Gilberto Gil comemora 80 anos com resgate de “álbum perdido” de 1982

Por Claudio Dirani

Gravado em Nova York, disco é destaque de “O Ritmo de Gil”, museu virtual produzido pelo Google

Gilberto Gil parecia totalmente preparado para dois acontecimentos extremamente significativos em 1982. O primeiro, gravar mais um disco, especialmente voltado para o mercado norte-americano, com canções de sua autoria em inglês. O segundo evento na agenda, seria completar a marca histórica de 40 anos de vida.

Depois disso, o mundo girou bastante até fazer as pazes com os anos 80. Hoje, graças à tecnologia em estado de arte do Google, o artista nascido em 26 de junho de 1942, em Salvador, Bahia, pôde colocar à disposição dos fãs o mítico “disco perdido” gerado quatro décadas atrás, além de disponibilizar um verdadeiro sítio arqueológico de sua incomparável carreira.

Tudo isso pode ser explorado imediatamente na plataforma digital O Ritmo de Gil, inaugurada pela big tech norte-americana em seu canal Google Arts & Culture a tempo de comemorar os 80 anos de existência de nosso menestrel pop.

Gilberto Gil: a história por trás do LP cancelado

André Midani, então chefe-executivo da gravadora Warner, foi o responsável por Gilberto Gil a apostar em composições em inglês para dar sequência às apostas no mercado internacional. Mais especificamente, na sempre lucrativa indústria fonográfica dos Estados Unidos.

A primeira investida havia sido com Nightingale, gravado e lançado em 1979 com suporte do genial Sergio Mendes – outro artista brasileiro com enorme receptividade no exterior. O sucesso de Nightingale serviu como propulsor para o álbum que agora chega ao alcance do público.

Gravado entre janeiro e fevereiro de 1982, em Nova York, o trabalho contou com a produção de Ralph MacDonald (1944-2011), famoso por suas parcerias com lendas do jazz do gabarito de Ron Carter e George Benson.

MacDonald entrou em cena, ao lado do engenheiro de som  Richard Alderson, para dar luz ao que se transformaria nas nove faixas do disco de 1982, depois de quase dois meses de sessões no Rosebud Studios, em uma gelada Nova York.

Além da produção de MacDonald (que também toca percussão no disco), o time de Gil foi reforçado com Marcus Miller no contrabaixo, Richard Tee, nos teclados, Grover Washington tocando sax e o mítico Steve Gadd na bateria. Gadd, aliás, recentemente havia dividido o estúdio com Paul McCartney (outro gênio que acaba de completar 80 anos) para gravar os álbuns Tug Of War e Pipes Of Peace.

Por sua vez, a mais estelar convidada do projeto, Roberta Flack, aparece dividindo vocais com Gil na faixa “Jump For Joy” – nome pelo qual o disco tem sido chamado, embora não tenha um título oficial.

O misterioso destino da fita master

Após finalizar o LP, Gilberto Gil partiu de volta para o Brasil para dar sequência a outros projetos. Enquanto o destino do material gravado nos EUA era decidido, Gil saiu em uma turnê com apenas voz e violão e voltou ao estúdio para criar o LP Um Banda Um – o sucessor do extremamente bem-sucedido Luar (1981).

Durante a produção do box Palco (o segundo da discografia do cantor), Gilberto Gil explicou ao produtor do projeto, Marcelo Fróes, os possíveis motivos de seu álbum gravado nos EUA não ter saído conforme o planejado.

Quando me mandaram o cassete, (já mixado e montado), eu disse que não gostava”, explicou Gil. “Embora, até tivesse coisas interessantes. Duas ou três faixas tinham uma pitada jamaicana, com adição de steel drum, mas não achei que fosse um disco pronto e íntegro”, justificou o artista.

Marcelo Fróes, em entrevista ao music non stop, reflete sobre o resgate do álbum, quarenta anos depois de sua criação – e vinte anos após ter sido convidado por Gil para preparar a caixa Palco, comercializada em 2002.

Quando comecei os projetos na Universal e na Warner eu consegui acessar os arquivos das gravadoras e ouvir o material de Gil gravado profissionalmente. A abundância do material era enorme e nem cogitei usar material de fitas cassete”, relembra Fróes, que ficara sabendo das intenções da Warner em resgatar sua fita master.

