Esperanza Spalding

Esperanza Spalding, a garota prodígio ganhadora de 4 prêmios Grammy e profunda admiradora da música brasileira

Por Adriana Arakake

Nossa colunista de jazz Adriana Arakake conta a história da garota prodígio Esperanza Spalding, ícone do contrabaixo e ganhadora de quatro prêmios Grammy

Quando meus filhos eram pequenininhos, eu gostava muito de ir pra alguma cidade nos arredores de São Paulo com eles, passar o dia ou o fim de semana, nós adorávamos essas pequenas viagens e já começávamos curti-la no carro, sempre ouvindo música, era até um momento de descanso pra mim, mãe de dois bebês. Numa dessas andanças, estávamos nós em alguma estrada linda, de uma serra qualquer, quando começa tocar a conhecida música Ponta de Areia, composta por Fernando Brandt e Milton Nascimento, lançada no disco Minas, 1975, pela gravadora EMI, produzido por Ronaldo Bastos, é uma verdadeira obra prima; mas a versão que saiu dos alto falantes do veículo foi bem diferente e numa voz que tive o prazer de apreciar pela primeira vez, a dona da versão, Esperanza Spalding, é o talento que este texto trará hoje.

A garota prodígio de Portland

Esperanza Spalding nasceu em Portland, em 18 de outubro de 1984, quando criança sofria com uma doença auto imune, o que a fez passar grande parte da infância sendo educada em casa, pela mãe e cuidada por uma enfermeira cubana que a introduziu em sua cultura e na língua espanhola. E foi nesses dias, passados em casa, que a artista teve seu primeiro contato com o jazz, quando assistiu a uma apresentação do violoncelista Yo Yo Ma, no programa Mister Rogers’ Neighbourhood, se encantando com o estilo e passando a tocar violino, com apenas 5 anos de idade. Esperanza também costumava assistir às aulas de violão que a mãe frequentava, conta que quando chegava em casa, corria para seus instrumentos para colocar em prática o que a professora da mãe havia ensinado.

Com o destaque prodígio, passa a integrar a Chamber Music Society do Oregon, onde permaneceu por 10 anos; aos 15 anos, retornando à escola obrigatória, forma uma banda com amigos do colégio e é apresentada ao contrabaixo acústico e imediatamente se conecta ao instrumento que a acompanha até hoje. Aos 16 anos, abandona o estudo formal para se dedicar apenas à música, ingressando na Portland State University, obtendo o bacharelado em apenas 3 anos, em seguida, ingressa na Berklee School of Music, em Boston, onde se formou em 2005 e foi posteriormente foi contratada como a mais jovem professora da escola, com apenas 20 anos. 

O álbum de estreia da artista, Junjo, veio em 2006 e foi lançado pela gravadora espanhola Ayva, o disco traz, além de composições próprias, versões de Loro, do brasileiro Egberto Gismonti e Humpty Dumpty, do pianista norte americano Chick Corea, infelizmente falecido recentemente. 

Esperanza Spalding

Foto: Divulgação / Sandrine Lee

Profundos laços com a música brasileira

O que mais me chama a atenção, além do óbvio talento, é o interesse de Esperanza pela música latina, em especial a brasileira, além da versão já citada de Egberto Gismonti, e da mencionada no início deste texto, Ponta de Areia, que pode ser encontrada em seu segundo álbum, Esperanza, onde há também uma versão de Samba em Prelúdio, de Vinícius de Moraes e Baden Powell. Com declarações abertas e apaixonadas pelo Brasil, a artista já expressou que o país é um de seus lugares favoritos; já dividiu palco com diversos músicos brasileiros, como os guitarristas, arranjadores e compositores Chico Pinheiro e Lourenço Rebetez, no Via Rio em 2011; Guinga “um dos maiores gênios da nossa geração” nas palavras de Esperanza, ou Milton Nascimento, de quem se tornou amiga. Também gravou Traição, do disco N9ve, 2009, da cantora e compositora Ana Carolina.

Vencedora de 4 Grammys, um deles na categoria artista revelação, 2011, premiação inédita para um artista de jazz, desbancando Justin Bieber, causando a ira dos fãs do ídolo teen e alavancando o terceiro disco de Esperanza, Chamber Music Society, para o 34० lugar da Billboard, vendendo milhares de cópias. O disco traz entre composições próprias, Chacarera, do compositor argentino Buby Gonzalez e “Inútil Paisagem”, canção de Tom Jobim letrada por Aloysio de Oliveira, música também interpretada por outros grandes artistas como Ella Fitzgerald e Frank Sinatra

A garota prodígio Esperanza Spalding, tem em seus álbuns a influência visível do samba, do funk, da cultura cubana e soube juntar tudo isso ao jazz clássico com maestria, recomendo ouvir e fechar os olhos, se imaginando num carro, passeando por uma Serra brasileira qualquer, o sol entre as árvores, um vento fresco batendo no seu rosto, com essa música, com essa voz, não vai ser nada difícil.  

Adriana Arakake

Adriana Ararake é DJ é especialista em Jazz, Soul e Blues do Music Non Stop.

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