Há 45 anos David Bowie lançava a obra prima Station to Station. Conheça 10 fatos interessantes sobre o disco

Por Jota Wagner

No começo de 1976 o mundo conheceu um dos melhores discos de David Bowie e um dos mais cultuados da década de 70. Já com um pé na Alemanha, onde se dedicaria a gravar os álbuns de sua icônica “trilogia de Berlim”, Bowie solidificou sua paixão pelo funk, ousou em suas letras e se despediu de sua persona “Thin White Duke”

Em janeiro de 1976, as expectativas para a chegada de Station to Station eram enormes, graças à ótima repercussão do single Golden Years (com a música Can You Hear Me no lado B do compacto) lançada em dezembro. Era a oficialização do casamento de David Bowie com o funk, cujo namoro foi conhecido pelo público no álbum anteior, Young Americans.

Muito bem recebido pela crítica e sucesso de vendas, a obra prima chegou às lojas dia 23 de janeiro e era, poucos sabiam até então, uma transição na carreira do cantor, que consagraria definitivamente sua discografia com três álbuns lançados em Berlim considerados até hoje os mais geniais de sua carreira.

Talvez o único artista capaz, até hoje, de colocar o rock´n´roll em segundo plano após solidificar sua carreira e, ao invés de causar histeria em sua base de fãs, virar uma referência em liberdade criativa e um transmitter de tendências observado por seus pares, mídia e público.

O Music Non Stop selecionou dez curiosidades sobre Station to Station para que você deguste enquanto ouve o álbum. A playlist está no final da matéria. Divirta-se!

 

1. Quase não se chamou Station to Station

O primeiro nome pensado para o álbum por Bowie for The Return Of The Thin White Duke Thin White Duke foi a última persona encarnada por Bowie, já célebre por criar personagens que acompanhavam suas tours, como Ziggy Stardust, e cuja última menção foi neste disco.  A ideia para batizar o álbum então mudou foi Golden Years, mas acabou sendo oficializado como Station to Station, nome da canção que abre o disco.

2. Then we take Berlin

A famosa trilogia berlinense de Bowie, formada pelos álbuns Low e Heroes, de 1977, e Lodger de 1979, marcam a carreira do artista como suas obras primas fundamentais.  Porém é em Station to Station que se nota pela primeira vez a atenção que David Bowie estava dando à música alemã.  Além de assumir a influência de funk e soul que havia apresentado ao mundo com Young Americans (1975), o compositor apresentou aos fãs sintetizadores e a famosa batida motorik, difundinda por bandas alemãs omo Neu! CAN e Kratwerk.

David Bowie e Iggy Pop em Berlim – Foto: Triniti Mirror

3. O disco da amnésia e da paranoia

Durante as gravações de Station to Station Bowie estava no auge de sua dependência em cocaína.  Um dos motivos de sua mudança para Berlim, no ano seguinte foi, justamente, uma atitude para ser livrar do ‘white horse‘.  Em entrevistas posteriores, Bowie afirma só saber que o disco foi gravado em Los Angeles porque leu a respeito anos depois. O que sobraram no privilegiado cérebro do gênio do pop, segundo o próprio, foram flashes das gravações. O que Bowie se lembra desta época no entanto, é de arrepiar.  Contou em entrevista à revista Rolling Stone que vivia em estado de terror paranoico o tempo todo, acreditando por exemplo que bruxas haviam roubado seu sêmen e que era perseguido por Jimmy Page a mando do mago satanista Aleistey Crowley.

4. Temperando o pop com erudições literárias

Station to Station foi considerado um dos discos musicalmente mais acessíveis de Bowie. No entanto, o compositor não deixou barato nas letras. Além de usar referências do já citado Aleistey Crowley que, para registro, foi uma moda entre a classe artística da época influenciando gente do mundo inteiro, incluindo aí os brasileiros Raul Seixas e Paulo Coelho, Bowie também temperou Station to Station com Nietzsche, mitologia e religião.

