Fabio Santanna - Live Motel

Conversamos com Fabio Santanna sobre seu novo álbum, Funk-se, lançado sob o codinome Live Motel

Por Music Non Stop

Trocamos um papo com Fabio Santanna aka Live Motel sobre seu novo disco, Funk-se

Por Maria Angélica Parmigiani

 

Na arte da composição sônica, pode-se dizer que Fabio Santanna é um verdadeiro alquimista. Quebrando os paradigmas do tempo e espaço, o artista carioca faz musicalidade plural com uma fluidez que surpreende. O tal músico nato: multi-instrumentista, DJ, produtor, idealizador do Live Motel e parte do duo Nu Azeite ao lado de Bernardo Campos, ele agora assume a bronca para se tornar o fundador e label head da Na Nave Records.

Com um propósito nobre, a gravadora vem com motes como agregar, representar,  incluir e expandir. Trabalhar a riqueza musical brasileira dentro da esfera eletrônica, mas quebrando padrões esendo porta de entrada para artistas negros que almejam o sonho de prosperar dentro de uma carreira artística no Brasil. Para abrir os trabalhos, Fabio entrega Funk-se como uma resposta ao que ele se propõe nesta nova empreitada. Uma mistura leve entre o Funk, Boogie, Nu Disco, Afro e influências de Herbie Hancock, Lincoln Olivetti e Black Rio. Trocamos uma ideia com ele para saber mais, vem ver:

MNS: Olá Fabio, como vai? Bom, você é carioca e sua terra é considerada um solo fértil para a arte e também por dar um toque especial à música eletrônica. Essa fertilidade toda influenciou você em que aspecto? Quais são suas bases?

Fabio Santanna: Estamos resistindo bravamente no momento, plantando sempre! Eu que agradeço poder trocar essa ideia com vocês, sou fã. Sou uma cara oriundo da periferia do Rio de Janeiro, migrei pra zona sul ainda cedo com a minha mãe, buscando uma vida melhor, mas sempre mantive essa ponte periferia/zona sul, baile, praia, samba, funk, isso me fez um cara urbano, da rua, da conversa, da troca, ampliou o meu olhar, o meu gosto. A minha base foi a de aprender fazendo, estudando aqui e ali, onde dava, aproveitando cada oportunidade, somando essas experiências .

 

Suas faixas seguem pelas linhas do Funk, Disco, Soul, Boogie e brasilidades, certo? Esses sons estavam presentes em seu trabalho desde o início ou você naturalmente gravitou em torno deles? Quais são os artistas que te inspiraram a chegar onde você está musicalmente?

Olha sou um amante da música, dos discos, das rádios, dos bailes, dos shows. A minha formação musical é super eclética, clássica, rock, popular. O meu projeto Live Motel vai mais de encontro a essas referências que você citou, curto demais. São muitos os artistas que me inspiraram e continuam me inspirando, a arte é uma célula viva que me alimenta constantemente. Mas citando alguns, Gil, Caetano, Bowie, Jorge Ben, Marvin Gaye, Daft Punk, Lincoln Olivetti, Stevie Wonder… são muitos, rs.

Live Motel

Capa de Funk-se

Existe uma riqueza musical em suas produções no Live Motel. Os elementos e suas referências, melodia, vocal, multi instrumentos, tudo bem amarrado. Você compõe, produz, arranja e tem um portfólio musical amplo, de onde Fabio Santana tira tanta criatividade? Quais são seus instrumentos aliados?

O Live Motel é o meu playground, meu parque de diversões. Criei o projeto nesse intuito, diversão. Nele coloco minha paixão por synths, bass, guitarras e invento vocais. Sou guitarrista de formação e tecladista por paixão.

Curiosidade minha: e por que Live Motel?

Olha, é difícil de explicar (risos). Mas na minha cabeça começou com aqueles logos neons de motel americano de estrada e estética oitentista synthwave, achei a junção das palavras boas.

Você tem projetos paralelos também, né? O Nu Azeite é um blend refinado e cheio de musicalidade entre você e o Bernardo Campos. Como funciona o processo de criação das faixas neste formato de trabalho? Qual a parte boa de ser sozinho e de ser duo e no teu caso, poder ter as duas facetas?

