Tupac Shakur Tupac Shakur. Foto: Reprodução

Da BMW de Tupac ao Titanic: o fascínio por objetos mórbidos da cultura pop

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Artefatos atravessados por tragédias se tornam símbolos de desejo, medo e prazer em uma sociedade cada vez mais anestesiada pela violência

Quem está em Las Vegas, nos Estados Unidos, pode dar um pulo até a loja Celebrity Cars para ver de perto a BMW em que Tupac Shakur e seu empresário estavam, quando o rapper foi baleado e levado à morte (sete dias após o crime, em decorrência dos ferimentos) após sair de uma luta de boxe no cassino MGM Grand, há 30 anos. Não para por aí. O artefato mórbido está à venda, e avaliado em mais de nove milhões de reais!

Morte

Foto: Reprodução

Não é uma história única. As peças da Porsche em que James Dean morreu, em 1955, foram colocadas em leilão e arrematadas por centenas de fãs. O câmbio do carro foi vendido por 382 mil dólares. Entre os itens igualmente macabros vendidos em leilão, estão peças como o relógio de um dos passageiros naufragados com o Titanic e o álbum que John Lennon autografou para seu próprio assassino, horas antes de sua morte. 

O carro onde Shakur foi baleado está totalmente restaurado. Mas seus proprietários atuais tiveram “o cuidado” de remover os acabamentos internos das portas, para que as soldas que taparam os buracos das 12 balas que atravessaram o veículo sigam à vista de quem resolver entrar na BMW.

O hábito poderia ser justificado por se tratarem de itens com “alto valor histórico”, como as memorabilias da Segunda Guerra Mundial, mas o buraco é mais embaixo. Uma carta de amor escrita pelas mãos do mesmo James Dean, poucos dias antes de sua morte, por exemplo, foi arrematada em leilão por um valor dez vezes menor do que um câmbio de um carro batido.

Morte

James Dean em seu Porsche. Foto: Arquivo Porsche AG/Reprodução

O que está por trás da gana desses colecionadores é o mesmo comportamento que fez com que bilionários pagassem uma fortuna para uma malfadada excursão de submarino para ver os destroços do Titanic, ou que uma multidão de gente consuma desenfreadamente séries de true crime, e até mesmo aquela reduzida na velocidade que a gente dá para observar um acidente de automóvel em uma estrada. Você já parou para pensar que, lá no fundo, a gente deseja ver um corpo estendido no asfalto?

“Estudiosos de diversas áreas do campo das ciências humanas defendem que as duas Guerras Mundiais produziram marcas permanentes no inconsciente humano (traumas, angústias, medo, indiferença, raiva…), as quais desde então constituem as estruturas psíquicas que permeiam  nossa cultura e visão de mundo”, explica ao Music Non Stop a psicanalista Paula Prucolli, docente da Universidade São Judas, membro do Fórum do Campo Lacaniano do Rio de Janeiro e autora do artigo As Massas E Suas Pulsões, relacionado ao tema.

“Sob a luz da psicanálise, o interesse por notícias, imagens, objetos ou conteúdos relacionados à morte pode ser analisado a partir de vários conteúdos inconscientes que são recalcados (agressão, destruição, ódio…), e que tornam-se culturalmente toleráveis ao permitir que o sujeito sublime esses conteúdos através do voyeurismo e fetichismo.”

John Lennon
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Ao investir quase 60 milhões de reais em um carro onde um astro da música foi assassinado, por exemplo, uma pessoa pode estar procurando vivenciar o medo e vulnerabilidade daquele momento (Tupac), ou colocar em fantasia todo um desejo de agressão a alguém (os atiradores).

Esse fascínio pela morte (dos outros) enquanto lutamos diariamente pela sobrevivência e, em casos muito estudados por filósofos e psicanalistas, pela imortalidade, se traduz no consumo desse tipo de conteúdo em diversos níveis diferentes. O chamado turismo mórbido está presente e é normalizado em diversas cidades do mundo. Vai desde de um romântico passeio pelo cemitério de Buenos Aires, um dos mais movimentados pontos turísticos da cidade, aos macabros becos lacrados em Edimburgo para isolar as pessoas infectadas pela peste negra, ou as catacumbas de Paris.

Esse fetichismo não só em consumir, mas em desejar ver esse sofrimento, a guerra e todas as formas de dor, é também uma forma de reter sua própria mortalidade”, continua Paula. 

É aqui que a gente junta tudo. Cultura pop, consumismo e a banalização da violência em filmes e programas de TV. Se hoje é quase impossível entrar em uma plataforma de streaming e não ver um cara descarregando uma metralhadora em um inimigo, é porque, lá no fundo, nos desperta uma sensação de prazer.

E, claro, você não precisa se remoer em culpa porque maratona uma série sobre uma história real em que uma mulher traída picota o marido e o esconde em uma mala, ou admira a sagacidade intelectual e a frieza de um psicopata estadunidense que assassinou dúzias de pessoas. Mas é muito importante estar atento ao porquê desse desejo, e o que ele está causando à sua saúde mental e da sociedade a que pertence. 

Se o consumo de conteúdo mórbido, seja na internet ou na vida real, é excessivo e desenvolve sensações de raiva, culpa ou angústia, é um sinal de que a linha do que é considerado saudável foi ultrapassada. É hora de procurar um acompanhamento psicoterapêutico para compreender o porque dessa busca incessante.

“Desejo é diferente de necessidade. A pessoa nunca vai se satisfazer. O desejo, aliás, está na ordem da insatisfação. Quanto mais você o consome, mais precisa. Isso está na base da vida psíquica. Muitas pessoas, por exemplo, procuram esse conteúdo mórbido apenas quando não estão bem. Isso é de uma natureza que não está saudável, uma pulsão de angústia e sofrimento”, finaliza.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.