Kraftwerk no palco do Grammy

10 motivos que explicam por que ninguém bate a Alemanha quando o assunto é música eletrônica

Por Jota Wagner

A Alemanha é o pais que mais compreende a importância da cultura notívaga no mundo, seguida por países como a Inglaterra e a Holanda. Os resultados não poderiam ser mais positivos.

“Vamos para Berlim? Quero conhecer Berlim um dia? Nossa, adoraria passar um ano na Alemanha!”

Frases come esta pipocam nos afters do mundo.  Todos querem ir à Alemanha para ver como pia a jiripoca deles. Festas intermináveis, polícia menos repressora, locais seguros, música para todos os gostos, empresários e artistas fazendo seu trabalho sem serem atrapalhados.

“Nossa, mas será que é assim mesmo?”

É. Assim mesmo.

Há tempos o governo alemão tem dado exemplos de como trazer a economia cultural para o lado do progresso.  O ambiente e os costumes locais também ajudam. Desde a época de Wagner e Brahm, passando pelo expressionismo e pelo Kraut Rock, os alemães se orgulham do que fazem e nunca deixaram de se preocupar em manter uma identidade bastante própria.

O núcleo de estúdios sociológicos do Music Non Stop se aprofundou nos motivos que fazem do país a grande potência musical da dance music, apesar de ter alguns bons concorrentes.  A receita do bolo está aqui. Copie e envie para seu secretário de cultura preferido.

Dez razões para a Alemanha ser o grande motor da cultura notívaga.

1. Culto à individualidade

festa do clube Imsomnia

Festa do club BDSM Imsomnia, em Berlim – foto: reprodução Google Museu

Se tem algo que incomoda o povo alemão é o bedelho metido em sua vida. O país tem o costume de respeitar majoritariamente a individualidade há tempos. Tanto que o Google Street View, aplicativo que permite passear virtualmente pelas ruas das cidades, é proibido no país. O uso de aparelhos celulares para fotografar tudo e todos é muito mal visto, a ponto de clubes como o Berghain proibirem seu uso nas dependências da casa. O mesmo vale para as diretrizes da polícia, que não pode entrar em lugares privados e meter a mão na sua bolsa (ou na sua cara), sem que haja um crime devidamente justificado.

O resultado é uma sensação de liberdade para ser o que quiser, vestir-se como quiser e dançar como quiser, nas ruas ou nos clubes. Tal tranquilidade amplia o campo da criação artística. Eis o movimento Fodasionista.

2. Arte, arquitetura e urbanismo juntas

Escola Bauhaus em Berlim

foto: divulgação

A Staatliches Bauhaus, fundada em 1919, foi uma escola de arte que tinha entre seus cursos mais bombados a arquitetura e o design.  Tudo junto, misturado e envolvido. O concreto da armação com a música concreta, O modernismo nas formas, nas batidas, nos timbres.

Ao desenhar as cidades com diretrizes praticamente inconscientes de espaço vivo, Berlim foi se tornando uma espécie de área de lazer gigante, um clube a céu aberto e, administrativamente falando, bastante amigável às ocupações.

Quem não se lembra do Tresor, um club montado dentro de um cofre desativado.

A DJ primordial Andrea Gram, uma vez contou ao Music Non Stop que foi a um after em um galpão berlinense quando percebeu, lá pelas tantas, que as pessoas estavam sentadas em TORPEDOS desativados.

“Começou ao amanhecer e me enfiei num trailer com vários amigos e ali ficamos, mas depois me toquei que eu estava dentro de um de abrigo, rodeada de artefatos da 2a guerra, sentada numa caixa da cruz vermelha, e ao sair daquele trailer escuro, outro susto impactante foi ver as clubbers todas sentadas nos torpedos”.

 

3. O Krautrock como resistência à imposições culturais

banda CAN

CAN, ícone do kraut rock – foto: reprodução Youtube

Encerrada a segunda guerra mundial,  a última coisa que a próxima geração de jovens alemães queria era olhar para o passado. A penúltima, ouvir a música popular de baile alemã, chamada de Schaler, totalmente conectada ao way of life dos papais.

A antepenúltima, ouvir blues e rock’n’roll impostos pelos vencedores, os Estados Unidos e a Inglaterra.

Assim surgiu o kraut rock. Experimental, viajante e totalmente conectado com o expressionismo, com a própria música erudita em alguns aspectos e com, olha aí, a Bauhaus.

Tudo quadrado, tudo doido, tudo no beat. Limpando o terreno para que a grande usina de força da música alemã fosse construída. Ninguém menos do que …

4. O Kraftwerk

Kraftwerk no palco do Grammy

Kraftwerk no palco do Grammy – foto: reprodução Youtube

O xeque mate da contracultura alemã surgiu no movimento Kraut Rock. Sua fixação pela eletrônica e a formação em música clássica porém elevaram o Kraftwerk, mítico quarteto de Dusseldorf, ao posto de uma das bandas mais influentes do mundo, responsáveis por boa parte do que ouvimos hoje na música pop, desde o hip hop ao techno.  Jornalistas ingleses chegaram a considerá-los “mais influentes do que os Beatles”.

