Refugiados ucranianos chegando em Berlim

“A guerra na esquina de casa”. As sensações de uma brasileira voluntária na assistência a Ucranianos em Berlim

Por Lalai Persson

Nossa correspondente Lalai Person, que vive em Berlim, conta como é conviver com a guerra na Ucrânia, tão próxima do país Alemão.

“Qual foi o “destino” dessa família?”

Demorei para responder. Fiquei olhando para a tela do celular até a minha visão esvaziar. As lágrimas lotaram meus olhos. “Eu não sei.”, respondi para então chorar todo aquele rio que seguia dentro de mim.

O Dia Internacional das Mulheres é feriado em Berlim. Acordei às 7h15, tomei um banho, fiz café da manhã e às 8h30 eu estava no tram rumo à Estação Central. Céu limpo azul e sol alto anunciando a vinda da primavera. No termômetro -1 grau.

A estação ainda estava calma com poucos passageiros. Mas a chegada de pessoas trajando colete amarelo limão denunciava que o dia seria puxado. Vesti o meu enquanto ouvia as instruções de como receber os refugiados ucranianos que chegam em Berlim. As notícias não eram boas. Berlim já está com a ‘casa’ lotada. Não há espaço no momento para dar abrigo às milhares de pessoas previstas para chegarem nesta terça-feira ensolarada.

Refugiados ucranianos chegando a Berlim de trem

Chegada de refugiados por trem em Berlim – foto: reprodução Youtube

A organização do espaço estava diferente da que vi no sábado anterior quando passei pela estação para deixar doações. Somaram uma grande área extra para colocar a doação de roupas, comida e bebida, brinquedos, ração para animais, produtos de higiene, ambulatório médico, área para distribuição de SIM card e uma bancada para auxiliar na busca por hospedagem para ficar na cidade.

O primeiro trem do dia vinha de Varsóvia e estava 1h atrasado. Ao longo da plataforma, uma fileira de coletes amarelos limão e outros laranjas, diferenciando quem fala ucraniano e/ou russo de quem fala inglês, se formava no infinito.

Veio um trem muito velho, daqueles que já são desconfortáveis quando estão vazios, mas nele, mil pessoas chegavam acotoveladas à Berlim. O trem passando por mim em câmera lenta foi uma cena que nunca vou esquecer. Os rostos assustados colados nas janelas, a maioria de mulheres e crianças. Eu nunca tinha visto nada igual a não ser em filmes.

Eu e meus amigos nos distribuímos em duplas. Quando a porta se abriu, eu me deparei com uma cena tão marcante quanto a primeira. Uma senhora muito idosa se equilibrava em pé na escada na tentativa de sair do trem. Atrás dela, sua cadeira de rodas. Ela não conseguia se mexer e ali eu só tinha meu amigo para ajudar. A pegamos no colo e com muita dificuldade, descemos ela para a plataforma. Enquanto meu amigo descia a cadeira, metade de seu corpo pesado ficou apoiado nos meus braços e a outra metade no chão. Ela estava assustada e falava bastante. Colocamos ela de volta na cadeira enquanto eu devolvia sua bolsa e a ajudava a se acomodar. Inesperadamente ela riu. Nessa hora foi possível ver um pingo de alívio ou esperança na imensidão de seus olhos azuis. Rimos juntas e eu a abracei. A máscara, no fim das contas, virou um disfarce para abrigar toda a comoção que vai nos abatendo em ritmo acelerado.

Tendas para abrigo de refugiados em Berlim

Tenda para abrigo de refugiados em Berlim – foto: reprodução Youtube

Eu vivi muitas histórias diferentes nas horas em que trabalhei. Praticamente todas as famílias que auxiliei não falavam inglês. O jeito foi conversar pelo Google Translator e por gestos. No final, estávamos sempre rindo como velhas amigas e às vezes nos abraçando. O choro eu escondi no bolso do casaco pesado que eu vestia.

Não falar a língua da pessoa causa uma frustração, pois impede proporcionar o afago tão necessário nesse momento. Uma senhora muito chique, mas sem nenhuma mala, me contou em palavras picadas do inglês e gestos que vinha de Kiev e que estava viajando há três dias sem dormir. Viu sua casa explodindo ao partir. Queria ir para Friburg. Comeria só depois que tivesse o ticket do trem nas mãos.

