James Blake Foto: Thibaut Grevat/Reprodução

Review: James Blake se reconecta com o passado em novo EP

Jota Wagner
Por Jota Wagner

“Sua música é tão londrina quanto a cabine telefônica vermelha, o ônibus de dois andares ou a fuligem preta que se acumula pelas quinas das calçadas”

CMYK 002, o nome do novo EP de James Blake, lançado no último dia 15 de junho, entrega o principal objetivo do artista com a nova empreitada. Conectar-se com o Blake lá de trás, o garoto que ainda compunha e gravava música no quarto de casa, em 2010. CMYK (o “001”) foi o terceiro single lançado pelo garoto, e a estreia no seminal de selo de música eletrônica R&S Records.

Filho de pai músico e formado em música pop (sim, na Inglaterra eles têm cursos superiores como este), Blake causou comoção instantânea graças à sua competência na produção. Todos os elementos de suas obras soam maduros, experientes. As batidas, os sintetizadores, os blings e boings, e até mesmo o silêncio que o produtor matematicamente reserva na construção de seus ritmos, tornando a faixa respirável e excitante, se fundem num trabalho cujo nível não se encontra facilmente nas prateleiras.

Conhecedor de cada beco do imenso labirinto da música eletrônica britânica, a capacidade de James em desenvolver uma assinatura única, ainda que mergulhado até o pescoço nas raízes da sua terra natal, o fizeram cair nas graças dos gigantões do pop, com quem colaborou extensivamente nos últimos dez anos. Beyoncé, Jay Z, André 3000, Rosalía, Kendrick Lamar, Frank Ocean, além de uma porção de outros, de semelhante quilate.

Enquanto não estava polindo as esculturas musicais de grandes astros, o artista aproveitou para enfileirar uma sequência de álbuns de singela beleza industrial, misturando pop com música experimental. Foram seis lançamentos desde 2011, sendo o mais recente, Playing Robots Into Heaven, de 2023, uma pérola da música eletrônica inteligente.

Em CMYK 002, o James Blake reconecta-se ao começo da carreira, servindo simplicidade em quatro faixas excepcionais, devidamente vestidas do underground que o pariu. Se a ideia é encerrar um ciclo e então se ver livre para tentar outras coisas, o objetivo foi cumprido. Mas, talvez, ele tenha apenas se ligado de que poderia estar se tornando pop demais, e ressuscitar o CMYK foi apenas um recado ao mundo de que ele não se esqueceu de suas raízes.

E por falar em raízes, o som de Blake, tanto no novo EP como nos álbuns anteriores, é absurdamente inglês. Não tem nada de Berlim, de Chicago, de Detroit ou Nova Iorque. Sua música é tão londrina quanto a cabine telefônica vermelha, o ônibus de dois andares ou a fuligem preta que se acumula pelas quinas das calçadas. E ainda que seguindo na mesma estética musical, o produtor soa moderno e atual, ao contrário de muita gente que tenta lançar trabalhos revisitando os anos 90.

Com o perdão do coloquial superlativo, CMYK 002 é um puta de um EP, com quatro faixas irrepreensíveis, a ponto de ficar difícil escolher qual a predileta. James Blake desconstrói a ideia de que o dinheiro e a fama corrompem qualquer um. E isso é um grande serviço prestado à música.

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.

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