Senóide – De Beatles a Chemical Brothers. Afinal, o que é música pop? O limite que divide a música experimental da popular

Marco AAndreol
Por Marco AAndreol

O que é música Pop? O que é Eletrônica?

Outro dia eu estava com amigos fãs de popstars e sugeri que variássemos de música. Coloquei uma bossinha eletrônica sem vocal e deles ouvi que aquilo era interessante, mas que não chegava aos pés da força da música Pop. Era a milésima vez que eu ouvia a mesma frase, mas também era uma oportunidade de conversar sobre o que as pessoas em geral acham que seja Pop ou não.

Naquele momento ouvi de cada pessoa uma definição completamente diferente da outra. Como eu imaginava, Pop pode ser tudo ou qualquer coisa, dependendo do ângulo, da vivência, da idade e das referências do ouvinte.

Há um marco claro para quem já frequentava a variedade das festas noturnas na metade da década de 00: o momento em que os vídeos de Lady Gaga explodiram pelo mundo; mesmo com Madonna, Britney Spears, Justin Bieber, Beyoncé e outros milhares de nomes vendendo milhões há mais de meio século e tomando conta das rádios, Gaga em 2008/2009 roubou a atenção de parte do público quase adulto que estava prestes a frequentar as festas eletrônicas de House, Indie, Nu Disco ou Tech House da época. Todo DJ dos gêneros eletrônicos instrumentais foi em algum momento interrompido por alguém que pedia *Bad Romance*, *Poker Face* ou *Paparazzi*, mesmo que a boate ou o set não tivessem nada a ver com os super hits. Gostando ou não, é inegável que *The Fame Monster* (2009) é um dos melhores álbuns norte-americanos de todos os tempos, do nível de *Thriller* (1982) de Michael Jackson.

Lady Gaga – foto: divulgação

Ali entramos com força total no terreno da afirmação das identidades através da pista, coisa que sempre existiu, geralmente num contexto positivo e consciente, mas que naquele momento alçou patamares inéditos, ainda que aparentemente apolítico até meados da década passada, quando de repente o parâmetro puramente fashionista (fundamentado em editorais de moda) da década de 00 metamorfoseou-se em produto sócio-político. Mesmo que percebamos claramente o oportunismo da indústria, creio que seja melhor assim – minimamente questionador. 

Acontece que os gêneros musicais instrumentais que citei anteriormente (House, Indie, Nu Disco, Tech House, etc.) também são… Pop. E agora? Como podemos falar da música Indie como se não fosse Pop, ou daquele(a) DJ supercomercial que tem milhares de seguidores e só toca Techno? Ele(a) também é Pop, apesar de que certas músicas de seu repertório poderiam ser tocadas por DJs com referências mais amplas.

Então, que diabos seria Pop? Ainda estamos nos referindo ao desenvolvimento da escola artística encabeçada por Andy Warhol principalmente nos anos 60 com Nico e Velvet Undergound? Estamos falando do que é veiculado pelo grande comércio? Mas então as plataformas que permitem certo espaço ao artista independente ganhar algum troco – como o Bandcamp – não seriam populares? Por qual parâmetro deveríamos definir o termo? Pelo mercantil, estético ou alcance do artista? O Hip Hop que fala de festa e sexo é Pop, mas o que passa mensagens de consciência negra não?

Velvet Underground com Nico e Andy Warhol  – foto: divulgação

 

Nascida erudita, a ópera Tristan und Isolde de Richard Wagner (1859), por exemplo, ao permear boa parte do Cinema do século 20 e alcançar um público cada vez maior não teria caído no repertório popular? É bom lembrarmos que, em grande parte do mundo, toda obra musical cai em “domínio público” depois de 70 anos da morte do artista, o que significa que ninguém mais detém seus direitos autorais – é a mesma coisa dizer que toda música feita na época áurea da música erudita (Classicismo, Barroco, Romantismo, Impressionismo, etc.) hoje é pública, é popular, é pop – basta assistir pela TV certos maestros que misturam compositores de três ou quatro séculos diferentes numa mesma apresentação para delírio de um público que não conhece música erudita a fundo, mas somente aquelas melodias que já residem no inconsciente coletivo ocidental.

