Young Clubber no Caos

Conheça Young Clubber, que anda chamando atenção nas discotecagens houseiras

Por Bruna Guedes

O projeto de música eletrônica do jovem que parou de discotecar atendendo um ‘chamado’ para escrever Rap e que volta anos depois para os CDJs carregando duas personas musicais, alguns projetos, diversas parcerias e uma carreira profissional próspera em ambos os estilos.

Esse é Felipe Desidério, o artista por trás do Young Clubber e mais conhecido como Febem.

“Minha história tocando música eletrônica começou antes de escrever Rap.”— assim começa a nossa conversa sobre a sua carreira.

Eu, uma aficionada por rastrear artistas que se multiplicam em diferentes projetos, ansiosa para em alguns dias recebê-lo para a primeira gig no Caos, em Campinas, leio essa frase com real surpresa. Mesmo o rap fazendo parte desde a sua infância, desde que ele se conhece por gente, a aprender a tocar vem antes do compor letras de Rap.

Após um longo período da pandemia imersa no Rap escutando e pesquisando sobre MF Doom, o próprio Febem, BRIME!, Don L, Tasha e Tracie, e uma galera proveniente de BH (FBC, Djonga, VHOOR, Mac Júlia, entre outros) sou surpreendida por constatar que o Rap não veio primeiro na vida do artista que passei os últimos meses ouvindo.

É de BH também a festa que abriga a sua primeira residência como Young Clubber, a criativa 101Ø. Além disso, a label que o recebe com o seu projeto de house é a Tijolo Records, do Brooklin, Nova Iorque. Nela, ele compartilha espaço com RHR, CERSV, Naiche, sixx4sixx , Thiago Takeshi e ERAM.

Felipe vasculha, recorta referências e dá novo sentido a elementos em diferentes fases da sua vida de um modo formidável. Algo que a todo momento fica evidente em nosso diálogo em um espontâneo chat no Instagram no final de uma noite e começo da madrugada.

O que era para ser uma entrevista com hora marcada se torna uma retrospectiva da conexão do jovem da zona norte de São Paulo com a música eletrônica até o atual momento como Young Clubber e seus planos.

Os primeiros contatos e o início como DJ

Ele conta que os primeiros contatos com a música eletrônica rolaram no final dos 90 com a descoberta do Prodigy e a conquista do CD do grupo britânico, a admiração por clubs da zona leste, como o Toco (Vila Matilde) e Over Night (Mooca), além da influência do seu irmão que passou pela adolescência como um típico ‘cybermano’, apresentando para Felipe outros nomes e festas. Também foi um CD do Hell´s Club com mixagem do DJ Julião e DJ Mau Mau responsável por estes primeiros impactos.

Mas é entre garagens, em meados de 2006, que ele e o amigo Rafael Onid aprendem mixar Minimal Techno influenciados pela ascensão da M_nus e com acesso a um mixer Numark e dois CDJ100. Fato que ele se diverte ao contar que hoje “o que vier é lucro” quando ele percebe que a sua habilidade para mixar é colocada a prova.

Circuito, Skol Beats, Kraft, After Paradise, D-Edge — é a fase do muleque observando, absorvendo a música eletrônica e entrando em estado de profunda admiração por nomes como Magal, Mau Mau, Marky, Glaucia e Eli Iwasa. Os tais “generais” como ele define estes DJs que considera serem os humildes da cena, acolhedores e receptivos com a galera.

Neste momento de elogios, pude visualizar o rapper Febem falando. O questionador que não está ali para julgar, que despreza a cultura do cancelamento, que segue quase na função de um peregrino através das suas letras e uma personalidade que preserva a sua origem como uma conduta moral.

 

A relação com o House

O House entra em sua vida através da busca de conhecimento. Assistindo DOCs, buscando as referências urbanas da música eletrônica europeia e vendo os vídeos de skate com o Low-Fi House como trilhas sonoras nas edições. É aí também que descobre o Garage.

Entre a fase do afastamento da música como DJ e a construção da sua carreira como rapper, são quase 11 anos. Até que ele volta a frequentar as festas que estão naquele momento estão saindo dos clubs e indo para as ruas e galpões de São Paulo.

Então, ele entra na pira do questionamento que estas mesmas festas estão ocupando a cidade, mas as referências contidas ali não são necessariamente urbanas e o batidão rola sem muita reverência as origens, e decide voltar a tocar nos rolês. Desta vez, com o House como a sua base, a sua pesquisa sendo guiada em nomes referências do estilo e no ‘som de negrão’ como ele define quando perguntado qual estilo de som que ele toca.

 

Young Clubber e Febem nunca foram vistos no mesmo lugar

A Metanol dá o suporte inicial com duas apresentações. A primeira, com ele em um set de Rap e outro de House, mas com o público presente um tanto quanto puto por pensarem que veriam o Febem cantando, e não o DJ tocando. Surge aí o Young Clubber. Uma necessidade de separar as duas carreiras e dar vazão para os processos criativos de formas distintas.