Depois disso, procurei o Gil e perguntei a ele se tinha coisas como demos e gravações caseiras. Um dia, fui à casa dele e ele abriu uma gaveta cheia de fitas. Colocou tudo aquilo numa sacola para mim e levei para casa para ouvir. Ouvi o “disco americano”, sabia que ele existia. A própria Warner já trabalhava na possibilidade de finalmente lançá-lo. O problema é que a fita master original nunca apareceu”, conta Fróes.

O que tínhamos era uma gravação com rotação alterada. O Gil aprecia com uma voz do George Benson. Então, isso nem foi cogitado a ser lançado. Até aquele momento, só artistas falecidos tiveram projetos lançados a partir de fitas cassete. Elis Regina, Cazuza, Raul Seixas… E como já tinha muito material oficial dele, não cogitei usar a fita, ao mesmo tempo em que a gravadora corria atrás do master em Nova York”, complementa o premiado produtor e arquivista carioca.

Passado o projeto do Gil, em 2002, eu estava fazendo trabalhos de outros artistas. Comecei a trabalhar na Discobertas, fundada em 2008, e o primeiro lançamento, um show do Ze Ramalho, foi tirado de cassete. O Trovador Solitário, do Renato Russo, também foi tirado de uma fita cassete. Então, o preconceito em relação às fitas começou a acabar. O conteúdo agora é mais importante do que a qualidade técnica”, ratifica Marcelo Fróes.

Feliz com o resgate de seus arquivos e da magnífica homenagem realizada pelo Google, Gilberto Gil aparentemente revisou sua opinião sobre o disco oitentista, que chega oficialmente pela primeira vez para o público, pelo esforço conjunto dos pesquisadores Ricardo Schott e Chris Fuscaldo.

A história desse disco gravado em Nova York, em 1982, apareceu primeiro no encarte do relançamento em CD de Um Banda Um na caixa Palco”, relembra Ricardo Schott, que entrou no projeto do Google no começo da pandemia. “O Gil tinha recebido apenas um cassete com o conteúdo do álbum e não ficou muito claro para mim e para a Chris – enfim, talvez até para o próprio Gil – se ele ainda tinha aquela fita. A Chris fez todo o mapeamento do material do Gil e a fita estava lá. Então, fui ouvir o material  para avaliar o que era aquilo. Foi uma surpresa. Tudo o que estava ouvindo ali batia com o que estava no encarte do Um Banda Um e acabou sendo uma surpresa para mim e para a Cris“, comemora o pesquisador – um fã de Gil desde a infância.

Como fui a curadora do museu, era eu quem acessava os materiais na GG Produções, no Estúdio Palco e na própria casa da Flora e do Gilberto Gil. Em uma dessas visitas para mapear os arquivos, decidi só mexer nas mídias. Eu e dois assistentes trabalhamos disso, ouvindo e anotando“, revela Chris Fuscaldo, detalhando o passo a passo do projeto.

O que estava sem rótulo, a gente achou que deveria digitalizar, porque já desconfiávamos que poderiam ser raridades ou alguma coisa inédita. Então, enviamos o relatório para o Google e eles mandaram digitalizar todo esse material. Quando voltou para mim, decidi como distribuir cada item, de acordo com quem entendia mais do tema, como o Ricardo Schott, que entende mais de discos como eu. Foi assim que coloquei a fita nas mãos dele. Ele me chamou depois de ouvir o material e disse para mim que talvez tivesse achado um disco em inglês, e que ele poderia ser o que Gil havia comentado no encarte Um Banda Um“, recorda a pesquisadora, que se deparou com um oceano de riquezas da vida e obra de Gilberto Gil durante a curadoria da exposição virtual.

Quando finalmente confirmamos o que era, criamos a exposição em conjunto. Eu botei a mão na fita, entendi que tinha uma coisa ali, o Schott lembrou do encarte da caixa Palco e me ajudou a lapidar os detalhes”, conclui Chris Fuscaldo, que se diz plenamente satisfeita com o produto final.

Assim como seu criador, Gilberto Gil.

Ralph (MacDonald) ficou muito contente com o disco”, recorda Gil. “Ele queria muto combinar o pop brasileiro ao americano, adicionando influências caribenhas no projeto. Olhando por este ângulo, é um belo álbum”, conclui hoje o mais versátil compositor brasileiro vivo.

Claudio Dirani

Claudio D.Dirani é jornalista com mais de 25 anos de palcos e autor de MASTERS: Paul McCartney em discos e canções e Na Rota da BR-U2.

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