Vinil Foto: Andrea Cipriani [via Unsplash]

A revolução do vinil: há 76 anos, a música virava efetivamente um produto

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Em 21 de junho de 1948, era lançado nos Estados Unidos o primeiro disco de vinil da história

Dentre as muitas revoluções culturais provocadas por uma nova invenção tecnológica, a reviravolta causada pelo disco de vinil foi sem dúvida uma das mais gigantescas. Afinal, antes de sua fabricação, não havia o conceito de se pagar pela música. Pagávamos por sua execução. Uma orquestra, uma banda de baile ou um músico solo era contratado para tocar ao publico as obras existentes.

Com o advento das bolachas no começo do século XX, a música virou um produto palpável, como livros, goiabas ou escovas de cabelo. Você podia ir a uma loja, “pegar” sua música preferida e guardá-la em uma prateleira. Mas ela só foi se transformar mesmo num produto efetivamente vendável a partir de 21 de junho de 1948, quando a CBS lançou o primeiro disco de vinil (em velocidade de 33 e 1/3 Rotações Por Minuto (RPM)). Até então, os discos em goma-laca (78 RPM), padrão da época, só conseguiam armazenar entre três e cinco minutos em cada lado. Para registrar um concerto de 40 minutos, por exemplo, seria necessário lançar um pacote com quatro discos, que eram empacotados em pastas com envelopes plásticos muito parecidos com um álbum de fotografias. E foi dali que surgiu o termo “álbum”, usado até hoje, mesmo na era do streaming.

Tudo mudaria depois que os estadunidenses viram chegar às lojas o disco Concerto In E Minor, com Nathan Milstein no violino acompanhado da Orquestra Filarmônica de Nova Iorque, conduzida pelo maestro Bruno Walter. A sinfonia, composta por Felix Mendelssohn em 1845, marcou o início de uma era em que os discos eram mais baratos e podiam comportar longas obras em um só volume.

A remodelação do vinil foi o raio que faltava na tempestade perfeita. Em 1948, os Estados Unidos país vivia a sua Belle Époque: a Segunda Guerra Mundial tinha acabado em vitória, o otimismo em relação à vida tomava conta dos americanos (brancos) e a economia girava em alta rotação — embora, ainda que os ávidos compradores nas lojas de disco não soubessem, o país entraria em uma pequena recessão causada pela ressaca do consumo do pós-guerra a partir do ano seguinte.

Dois outros ingredientes foram indispensáveis para a explosão das vendas. Pela primeira vez, os adolescentes dos Estados Unidos tinham o próprio dinheiro no bolso, descolados com pequenos trabalhos temporários disponíveis quando não estavam estudando, ou simplesmente ganho como mesadas dos pais.

Até a geração anterior, quem cuidava da grana de toda a família eram os mais velhos. Para aboncanhar os dólares desta molecada, as gravadoras do país tinham a isca perfeita: o rock’n’roll, novidade musical que virou febre nas rádios e programas de TV dizendo tudo o que o jovem queria ouvir naquela época. “Agora você tem os bolsos cheios. Não precisa ficar recebendo ordem destes caquéticos. Pegue sua grana, compre discos, vá para os bares e tome sua birita, oh yeah!”

A partir dali, a tal tempestade perfeita fez desaguar um oceano de dinheiro no mercado da música. As gravadoras se tornaram corporações mundiais. As médias e pequenas, responsáveis por revelar novos artistas, viram suas contas bancárias ficarem abarrotadas. A avidez do público por discos era tamanha, que todas pagavam por olheiros, caras cujo difícil trabalho era sair à noite durante a semana inteira em bares e casas de show, atrás de um bom artista que ainda não tinha contrato.

No camarim mesmo, depois da apresentação, agentes ofereciam a garotos fama e promessa de fortuna, muitas vezes garantida por um cheque de adiantamento em valor maior do que jamais haviam visto em suas carreiras como músico de boate. A farra durou 50 anos, até que a indústria digital chegou e acabou com um mercado que vendia, somente nos Estados Unidos, 15 bilhões de dólares por ano (números de 1999).

Curiosamente, o genial Prince pagou de Nostradamus em 1982, quando lançou a música 1999. Na letra, o músico cantava sobre o fim do mundo: “todos dizem que em 2000 a festa acabará, estamos ficando sem tempo. Então, hoje a noite vamos festar como se fosse 1999”. Tiro certeiro. Afinal, foi justamente o ano em que a festa das gravadoras realmente acabou.

Hoje, Concerto em E Menor figura como parte do gigantesco catálogo que a CBS lançou em discos de 33 RPM. Uma cópia original tem preço médio de 500 reais na plataforma de troca de álbuns Discogs. Um valor baixo, considerando sua enorme importância na história da música mundial. É possível também encontrar à venda a versão anterior de seu lançamento (de 1947), em goma laca de 78 rotações, um pacotão com quatro discos, catalogados como “lados” que vão do A ao H.

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.

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