De baterista a nomão do techno mundial, revelamos o passado punk e a mente brilhante de Renato Cohen

Claudia Assef
Por Claudia Assef

Muito antes de ser um DJ mais importantes do Brasil, o paulistano Renato Cohen já tinha música e arte correndo pelas veias. A primeira vez que o vi tocar foi numa rave em 1992, e ele estava bem longe da cabine de som. A rave se chamava Psycho Body, era dentro de uma casa num sítio em algum lugar perto de São Paulo, e Renato estava tocando bateria numa banda mucho loca chamada Disk-Putas.

A banda era praticamente uma instalação viva. Uma zoeira sem fim, regada no molho do punk rock non sense. O que dizer de músicas como Vai Comer ou Quer Que Embrulhe?, que ganhou um videoclipe “fofo” que começa com João Gordo no papel de um açougueiro. Assista.

Vai Comer ou Quer Que Embrulhe?

Além de Renato na bateria, a banda tinha Priscila Farias no baixo e a artista plástica Dora Longo Bahia na guitarra, além de eventuais participações de Marcelona berrando palavrões e pajubás no microfone.

Lindas, recatadas e do lar: Renato no Disk-Putas

Baterista desde os 8 anos de idade, Renato passou por um monte de bandas antes de integrar a Disk-Putas. Além de tocar, gostava de cuidar da gravação das músicas. Ficava horas tentando achar o timbre certo, equalizando bateria, microfones. Formado em Artes Plásticas pela FAAP, Renato aprendeu sobre música na raça.

Mostrou suas produções de música eletrônica pela primeira vez num live PA no Hell’s Club, em 1996. Só a partir depois disso começou a fazer sets como DJ. Anos depois, em 2002, entrou de vez pra história da música eletrônica ao lançar a porrada sonora – eterno hit – Pontapé, pelo selo Intec, de Carl Cox e C-1.

Depois disso, a carreira de Cohen decolou de vez. Ele ganhou pistas no mundo todo, criou festas e sets com novas “velhas” sonoridades (se jogou na disco music e afins com a festa Poperô, com Benjamin Ferreira), lançou um belíssimo álbum em 2009 (Sixteeen Billion Drum Kicks), inúmeros singles, teve uma filha. Uma figura tão ilustre da nossa música de pista estava merecendo uma entrevista aqui no #MillerMusic, claro. Então, vamos à ela. Mas antes solta o play neste set gravado como aquecimento para o Dekmantel São Paulo. Tá maravilhoso.

 

RENATO COHEN @ DEKMANTEL SP

Music Non Stop – Talvez muitos dos seus fãs mais novos não saibam, mas você tocava bateria numa banda muito divertida, a Disk-Putas. Foi aí que começou sua história com a música?

Renato Cohen – Eu comecei a tocar bateria com 8 anos e tive diversas bandas de garagem. O Disk-Putas não foi meu começo na música, mas foi meu começo na noite de São Paulo.

Em 1998, Renato e seu live PA nada portátil

Music Non Stop – Nessa época (94, por aí?) você era também artista plástico. Em que momento virou a chave de vez pra música? Foi no Hell’s?

Renato Cohen – A música sempre fez parte da minha vida, mas eu não tinha nenhuma pretensão de viver disso.
Como quase todo mundo que trabalhava com artes visuais na época, eu vivia do design gráfico. Com a popularização dos computadores e o começo da internet, tinha trabalho sobrando por aí. Foi só no fim dos anos 90 que eu consegui viver 100% de música.

Renato com Mau Mau ao fundo na lendária cabine do Lov.e, onde manteve a residência Technova, às sextas

Music Non Stop – Você criou até hoje ouso dizer o maior hit do techno brasileiro, Pontapé. Ao mesmo tempo tem uma pesquisa bem profunda nas raízes da disco music. O que te levou a começar essa pesquisa dos primórdios da dance music?

