Luedji Luna Foto: Divulgação

Queridinha dos DJs, Luedji Luna toca em seu 1º festival de música eletrônica

Jota Wagner
Por Jota Wagner

No Só Track Boa Festival, cantora e compositora performa Yara, música lançada nesta sexta-feira com Francis Mercier e Frigid Armadillo

Luedji Luna é uma das artistas mais abertas para os DJs, no cenário atual da música popular brasileira. Quando viu Banho de Folhas, canção de seu primeiro disco, ganhar o mundo através dos remixes feitos por nomes como DJ Nyack, Moma e Maz, a artista “liberou geral”. E lança, pela primeira vez, uma música produzida em colaboração. Francis Mercier, haitiano e expoente mundial do gênero afro-house, fez as batidas, ao lado da dupla sul-africana Frigid Armadillo. Coube a Luna recuperar uma letra que estava na gaveta e adaptá-la à nova música direcionada para as pistas de dança.

Em Yara, lançada nesta sexta-feira (14), Luna se impõe sobre os batuques eletrônicos de Mercier e Armadillo. A letra que a artista escolheu vem de uma pesquisa feita, anos atrás, sobre a fauna e a flora brasileira. “É uma música superssolar, que traz muitos elementos. Sinto que é uma faixa com tanto impacto quanto Banho de Folhas“, conta ao Music Non Stop.

Enquanto mulher elástica, Luedji Luna se estica, segurando com uma das mãos o Elevador Lacerda, em Salvador, enquanto a outra está cravada na costa africana. Faz força para aproximar os dois continentes, junto com enorme leva de artistas “atravessados pela cidade”, como diz na entrevista feita da casa onde vive atualmente, em São Paulo.

Realmente, a conexão representa a possibilidade um futuro bastante solar para a música brasileira, e explica o interesse dos DJs pela música de Luedji Luna. Afinal, a afro-house, vertente que mistura elementos da house music com o Kwaito, sensacional ritmo festeiro de quebrada criado na África do Sul no começo dos anos 90, combina muito com o som do nosso país, em especial o das regiões que historicamente flertam com nossa ancestralidade negra, como é o caso da cena artística soteropolitana.

Namoro novo, que tem muito a nos oferecer. Tanto que Luedji Luna sobe a um palco de música eletrônica pela primeira vez para performar a música ao lado de Mercier neste sábado, no Só Track Boa Festival. Que venham mais apresentações, mais artistas, mais colaborações e um definitivo casamento entre a música brasileira e a afro-house!

Jota Wagner: Você está lançado Yara, uma música junto com o DJ haitiano Francis Mercier. Como surgiu este encontro entre vocês?

Luedji Luna: Desde que lancei Banho de Folhas, canção do meu primeiro disco que acabou virando um hit, eu venho flertando com essa lógica de remixes. O primeiro remix desta música foi do DJ Nyack, em um EP todo de versões. O segundo foi o DJ Moma, de Nova Iorque. Depois, perdeu o controle, e fui liberando tudo.

O último remix foi de um DJ do Rio de Janeiro, o DJ Maz. Este hitou nos Estados Unidos e no verão europeu. Ele a tocou em todos os festivais possíveis e imagináveis. Tomorrowland, Coachella, em Saint-Tropez… Virou uma canção viral neste universo da música eletrônica, que eu particularmente não acompanho. Mas eu vi que estava rolando, acompanhando as postagens e vendo realmente que a canção, nas plataformas, tinha milhões de audições.

Eu acho que esse remix fez aumentar a demanda de DJs querendo fazer coisas comigo, e o Francis veio nessa leva. Só que, ao contrário de pedir para fazer um remix de uma canção minha, ele me mandou uma track e pediu para eu compor em cima dela. Eu tinha essa letra, antiquíssima, em que fiz uma pesquisa da nossa fauna e flora. Então ela é muito brasileira também. Peguei o beat e fui tentando encaixar a letra ali. Deu certo. Nasceu Yara. Gravei aqui, no estúdio que tenho na garagem da minha casa. É uma música superssolar, que traz muitos elementos.

Vamos ver o que vai acontecer. Eu sinto que é uma faixa com tanto impacto quanto Banho de Folhas.

Você acabou ficando muito aberta para este jeito dos DJs de se comunicar através da música. Você é baladeira?

Não. A única vez que eu efetivamente toquei num rolê de rave foi no Universo Paralello, que acontece lá na Bahia. Eu estava no line-up. Mas, de modo geral, ainda mais depois que eu virei mãe, eu não tenho saído muito. Mas tem uns rolês que eu gosto de fazer. Gosto muito de ir na Discopédia, que rola todas as terças [em SP]. Quando cheguei em São Paulo, ia muito na Sintonia, também no meio da semana. Mas balada mesmo, só Netflix (risos).

 

Pela primeira vez, você gravou os vocais sobre uma produção eletrônica. O que achou da experiência?

Eu gosto de fazer música. É o que eu mais gosto de fazer. Mais do que fazer show, ficar viajando pra lá e pra cá, aquela maratona de turnê com toda a adrenalina de palco… Eu tenho intimidade mesmo é com a escrita. Muita facilidade para fazer música. Adoro ver uma coisa começar do zero e ganhar proporções, sabe? Crescer, no sentido de se espalhar pelo mundo. Aquela coisa que fiz aqui, na minha casa.