Tenho alguns projetos paralelos sim, faço trilhas e colabs diversas, tudo no meu estúdio “Na Nave”, um espaço para dar vazão e viabilizar projetos e ideias. O “Nu Azeite” é um projeto que tenho enorme carinho, adoro fazer música com o meu parceiro Bernardo Campos, o cara é um craque, super generoso e conhece muito de som, funcionamos muito bem juntos, temos muito em comum, o disco novo está quase no final, tá demais! As duas partes tem coisas boas, em cada uma delas me divirto e aprendo de maneiras diferentes. Tudo para mim é agregador!

Pensando no “presente”, é inevitável pensar na pandemia. Para alguns, foi um boom de criatividade em estúdio, enquanto para outros foi o momento de percorrer outras camadas da profissão… pra você?

Eu moro num estúdio, literalmente (risos). Metade da minha casa é um estúdio, então eu já estava ali. Foi um privilégio ter esse porto seguro, a música sempre me amparou, na pandemia não foi diferente, trabalhei bastante.

Pensando em comportamento: até começo de 2020 o que notava-se era uma efervescência na Dance Music no RJ, alguns coletivos investindo bastante em curadoria musical voltada à sons como a Disco Music. Como você enxerga essas vertentes no mercado? É uma tendência global? Com tanta bagagem: o que você sente vem por aí?

Olha, quando a gente pensa e fala mercado… pode ser muita coisa. Vivo de música desde muito cedo e acompanhei várias tendências ou coisas que as pessoas diziam ser tendência, mas em paralelo a isso, aconteciam muitas coisas que se alimentavam, tem as com mais foco na parte artística, na parte de eventos, festivais. Então para mim sem demagogia a tendência é o que já vimos, a música hoje não tem limites, tudo depende de como você vai desenvolver aquela ideia, aquele produto, chegamos num estágio onde uma pessoa pode criar a sua própria tendência o seu próprio público. A tendência é infinita.

Aproveito o gancho para perguntar sobre seu mais novo álbum, Funk-se, que estreia o catálogo de sua nova gravadora, Na Nave Records. Conta pra gente sobre esse passo importante. Vi que você quer também ser uma base para artistas negros poderem lançar, visto a branquitude do mercado fonográfico.

Funk-se é um convite, sem apontar dedos. Mas perguntando se a gente não pode ampliar o olhar, os sentidos. O ser humano é diverso por natureza, as pessoas são diferentes, os gostos são diferentes. Existe uma certa repetição que muitas vezes deixa pouco espaço para outros segmentos, outros artistas. A música eletrônica brasileira tem um potencial gigantesco, tem um público diverso, mas quando pensamos principalmente em mainstream, somos limitados, repetimos fórmulas, padrões… temos que ter mais diversidade, é aí que está o nosso potencial, mais mulheres, mais negros, mais periferia, mais Brasil.

Fabio Santanna - Live Motel

foto: divulgação

Algum desafio que te marcou nesse aspecto e foi ponto motivacional para o nascimento da Na Nave?

A minha vida toda. Você ser um músico negro vindo da periferia já é um desafio gigantesco. Só eu sei como foi para ter o meu primeiro instrumento, o que tive de fazer, de me preparar para conseguir meu primeiro trabalho. Toda a minha trajetória, foi uma busca de uma auto suficiente para poder existir como cidadão e como artista. O Mano Brown sempre fala uma frase “o foco é o cofre”, precisamos de recursos, precisamos de auto suficiência e de estar no topo para a nossa voz e a nossa arte ser ouvida.

E o álbum? Um passarinho me contou que você se inspirou nas obras de Lincoln Olivetti, Black Rio e Herbie Hancock em uma dança orgânica e eletrônica. Fale sobre ele, o que vamos encontrar nessa coletânea?

Funk-se são 7 faixas, queria trazer a uma conversa da música eletrônica com o funk, o soul, o afro, a brasilidade, o jazz. Esses grandes artistas que você nomeou são pilares e mestres nessa conversa, me inspirei neles para mandar o meu papo. A minha visão de house, disco, funk, Nu disco…

Mesmo sem shows em boa parte do mundo, as produções e lançamentos aconteceram de forma expressiva. Você tem mais novidades para 2020?

Tenho mais alguns lançamentos até o fim do ano, um belo remix com o “Processman” um super produtor baiano que tem um trabalho super bacana e já colaborou com artistas como Yuksek entre outros, e algumas colabs surpresas.

Também devo fazer um show de lançamento do disco em novembro, não sei se já poderei contar com algum público presencial, espero que sim. Vacina no braço e Funk-se!

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