Renato Cohen – Eu acho que qualquer pessoa que compre muito vinil ou que trabalhe com música por muito tempo acaba não se importando mais com estilos e começa a desenvolver um amor pela música no geral, no meu caso a dance music em geral. Na real, quem não gosta de disco? Eu conheço pouquíssimas pessoas que dizem “não” com convicção. São pessoas que já estavam na noite nos anos 70/80 e, quando eu mostro alguma música obscura, eles dizem: “Ah, mas isso não tocava naquela época. Tem certeza que isso não é mais recente?”.

Renato Cohen tocando no palco Selectors, no Dekmantel SP. Foto de Jetmir Idrizi

Music Non Stop – Você tocou recentemente no Dekmantel, o que um evento como esse pode trazer de legado pro cenário musical de São Paulo ?

Renato Cohen – Esse horizonte musical tão amplo que vai do instrumental brasileiro até o techno pesado era uma coisa comum entre alguns músicos, DJs e alguns amigos. Parece que agora existe um interesse de muito mais gente nisso tudo. Consolidar um público que vai além de rótulos e estilos, para mim é o maior legado. Sem falar na qualidade em todos os aspectos; operacional, sound system, line-up etc. Acho que a Gop Tun conseguiu levar a ideia de festival para um nível tão alto que eu duvido que alguém queira voltar atrás.

Music Non Stop – O que você gosta de tocar pra sua filha em diferentes momentos do dia (pra relaxar, pra ela brincar etc.)?

Renato Cohen – Eu tento não influenciar em nada. Ouço de tudo o dia todo e sempre reparo no que funciona.
Minha conclusão, acho que deve servir para todas as crianças: beats secos e bem definidos, como 80’s Boogie, techno, HI-NRG, Michael Jackson é hit instantâneo e jazz nem pensar.

Renato com sua parafernália na cabine do Hell’s Club em 1996

Music Non Stop – Quem são seus ídolos na música (DJs, bandas, músicos…)?

Renato Cohen – Sou péssimo para fazer listas, alguns nomes aleatórios que vem à cabeça: Bill Laswell, Sly & Robbie, Moacir Santos, George Duke, Airto Moreira, Steve Reich, Frank Zappa, Hermeto, Herbie Hancock, Larry Heard, Supermax, Maurice Fulton, Pilotwings… Alguns DJs que já me emocionaram: Derrick May, Traxx, Danielle Baldelli, Andy Blake, Lovefingers, Mark Seven, Magal, Mau Mau, Marcio Vermelho, Benjamin Ferreira, Gerd Janson.

Magal está na seleta lista de DJs que já emocionaram Renato

Music Non Stop – Qual foi a coisa mais legal de ter se juntado a amigos de longa data (Noise e Mau) para tocar juntos e sair viajando por aí?

Renato Cohen – Aqui é quando eu deveria dar aquela resposta toda enrolada e bonita, mas sinceramente o legal é a bagunça.

Music Non Stop – Fora São Paulo, que já sabemos que tem cada vez mais festas legais, que outros lugares do Brasil têm te impressionado?

Renato Cohen – Acho que o Rio esta bem legal, o Sul do Brasil no geral e, de alguns anos, pra cá ja tive vários momentos mágicos em Brasília.

Tocando na Love Parade em Berlim em 2003

Music Non Stop – Quais são as coisas que ainda acontecem na noite no Brasil que mereceriam levar um belo pontapé?

Renato Cohen – Não me importo mais. Apontar problemas no Brasil só te levam para questões sociológicas piores ainda. Só digo uma coisa boa, já estou nesse jogo faz 20 anos. A longo prazo os bons sobrevivem e as pessoas de mente pequena caem no esquecimento.

PRÓXIMAS DATAS

BLOCO UNIDOS DO BPM
Sábado, 25, a partir das 15h
Rua Nestor Pestana
Line-up: Leonardo Ruas, L_cio, Benjamin Sallum, Dany Bany, RENATO COHEN e Bruno Matos
Preço: grátis

FESTA HOUSEIRA
Terça, 27, a partir das 23h30
Rua Mato Grosso, 398
Line-up: Mau Mau, RENATO COHEN, Roque Castro
Preço: R$ 40 de entrada ou R$ 60 de consumo

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