí o Marcus Preto, que é produtor, me colocou em contato com o Emicida, quando fiz o disco Cinzento, me deu a ideia de fazer uma parceria com Nando Reis, O Nando queria muito fazer, eu sou fã dele, resultado: fizemos um projeto juntos, de dez músicas, que é um projeto para o ano que vem de um disco, quer dizer, já estou em frente com esse projeto; tem um disco pra Europa, também que fiz umas músicas e enfim…tem mais coisas. Mas basicamente, nós fizemos isso, fiquei com vários projetos pro ano que vem, então não parei.

 

 

A.A. Muitos artistas fizeram isso não é? Cada um na sua casa, se adaptaram

M.V. Sim! Muitas parcerias surgiram por conta disso. A própria Joyce, o Emicida também, compusemos uma música pra Alaíde Costa, que vai lançar um disco com a produção dele, enfim, fiz várias, várias coisas, logicamente eu senti a falta dos palcos, mas teve as lives, que foram uma companhia boa, foi interessante e assim fui passando e agradecendo por poder fazer música e estar vivo. Ter sobrevivido e ter a música como companheira.

A.A Show com público é o primeiro?

M.V. Meu é o primeiro. Na verdade, a única coisa que fiz antes foi com o Emicida, porque ele tem uma música no disco dele, Pequenas Alegrias da Vida Adulta, que eu também sou um dos autores, então fizemos uma apresentação para o Grammy Latino, porque ele ganhou o premio e fiz uma apresentação para o Festival de Montreux, foi presencial também, no Rio e era só instrumental, eu e (Roberto) Menescal, com banda, com todos os cuidados, mas isso ano passado, esse ano, é a primeira com público.

A.A. E como está a emoção?

M.V. Estou super emocionado, realmente, eu estava apreensivo, ao mesmo tempo que estava muito feliz, muito ansioso, uma mistura de medo e de excitação, como vai ser? será que a voz vai sair? será que eu vou… é um tal de será, será, será (risos) , então até a hora mesmo, até a gente ensaiar e principalmente no momento do show, mas foi tão bom, foi uma emoção fortíssima, o público foi maravilhoso. Quando cheguei em casa eu disse: Ah Meu Desu do céu, muito obrigado, foi vencida essa etapa, foi muito forte, muito forte.

A.A. Uma vez li uma entrevista sua onde você disse que não usava drogas, porque essa era sua droga

M.V. É verdade, eu só tomo vinho, minha droga é o palco.

A.A. Ainda mais agora né?

M.V. Ainda mais agora! Somando tudo, essa volta, isso tudo realmente é impressionante, pude constatar isso no show ontem. Engraçado que comentei isso com Moreno (Veloso), quando cheguei nos ensaios, ele não havia chegado ainda, eu estava com a banda, de repetente eu parei pra dizer: como é bom a gente estar fazendo música, como é bom.  Moreno chegou uma meia hora depois, começamos ensaiar de novo, de repente ele para e diz: gente como é bom fazer música de novo. Porque é muito forte, essa sensação, o dialogo com seus músicos, realmente, além dos palcos, essa é minha droga mesmo.

Marcos Valle e Adriana Arakake

foto: Willian Galvão (Sesc)

A.A. Você é um dos artistas que tem uma obra mais perene e que até hoje agrada muito o público jovem, qual a receita? Parcerias com gente nova, renovação constante?

M.V. Eu acho, Adriana, que tem uma mistura de coisas aí. Essas parcerias com artistas novos, acho que parte do seguinte, minha música é muito formada por vários elementos, porque eu me interessei por música desde garotinho de 3, 4 anos, e ouvia de tudo, desde música popular a clássica, estudei piano clássico, mas ouvia muita coisa, frevo, baião, samba canção, marcha de carnaval, eu adorava tudo, os ritmos, e ouvia muito jazz, ouvia rock, então eu fui, desde muito novo, até formar meu próprio estilo, me preenchendo daquelas informações, das coisas que me agradavam, então isso formou um estilo, esse estilo é muito formado, a mesmo tempo, pelas harmonias e melodias, mas muito pelo ritmo, que eu sempre gostei muito do ritmo, do groove, das batucadas, essa mistura, eu acho que foi o que começou interessar o público novo, após Bossa Nova, após Tropicália e até hoje, por que tinha ali uns elementos diferentes, dançantes, que são coisas naturais minhas, uma coisa foi puxando a outra, logicamente depois veio o interesse dos DJs, dos compositores novos e aí eu também me interessei muito porque gosto de novidades, de mistura, das parcerias, uma coisa foi levando a outra e ai pronto, isso se desenvolveu e faz parte, quanto mais eu fizer com pessoas que admiro é melhor.