 

 

A comunicação é escassa, mas a gente se vira. A última família que auxiliei estava sentada no meio da estação com duas crianças de cerca de três anos. Uma delas chorava muito. Fui falar com elas, mas elas estavam muito assustadas e não conseguiam se comunicar nem mesmo por sinais. Eram 4 mulheres, uma delas idosa que só fazia sinal para eu ficar com elas. Tentei achar alguém que falasse ucraniano ou russo para entender o que elas precisavam, mas o horário estava concorrido. Logo surgiu uma quinta mulher muito jovem no grupo. Correu para pegar o menino que chorava, abraçou-o e chorou junto com ele. Eu segurei firme para não chorar também. Ela, que falava inglês, se recompôs e disse que a família queria ficar em Berlim, pois estava esperando mais uma pessoa. Precisavam de lugar para ficarem até o dia 10, ou seja, duas noites. Junto com uma amiga, eu as levei para comer, a mostrar onde pegar um SIM Card e a tentar encontrar um lugar para se hospedarem. As crianças devoraram o pain au chocolat que peguei para elas. A garotinha Nastia já sorria para mim e pegava na minha mão enquanto eu me despedia delas deixando-as à sorte do dia.

Assisti uma leitura do Byung-Chul Han, o cara mais pop da filosofia da atualidade, na última edição do festival Transmediale. Ele leu por duas horas um tratado em alemão sobre o ócio e a “vita contemplativa”, temas de seu próximo livro. Para Han, a vida perdeu o seu esplendor porque não sabemos mais contemplar e nem lidar com o ócio.

Ele mergulhou nos sonhos de Marcel Proust, na profilaxia do silêncio de Nietzsche, no tédio profundo como descanso para a alma de Walter Benjamin, na exaustão de Gilles Deleuze – “o esgotado é muito mais do que o cansado, olhe para nós”, que se conecta com a espera por Godot, de Samuel Beckett, para embasar o seu pensamento sobre a importância da contemplação e do ócio nas nossas vidas. Só homem (branco) na extensa lista de referências.

Discorreu também sobre termos perdido a habilidade de escutar. A prova viva de que ele está certo foi eu bocejando por trás da máscara enquanto ele falava.

Por fim, Han atacou longamente a filósofa alemã Hanna Arendt, que defendia a ideia de que nascemos para a ação, a “vita activa”, enquanto para Han, nascemos para a “vita contemplativa”. Para ele, Arendt estava equivocada. O ataque incomodou muita gente na plateia. Mas para quem escreveu “A Sociedade do Cansaço”, não há surpresa em suas críticas (e nem muitas novidades para quem acompanha suas ideias).

Coincidentemente eu estava terminando de ler “Arendt – Entre o amor e o mal: uma biografia”, de Ann Heberlein. A vida de Arendt foi ativa do início ao fim, tanto como pensadora, quanto pela sua vida social agitada e por ser judia alemã em plena Segunda Guerra. Ao fim da biografia, um texto extra fala sobre como a sua obra “A origem do totalitarismo” ganhou os holofotes nos últimos anos devido a ascensão do conservadorismo e da autocracia pelo mundo. O texto começa com papo reto: “Leia e aja”.

Nada me soa tão atual no momento de guerra em que estamos. Mergulhando nas ideias dos dois pensadores, eu concluo que ter uma vida contemplativa e/ou se sentir entediado são para pessoas privilegiadas, além de ser também uma visão muito masculina. Afinal, quando a mulher teve espaço para ficar na contemplação e não agir? Nós mulheres estamos em ação o tempo todo. Ontem, a maioria das pessoas voluntárias eram mulheres. Nas ruas de Berlim, muitas mulheres deixaram de lado o feriado, o dia ensolarado e a temperatura gostosa de 12 graus, para protestarem nas ruas pelos nossos direitos.

Estamos todos tentando sobreviver, uns mais que os outros. Estamos exaustos por uma pandemia que não acaba, com as fake news, com governos ditatoriais e com o mundo desabando à nossa volta, seja por guerras ou por catástrofes naturais.

Viagem a Kiev

Lalai e amigos em viagem recente à Kiev – foto: acervo pessoal

Lalai Person, colaboradora do Music Non Stop, publicou este texto originalmente em sua newsletter Espiral. Vale a pena assinar clicando aqui.

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