Sequência inicial do filme Melancholia (2011) musicado por Wagner

Pois bem, depois de muitos anos escolhendo os termos certos para descrever os termos musicais ao leitor me permito eleger a melhor definição do que é Pop e o que, por enquanto, não é. Em 2019 cursei na Unesp a aula de História da Música Eletroacústica do compositor Flo Menezes e de lá saí com duas respostas definitivas, pelo menos para mim, do que seria Pop e também do que seria Eletrônica numa classe onde meus colegas, quase formados, estudaram toda a história da música erudita ocidental, além da popular: folclórica e milenar.

Segundo Menezes, a música que (ainda) contém repetição rítmica, mesmo que complexa, é a popular. Portanto, a música mais radical e contemporânea está questionando há muitas décadas a necessidade dessa constante e provando que é perfeitamente possível criar composições riquíssimas sem a necessidade do ritmo.

Obs. Não morram antes de ouvir a Oktophonie (1991) de Stockhausen no máximo de canais possíveis, ou seja, em 8, 16, 32 caixas de som. A audição da Oktophonie é possível uma vez a cada um ou dois anos no teatro da Unesp. Seria a música depois da música – uma experiência extracorpórea.

Outra pergunta que me rondava desde a primeira vez que ouvi The Chemical Brothers em 1995: o que seria Música Eletrônica enquanto estética? E não somente resultado da tecnologia.

A energia, o look cabeludo, a capa do primeiro álbum e principalmente as bases e timbres de bateria da maioria das músicas de *Exit Planet Dust* (1995) relacionavam-se diretamente à estética do Rock da primeira metade dos anos 70, mesmo coexistindo com Techno e House em clubes onde dificilmente se ouvia Rock. Logo depois de uma era magnífica para o Trance (1992/1994), talvez o gênero da Eletrônica mais sintético e atmosférico, The Chemical Brothers soava como uma banda de Rock com Funk 70 que acabava de infundir vários sintetizadores – o Big Beat. Do mesmo modo, a música *Alive* de Daft Punk, lançada na primeira coletânea do selo Soma Quality em 1994, soava como uma banda num show de arena, mesmo que minimalista. Em seguida, em 1996, Underworld estourou com a canção *Born Slippy* (tema de Trainspotting, um dos filmes mais populares dos anos 90) dentro do contexto da música eletrônica até então considerada underground

 

Esse foi o momento-chave que atraiu um público mais variado: os ouvintes do Rock e do Pop que até há pouco estranhavam o minimalismo do Acid House ou do Techno (gêneros bem mais radicais que o Synth Pop ou o EBM dos anos 80) fizeram com que a Eletrônica, mesmo a sem vocal, ganhasse o mundo, a TV, as FMs e deixasse de ser piada, pois até então era tratada como música que nascia pronta do computador e feita para gente maluca ou marginal, das periferias ou LGBTQs. É bom lembrar que o Rock já não era contracultura há pelo menos uma década.

Capa do disco Dig Your Own Hole, do Chemical Brothers

Se voltarmos mais três décadas, de 1996 para 1966, a mesma dúvida já existia, só que de outra forma. O álbum *Revolver* dos Beatles continha *Tomorrow Never Knows*, faixa que mudou o rumo do que era considerado psicodélico. Nela há diversos efeitos eletrônicos que tomam a frente dos instrumentos acústicos, sons que deixam de ser coadjuvantes para tornarem-se centrais. *Tomorrow Never Knows* chamou a atenção de ninguém menos que Stockhausen, talvez o maior compositor do século 20 e que começou a experimentar com a Eletrônica desde o começo dos anos 1950 de diversas formas, sempre à frente e às vezes na contramão de seus contemporâneos. É o compositor preferido de Björk, cantora-compositora de formação erudita que, claro, também é Pop, por mais experimental que seja. 