A revolução proposta pelo Kraftwerk foi muito além da música. Figuras quase robóticas contestavam a idolatria do rock’n’roll. As vidas pessoais dos integrantes preservadas a ponto do grupo terem dado pouquíssimas entrevistas ao longo da carreira. Se denominavam “trabalhadores da música” e não artistas.

Topetes e jaquetas de couro? Não, obrigado. Comportamento rebelde e auto destrutivo? Não também. Guitarras punheteiras? De jeito nenhum.  O Kraftwerk exportou uma forma totalmente diferente de encarar a música, copiada no mundo inteiro, fazendo com que jovens de todos os lugares experimentassem a música eletrônica criada por eles. Um orgulho alemão.

 

5. Festeiro unido jamais será vencido

Organizações civis cooperam forte para proteger a cena como um todo. No início da pandemia, superstars como Sven Vath, Ellen Alien e Paul Van Dyk se uniram para criar o Don´t Stop The Dance, angariando doações e pressionando o governo para não deixar sem amparo toda a cadeia de produção da noite alemão. Estações de rádio, clubs, funcionários, DJs, incluindo toda uma classe de “self employees”.  O rolê foi rápido e incisivo.

 

6. Governo responsivo à demanda da sociedade baladeira

Tão logo o Don´t Stop The Dance criou força, o governo respondeu do jeito que deveria. Destinou nada menos do que 150 milhões de euros para a comunidade e ainda estendeu a mão para museus e cinemas. Tudo para deixar a galera calma, paciente e sem fome durante a pandemia.

Em 2018, a prefeitura de Berlin destinou 1 milhão de euros para pagar o isolamento acústico das casas noturnas e assim, diminuir o incômodo de vizinhos.

7. Casa noturna é instituição cultural

berghain

o Berghain club – foto: reprodução Youtube

Não bastasse o carimbo de credibilidade dado pelas autoridades após as cobranças do movimento Don’t Stop The Dance, o governo alemão ainda alterou a classificação das casas noturnas para instituições com relevância cultural, mesmo grupo em que se encontram museus e teatros. Para nós, que temos de lidar com prefeituras enxergando lugares de festas como “antros”, não fica difícil nutrir uma inveja de bate pronto, não é?

Com a mudança, os clubes tem acesso a isenções fiscais, financiamentos públicos e tratamento diferenciado nos processos administrativos, como a obtenção de alvarás e licenças.

8. Os alemães são bons de matemática

Se algum leitor perdeu seu tempo trazendo ao topo do cérebro o clichê da “farra com dinheiro público”, saiba que o alemão, além de ser bom em fazer beat, também é fera em matemática. Somente em Berlin, a indústria da música gira nada menos do que 1,1 bilhões de euros por ano, emprega 14 mil pessoas e recebe imposto de nada menos do que 1.500 empresas formais.

Você não entendeu errado: um vírgula um bilhões de euros por ano, segundo dados do Business Location Center (dados de 2019)

8. Museu da Música Eletrônica Moderna

Momen em Frankfurt

Projeto da entrada do MOMEN, em Frankfurt – foto: divulgação

Prestes a ser inaugurado, o Museum of Modern Eletronic Music em Frankfurt terá seu acervo totalmente dedicado à contar a história da música dançante alemã para visitantes do mundo inteiro. Longe de ser um museu “careta” o Museu de Frankfurt abrigará festas, exposições abertas e shows visuais de VJs.  Já coloca aí na sua agenda.

9. Estudar ajuda

escola de música em berlim

Lehrer, wozu dient dieser Knopf? Uma das centenas de escolas de música berlinenses – foto: reprodução Instagram

Se o presente está garantido, o futuro não é menos promissor. Atualmente, mais de 40 mil alemãezinhos estudam em escolas de música, e mais de 3 mil já estão prestes a concluir cursos profissionais da área.

As escolas de arte foram fundamentais para o desenvolvimento do rock’n’roll no pós guerra inglês. Aluno está fritando muito a cabeça nas aulas de exatas? Soca na Art School que pelo jeito ele é bom mesmo em outra coisa.

O padrão alemão é mais nerd. Geralmente, correm para estudar aquilo que os interessa. Foco!

10. The Love Parade

A primeira grande parada techno planetária é de Berlim. A Love Parade começou em 89, um ano após a explosão do “verão do amor” em Ibiza. O rolê gratuito pelas ruas da cidade chegou a reunir um milhão de pessoas e foi destino turístico de toda uma geração de clubbers do mundo todo.  Após uma trágica confusão que resultou na morte de 21 pessoas em 2010, a organização decidiu por encerrá-la. Mas isso, nem de longe, foi o suficiente para que o poder público demonizasse a cultura dance.

 

 

 

 

 

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é editor chefe do Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.

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