Mais de mil imagens de mulheres ativistas e intelectuais do século XX estão disponíveis para consulta pública.

Amanda Sousa
Por Amanda Sousa

Você já imaginou ter acesso a registros fotográficos históricos de mulheres ativistas e intelectuais do século passado? Seria incrível, não é mesmo?! Pois é, agora isso é possível graças a um riquíssimo acervo fotográfico organizado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da Fundação Getúlio Vargas neste período de pandemia.

São, aproximadamente, 35 mil páginas com registros de texto e imagens e, dentre o vasto acervo, estão cerca de mil fotografias da escritora e poetisa brasileira Anna Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça e também da antropóloga carioca Yvonne Maggie. São fotos de momentos da vida pública e privada, viagens, primeiras versões de livros, enfim, registros importantes das vivências dessas mulheres que tiveram um papel fundamental na defesa dos direitos das mulheres, das questões raciais, educativas e militâncias. 

Passear por este compilado minucioso é quase que um caminho sem volta e que merece ser observado com atenção e carinho. Cada anotação feita à mão, processos de criação, projetos… prestar atenção à grafia arcaica, ao estilo de compor as palavras da época. Definitivamente é uma experiência única e que vale a pena.

Destacam-se, no acervo, fotografias de um álbum da viagem feita de Zeppelin por Anna Amélia, quando foi indicada pelo presidente Getúlio Vargas para participar como delegada do Brasil no XII Congresso Feminino, em abril de 1935, em Istambul. As fotos e as primeiras versões do livro “Quatro Pedaços do Planeta no Tempo de Zeppelin” também estão disponíveis.

Anna Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça (6ª da esquerda p/ a direita), Jerônima Mesquita (5ª da esquerda p/ a direita), Berenice Paes Leme (1ª da direita p/a esquerda) e outras na exposição da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF), nos anos 30.

Já no espaço dedicado à Yvonne Maggie,  estudiosa das religiões afro-brasileiras, há um rico conteúdo sobre suas pesquisas e sua vida acadêmica. São registros feitos durante o trabalho de campo para sua tese de doutorado, depois publicada no livro Medo do Feitiço: relações entre magia e poder no Brasil. As fotos retratam a própria, as mães de santo Dona Conceição e Dona Cacilda. Na coleção, há também registros de objetos do Museu da Polícia Civil do Rio de Janeiro e do Museu Antropológico Estácio de Lima, em Salvador. Todos esses documentos podem ser acessados gratuitamente no Portal do CPDOC.

Termino aqui, dando-me a honra de transcrever um poema escrito à mão por Anna Amélia em 1912, que você pode encontrar no acervo. Um poema puro, sensível e verdadeiro.

“Quem pensa que a paz é um gozo
Vossa sorte não lamenta
Quem com o que tem se contenta
Sempre será venturoso

Ter paz e tranquilidade
Ter a alma serena e pura
Que é mais que a felicidade,
Que a verdadeira ventura? 

Quem tem prazer no trabalho
E é rei na choupana suja
É feliz como a coruja
Que tem um trono num galho

E nesta vida passageira
Tudo nos mostra e nos diz
Que a ventura verdadeira
É não tentar ser feliz”

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