Grosso modo, depois do sucesso popular da Música Eletrônica, muitos eruditos resolveram chamar a Eletrônica erudita de Música Acusmática. O termo vem de Pitágoras (séc. VI a.C), que se escondia por trás de uma tela para que seus alunos não se distraíssem com sua imagem, gestos e se concentrassem somente em suas palestras, ele acreditava que assim poderiam melhor absorver o conteúdo do que estava sendo dito. Dessa forma, podemos muito bem dizer que a Música Acusmática é o oposto da música que depende do videoclipe para ser considerada interessante: seria a Música em sua forma mais radical. Geralmente, a audição da Música Acusmática acontece em teatros onde a luz é totalmente apagada. Portanto, reparem que podemos dizer também que a experiência de ouvir Música Eletrônica popular e minimalista numa boate com muito gelo seco é tão acusmática quanto permanecer sentado num teatro escuro.

O Festival Berlin Atonal acontece todo ano numa ex-usina elétrica, um enorme complexo de concreto. Nela se apresentam vários dos melhores artistas da música eletrônica contemporânea/experimental anualmente desde 1982.

 É fato que foram os eruditos que cunharam o termo Música Eletrônica desde que estipularam a separação entre a puramente eletrônica e a que continha também elementos acústicos – a Música Concreta e a Música Eletroacústica. Assim, acabaram deixando o termo Música Eletrônica para os ouvintes da música popular, aquela que ainda precisa da repetição de algum elemento permeando todo o campo sonoro, como um bumbo, um chimbal, um acorde que vive reaparecendo ou uma frequência constante. 

Um dia, provavelmente, a Música Acusmática também será Pop, pois é o que a maioria dos grandes artistas deseja: que o povo desenvolva maior complexidade emocional e intelectual sem abdicar do prazer.

Finalmente, é importante apontar que não há consenso entre os eruditos sobre a profundidade da Música Acusmática em relação à Música Minimalista dos eruditos-populares (e vice-versa) como, por exemplo, Steve Reich ou Terry Riley. Enquanto os minimalistas aproximam-se da música oriental através dos gamelões para criar assim uma relação quase direta com os mantras repetitivos – algo que não pode ser considerado raso – os pós-minimalistas geralmente relacionam o Minimalismo à automação e ao escapismo proporcionado pela indústria e buscam na ruptura da repetição o despertar do ouvinte.

Em 2020 as duas correntes coexistem, alguns pós-minimalistas subestimam a composição repetitiva e acusam-na de formulaica e simplista; já os minimalistas consideram abstrata demais a música que muda constantemente, puramente cerebral e de acesso quase impossível, pois sua impermanência exige a concentração absoluta do ouvinte durante todo o tempo de execução. Há ainda a escola do Totalismo, que funde minimalismo a pós-minimalismo.

Abro um parêntese para sugerir que o ouvinte interessado na música eletrônica experimental de pista (aka conceptronica) possa também chamá-la de totalista (e popular) justamente por ter abandonado parcialmente o minimalismo.

Kassel Jaeger é exemplo do que foge de classificações fechadas sobre o que seria erudito, experimental, popular, etc.

 


De todas as formas, a variedade musical hoje presente é ampla demais para nos limitarmos à música comercial, que seria justamente o tipo de pop entuchado por uma indústria de cosmético ou de roupa, que geralmente aparece como unânime para a grande maioria das pessoas e depois descartada por se parecer a inúmeras outras que se seguem ad infinitum. Esse tipo de música ou, melhor dito – esse produto – é a única meramente chata/horizontal, pois seu único intuito é abstrair, buscar o gozo forçado e constante, sem a menor profundidade, em todos os sentidos.

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