Acho esse processo muito bonito. Então, não é um desafio tão grande mudar de universo, de estilo ou de processo criativo. Contanto que seja música, eu tô de boa.

Quando você está fazendo música, pensa no resultado final? Em como ela vai bater no público?

Muitas vezes eu componho sozinha. Tipo, voz e violão. Aí já nasce a melodia, a letra, tudo junto. Mas há vezes em que faço só a letra, que é o que mais gosto de fazer, escrever poesia. E aí componho junto com amigos, parceiros, músicos que harmonizam e fazem a melodia também. Mas o processo de saber como vai ser a canção é depois, não quando ela nasce, sabe?

Eu não faço uma canção pensando se ela vai ser lenta, se vai ser festiva ou se vai ter percussão. Há vezes em que você faz uma canção superlentinha no andamento, e daqui a pouco bota um groove de bateria, aí aumenta o andamento, e fica tudo com outra roupagem. Acontece, às vezes, de eu ouvir os sopros. Eu tenho uma coisa muito grande com sopros.

Agora eu estou produzindo um disco novo. É um processo de cada vez. Primeiro tem o rascunho, que é um áudio com voz e melodia gravados no celular. Depois vem o processo de estúdio, onde a gente vai pesquisando grooves. O que ajuda é que eu escuto muita música. É aquela coisa: quem escreve tem de ler, e quem faz música tem de ouvir, né? Escrevo muito, identifico os grooves que gosto, canto algumas referências e experimento muito em estúdio. Aí escolho, “vou por esse caminho aqui”. O resto, a gente faz no final da canção. Até lá, muita coisa pode acontecer.

Ter crescido em Salvador, que é um polo cultural com conexão gigantesca com a herança africana, facilita ou dificulta para compor?

Eu acho que a Bahia me deu régua e compasso, como diz Gilberto Gil. A minha primeira escola de música, aliás, foi a minha casa, através dos meus pais. Sinto que não me atrapalha, mas me atravessa. Atravessa meu trabalho com toda essa memória afetiva. Assim, minha identidade foi se fazendo, a partir desse fundamento que Salvador me deu, que meus pais me deram, e das pesquisas que fui fazendo.

Fui também muito atravessada pela MTV na adolescência. Depois, vindo para São Paulo, atravessada pela música urbana, pelo rap. Sou casada com um rapper, inclusive. Os atravessamentos dessa minha caminhada estão presentes na minha música. Fui agregando tudo com a minha trajétoria de vida.

Você é filha de um historiador e uma economista, ativistas também… Como foi o privilégio de ter um casal como este em casa?

Meus pais são dois revolucionários. Se conheceram jovens. Minha mãe me teve com 27 e eles já namoravam há anos. Eles se conheceram nesse contexto de militância no movimento negro e partidário, ambos de esquerda. Minha mãe é economista e meu pai é historiador, como você disse. Eles uniram forças para sair da miséria — não só a miséria individual, mas também construir um projeto político que tirasse a comunidade deles da miséria. Meu pai, até hoje, milita no sindicato.

Eu fui uma filha planejada e educada a partir dessas bases. Eu tive realmente esse privilégio, essa sorte de ter vindo de uma família que, além de ter me dado o básico, também me deu essa base política, essa consciência de classe, essa consciência racial, desde muito nova. Eu nunca tive espaço para não saber o nome das violências. Aquilo que eu passava tinha nome. Nunca era sobre mim: “Ah, você não é feia. O que você está passando é racismo. O nome disso é racismo”.

Eu queria saber qual foi a reação deles quando sacaram que a filha estava indo viver a dificílima vida na música…

Cara, foi um caos. Eu digo que a culpa foi deles, porque eles são supermusicais também. Minha mãe e meu pai escrevem muito. São superpoetas. Eu até já compus uma canção cuja a é letra do meu pai. Então eu venho desse lar artístico, que eles não puderam expressar e desenvolver.

Eles fazem parte de uma geração que fizeram o que deviam fazer, o que podiam, o que estava dentro das limitações. Eu faço parte de uma geração que faz o que quer.

Coragem seria a palavra certa a ser usada?

Coragem nem seria o caso. É não ter condições mesmo, porque meus pais vieram de periferia. Minha avó veio da roça, meus pais vieram da quebrada de Salvador, um dos bairros mais violentos que tem lá. Eu já cresci em Brotas, que é um bairro de classe média baixa. Eu morei em condomínio fechado, tenho outro ponto de partida. Então é natural que os meus desejos, que meu ímpeto, que meu afã seja outro. Que meus medos sejam menores. Não conheci a miséria. Então, acho que foi um processo natural dessa evolução e fruto, dessa história de luta, de sacrifícios.

Eu tive que vir para São Paulo para ser cantora, eu tive que largar a cidade, largar a família, passar por isso, por aquilo, para conseguir me estabelecer aqui e conseguir fazer minha música, ser cantora, etc. O meu filho é paulistano, entende? Ele já nasce num lugar onde tudo acontece.

No final de semana, você canta junto com o Francis Mercier. Que expectativas você cultiva para essa apresentação?

Eu não faço ideia como é que é cantar pra balada, nunca fiz isso. Graças a Deus, eu vou cantar uma música só, a Yara. Então, não sei como vai ser a experiência, mas eu sei que vai ser rápido. E espero que o povo goste, que se divirta. E que eu me divirta também.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.

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