Foto: ReproduçãoMarco AS: quem foi um dos pioneiros do techno nacional
DJ e produtor que ajudou a colocar a música eletrônica brasileira no mapa-múndi nos deixou na última terça-feira, 16 de dezembro
Hoje, a música eletrônica brasileira é respeitada em todo o mundo, a ponto de ocupar line ups de clubs, festivais, conversas e até mesmo figurar no seleto grupo de países que tem um gênero musical “só seu”. Não foi sempre assim. Houve um tempo em que éramos olhados de cima para baixo. Todo mundo queria tocar no Brasil, mas dava pouca atenção aos artistas que batalhavam por aqui.

Para bater de frente a esse olhar colonizador, uma turma de garotos resolveu peitar o tsunami gringo se desenvolvendo e fazendo música cada vez melhor, até reverter o sentido da corrente. Mesmo sem saber, os primeiros produtores capazes de bater de ombro com nomes de países como Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos e França, fizeram muito mais pelo cenário brasileiro do que imaginavam, ou sequer, almejavam. Um dos caras que ajudaram a virar essa mesa nos deixou na última terça-feira, 16, cedo demais: Marco Antonio Silva, mais conhecido como Marco AS — ou simplesmente Marcão.
“O futuro da música eletrônica vai ser quando eu tiver uma caixinha, apertar o botão e surgir um holograma com todos os sintetizadores. Eu toco, termino o show, aperto o botão de novo e levo a caixinha para casa.” Em entrevista ao programa web Skol Beats Factory, criado pela Vice nos anos 2000, o homem já mostrava que, além de talentoso, era profeta.
Criado em 2004, ao lado do amigo de rolês Pedro Turra, o Click Box foi seu maior êxito, principalmente após caírem nas graças dos três mosqueteiros do selo alemão M-nus: Richie Hawtin, Magda e Troy Pierce. A turma se apaixonou pelo som dos moleques, passou a tocar suas músicas antes mesmo de serem lançadas e abriu caminho para a dupla fazer turnês pela Europa.
“Fomos tocar na Itália e garotos apareciam com o nome de uma música nossa no celular que nem sabíamos se seria lançada”, contaram Marcão e Turra ao programa Batuque, da MTV, no final daquela década. O sonho havia se tornado realidade. Viraram amigos de seus ídolos e, por tabela, ajudavam a explicar para os gringos aqui na terra de Cidade de Deus que se sabia fazer música de alto nível.
O Click Box acabou, as mudanças de layout dos sites de internet foram mudando e os gaps na nossa história da música eletrônica foram se tornando abismos perigosos. Hoje, tem muita gente que produz e lança techno brasileiro na gringa e não sabe quem foi o duo, ou até que eles eram artistas daqui, de São Paulo.
Não é novidade que a história ainda é cheia de buracos escuros, com muita coisa a ser contada. E principalmente, muita gente ainda segue sem seus devidos créditos. A morte de um artista faz com que nós, jornalistas, historiadores do presente, tomemos um choque, vasculhemos a gaveta e olhemos para esses vazios de informação, antes que o tsunami diário de notícias nos arrastem novamente para uma “novidade” da música. Até mesmo nesse sentido, a sacanagem de nos deixar na mão e partir para o céu, perpetrada de surpresa pelo Marcão, presta serviço à cena eletrônica de seu país.
Com o fim do Click Box, Marco AS seguiu em suas peripécias dançantes. Fundou seu próprio selo independente e criou, ao lado da DJ Eli Iwasa, o projeto Bleeping Sauce.
“Quando ele ficou sabendo que eu tinha começado a fazer aulas de canto, logo me convidou para ir ao estúdio, ouvir o que ele vinha produzindo, e me falou sobre a ideia de eu fazer os vocais no projeto. Deu certo logo de cara!”, contou Eli ao Music Non Stop, em 2016, dois anos após a dupla ter estreado com um EP no selo francês Meant Records. A nova empreitada saciava a sede de Marco Antonio, músico de formação, a absorver mais influências melódicas, de gêneros como o synth-pop e o pós-punk.
Nos últimos tempos, aliava a vida artística à produção de trilhas publicitárias. Seguia incansável no estúdio, com lançamentos recentes como os EPs Learn e Escape (pela Tune City) e Genesis (pela DOC Records). “Ele produz muita coisa, não para… sempre com ideias novas”, completou Iwasa. Só esqueceu de avisar todo mundo que iria passar de fase, deixando-nos atônitos.
“Um dos maiores compositores e produtores que eu já conheci”, cravou o mestre e parceiro Gui Boratto, em suas redes sociais.
E você, DJ e produtor brasileiro que hoje tem portas abertas em selos e clubes gringos, deve homenagens a Marco AS e o time pioneiros do techno nacional.