5. Quase uma trilha sonora de filme

O projeto principal de Bowie neste momento de sua vida era assinar a trilha sonora do longa The Man Who Fell The Earth, dirigido por Nicolas Roeg, onde também atuou.  Frenético, decidiu também tentar escrever uma pseudo biografia de seu avatar na época, o Thin White Duke.  Como o dia só tem 24 horas, mesmo para quem corria o pique de Bowie, o projeto da trilha sonora foi abortado e, por sua indicação transferida para John Phillips, do Mamas and The Papas.  A partir de então, Station to Station começou a tomar forma. A capa do disco, inclusive, é o print de uma cena.

6. A homenagem que quase rendeu um disco em conjunto com Elvis Presley

David Bowie escreveu Golden Years para que ela fosse gravada pelo seu maior ídolo, Elvis Presley. Segundo depoimentos de pessoas próximas, Bowie pediu que sua esposa Angie mostrasse a música a Elvis em um evento em que se encontrariam.  Angie ficou tão nervosa porém, que não teve coragem de abordar o assunto com o rei do rock.  Anos mais tarde, Elvis ficou sabendo da história, ouviu e amou Golden Years, a ponto de decidir com sua equipe convidar Bowie para produzir seu próximo disco, o que acabou não acontecendo devido à sua morte, seis meses depois do contato.

O rei do rock e do pop, quase juntos em um disco

7. Golden Years foi apresentada ao vivo no icônico programa de funk & soul  Soul Train

David Bowie foi um dos primeiros artistas brancos (precedido apenas por Elton John e The Average White Band)  a se apresentar no Soul Train, programa de TV dedicado ao soul e funk, considerado um dos maiores patrimônios da cultura black americana.  No Soul Train, os mais renomados artistas do groove se apresentavam enquanto uma plateia dançava. Quem nunca viu as cenas em que a galera abre um corredor e o público arrebenta no passinho?  A pressão obviamente era grande e Bowie admite ter precisado de uma boa sequência de doses para subir ao palco. Mas foi elegante e sensual como de costume durante a entrevista e o playback.  Golden Years foi lançado como single, em compacto, dois meses antes de Station to Station.

 

8. Station to Station quase teve um cover de Bruce Springsteen

Bruce Springsteen é uma das maiores unanimidades do mundo da música. Dos punks aos modernosos , passando pelos caipiras americanos, é o cara com quem todos gostariam de jantar um dia, tamanho carisma. Não é novidade que o cara sabe encantar. Quem não se lembra do cover de Sociedade Alternativa, do Raul Seixas, que o homem puxou cantando em português nos shows do Brasil? A música gravada por Bowie nas sessões do Cherokee Studio, em Los Angeles, foi It’s Hard to Be a Saint in the City.  Nas edições finais, no entanto, a música foi deixada de lado e incluída somente na coletânea Sound And Visions, de 1990.

9. A turnê de promoção – Isolar

A turnê de promoção do disco se chamou Isolar Tour e aconteceu de 2 de fevereiro a 18 de maio de 1976. O clima de abertura era dado pela música Radioaktivictät, do Kraftwerk que conhecemos aqui na versão em inglês Radioactivity, com imagens do filme Un Chien Andalou, de Luis Buñuel e Salvador Dali. O figurino era o da personagem Thin White Duke e a iluminação tinha forte referência ao expressionismo alemão, dando mais uma pista do fascínio de Bowie com o que era feito pelos germânicos na época. Declarações infelizes e uma certa perseguição por uma boa história da imprensa inclusive renderam problemas ao cantor, que foi associado a uma certa simpatia com a direita nazista.

David Bowie em show da Isolar Tour – foto: reprodução Youtube

10. Um dos maiores discos de todos os tempos

Até mesmo por ser um esquenta para a trilogia de Berlim, Station to Station é considerado até hoje uma das maiores obras primas de Bowie, um dos campeões de vendas e ovacionado pela crítica justamente por se aproximar do pop sem deixar de provocar o ouvinte com referências rebuscadas. A coragem de se aproximar ainda mais do funk mesmo tendo cultivado toda sua base de fãs em cima do rock´n´roll também contou totalmente a favor de Bowie na época, restando uma ou outra resenha ressentida pelo “abandono” do rock´n´roll.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é editor chefe do Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.

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