A.A. Saiu Jazz is Dead agora também né? Ano passado

M.V. Exatamente! Foram 3 discos diferentes, primeiro foi um chamado Sempre, que foi pra Europa, que eu fiz todas as letras e que era mais dançante, Cinzento com essas parcerias todas e teve o Jazz is Dead que eu gravei durante cinco dias lá em Los Angeles, que já é uma outra coisa, então, isso que eu digo, minha música é versátil e pode dar origem a coisas assim.

A.A. Conta pra gente um pouquinho mais sobre Cinzento, esses shows aqui no Sesc são basicamente sobre esse disco, não é?

M.V. Isso, a gente ia fazer esse show aqui antes, o disco foi lançado um pouquinho antes da pandemia, mas não deu pra fazer, ficou em suspenso, agora pintou essa oportunidade de fazer, eu pensei, bom então a banda está formada, vamos botar várias músicas do disco e convidados né, pensamos nos convidados e veio a ideia do Moreno e do (Bem) Gil, cada um tem uma música no disco e eu adoro eles, já tinha feito show com Moreno, com Ben nunca, a gente já tinha conversado, isso em outras épocas, eles são adoráveis, ficaram muito felizes em fazer e pronto, ensaiamos com eles, montamos o repertório de uma maneira misturada, com músicas do Cinzento e outras de outros momentos e montamos o show, reativei os arranjos que fiz, que funcionam muito bem no palco e realmente tem uma vida no palco, uma vida fortíssima no palco.

A.A. Tem uns hits que não podem faltar né, Marcos?

M.V. Ah não (risos) isso não pode! Tem a gente tem que botar, eu junto umas músicas que tem a ver com Cinzento, que tem o groove, tem Estelar, que entra bem, o Freio Aerodinâmico vai muito bem com Mentira, elas se encaixam bem, monta bem com o repertório novo, então é importante, o público quer ouvir, então eu procuro fazer essas misturas.

A.A. Não vou te perguntar o que mudou porque muita coisa deve ter mudado, mas teve alguma coisa que você manteve desde que você começou? Do seu jeito de compor, ou de criar? Eu sempre te vi como um cara muito solar.

M.V. Olha, mesmo quando eu fiz Cinzento, porque é um disco balançado, grooveado, mas eu coloquei esse nome por causa do momento que a gente está vivendo, não estou falando de pandemia, estou falando do momento político, dessa coisa contra as artes, contra a cultura, foi ai que fui buscar um nome que simbolizasse o que eu estava imaginando, porque eu sou solar, eu gosto da alegria, eu sou o Samba de Verão, e essa coisa contra a cultura é um momento cinzento, mas eu continuo solar, muito otimista, sempre fui muito positivo, sempre acho que as coisas vão mudar e mudam. Na verdade tem fases, como essas, a gente se abate, lógico, eu fico tocado, mas eu mantenho meu lado positivo e mantenho muito essa coisa do garoto dentro de mim, essa criança, isso tenho mesmo, tenho uma alma de criança, gosto de brincar, me emociono com as coisas, vou do choro à alegria, sempre muito sensível. Por exemplo, quando faço um show, como agora, eu tenho que me controlar, se não saio dançando e berrando (risos), como uma criança que pensa que brinquedo maravilhoso. Então se eu tiver que resumir isso, eu mantive o otimismo, a juventude da alma e o interesse pelo novo, por saber o que eu gosto, o que posso vir a gostar e realizar essas parcerias, eu acho que isso mantenho igualzinho. Agora, hoje eu tenho mais o prazer do palco do que quando comecei na minha carreira, porque quando você começa, lógico, tem a novidade, mas o fato de eu já estar com quase 60 anos de carreira, nos palcos e fazendo coisas, eu dou mais valor ainda, hoje em dia eu dou um valor assim… por isso você pode imaginar a minha alegria e emoção da volta.

 

Esse é Marcos Valle, extremamente talentoso e como se não bastasse, absolutamente solar e gentil, um lorde, características que o fazem ser tão querido até hoje. Apresentou, como sempre, um show maravilhoso, o público saiu emocionado. Acho que não mais emocionado que eu depois dessa entrevista, porque assim como ele faz depois dos shows, também tive que me controlar pra não sair dançando. Mas minha alma estava, celebrando essa entrevista, a música e a arte. Sempre ela que nos salva, até nos momentos cinzentos. Viva!

Adriana Arakake

Adriana Ararake é DJ é especialista em Jazz, Soul e Blues do Music Non Stop.

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