É também a partir de 2017 que ele volta a ter contato mais frequente com os festivais e festas. Desta vez, sem a dificuldade financeira do passado, sem precisar subornar os seguranças ou malabarismos quaisquer da adolescência para entrar nas festas. Agora, com acesso as tais áreas ‘vips’ — que ele não faz muita questão de estar, a não ser pela oportunidade de ver os DJs e produtores de perto e de se divertir.

Acredito que está aí uma das grandes qualidades do já não tão mais jovem Felipe: o deslumbramento não faz parte da sua vida, ele gosta mesmo é de estar em casa, ao lado dos seus, tomando whisky com gelo de coco, curtindo os bailes do Marcone e sendo reconhecido na quebrada entre os mais jovens e os mais velhos que tiram fotos para mandarem para os filhos. Em um certo momento ele até chega se mudar, mas volta para as suas origens com a certeza que ali ele pode ser ele o tempo todo.

É nesta simplicidade que ele também não aprova ser ‘bookado’ com o nome Febem anexado ao do Young Clubber. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é algo bem diferente. Ponto! Ele não dá margem para oportunismos e dos contrantes se apoiarem no Febem para o contratar como DJ.

Nos planos atuais, a ideia de produzir seus próprios sons. Não para fazer lives, não é a uma vontade que ele tenha, mas para tocar suas próprias músicas e ver outros DJs as tocando também. Processo esse que vem acontecendo com o suporte do RHR, seu amigo e parceiro.

O cara curte mesmo a colagem. Recorta, anexa e vai se ampliando em uma evolução incrível dentro das suas habilidades. Var ser bonito ver essas produções sendo lançadas.

Nas definições, o rap segue como missão. Está em primeiro lugar em sua vida.
Mas a música eletrônica é aposentadoria, é o prazer de curtir o rolê, de relaxar e unir todas as suas referências musicais com liberdade. É o lado profissional que vai durar para sempre, segundo ele. Que assim seja!

Que ele inspire a nova geração a pesquisar as origens do eletrônico e seja mais um dos que acolhem e retribuem a admiração com simplicidade, como fazem aqueles que ele chama de generais.

Desejo também que ele se torne inspiração para outros artistas aqui no Brasil furarem a bolha e estreitarem os laços com o mixer e os CDJs. Ou na multiplicação de projetos!

Para mim, ver um artista que você admira se desdobrando em diversas facetas e colocando na roda os seus outros ‘eus’ é algo que sempre me despertou interesse.

É muito chato ser uma pessoa fixa, é muito chato estar perto daqueles que estão sempre usando ‘odeio’ em suas frases para falar mais do que  abomina do que o que gosta. A vida é complexa, mas tão múltipla e maravilhosa para nos prendermos a um formato único. A cada dia existe algo novo para ouvir e se tacar em um mar desconhecido. Na música, nas artes, nas ruas, é muita coisa rodando, é muito para absorver e pessoas especiais para conhecer, como este grande artista que é Felipe Desidério.

Ouvindo seus sets e me afundando em tudo que ele já produziu até aqui, tanto como rapper como DJ, não o visualizo igual nem em um semestre, muito menos ao longo da sua vida. E isso não quer dizer que ele não tenha uma personalidade bem definida. Pelo contrário, o que ele faz é tão ele, tem tanto propósito, que logo estaremos entrando em uma festa e vamos falar: “O Young já está tocando.”

@RECREIOclubber – YOUNG CLUBBER

 


Uma noite no Caos

Young chegou no começo do evento, as 17h, para curtir e veio com a sua gang — CESRV, Bart (Veneno), Rud Gon e RHR — que também estava no line up ao lado da Eli Iwasa e L_cio.

Um quarteto pesado com cada um na função de tocar por três horas e com momentos que marcariam a edição do Caos Vai ao Bar com sets bem distintos e com uma live no encerramento.

Young assumiu às 20h. Atento, abriu o set trazendo o Soul para abertura, seguiu com ‘Gangsta Boogie’ do Mano Brown, e começou surpreendendo e retendo a atenção do público desde o primeiro instante. Em uma crescente incrível foi construindo um set de House naquele ‘mood’ que os apaixonados do estilo adoram: a energia elevada!

 

Young Clubber em sua apresentação no Caos

Young Clubber em seu set no Caos, Campinas – Foto: Recreio Clubber

 

Em três horas de set comprovou uma velha premissa de como a música nos diverte sempre que utilizada com paixão.

Mesmo com as mesas, mesmo com um público reduzido para o formato, estavam todos voltados para a cabine e conquistados pelo sujeito de boné baixo, postura inclinada e que a primeiro momento parece ser mais sério do que é realmente. Até um tanto quanto inacessível. Apenas impressão. Ali é só coração. Ali é só disposição em fazer tudo com entrega, com qualidade. Do Rap ao House, das parcerias as amizades, ele não saber ser raso.

Terminou o set aplaudido com gritos e assobios. Já era!

Em conclusão, faltaram condições e, com certeza, nunca foi fácil, mas o conhecendo, vendo seu set pessoalmente e passando dois dias ao seu lado em Campinas, você saca que ele pegou cada oportunidade de absorver e sugou ao máximo tudo ao seu redor.

Rato. Do Guetto. Passar dos 20 e poucos anos já é a sua maior conquista e ele simplesmente não tem tempo a perder!


Agenda

No retorno que começa a surgir ali a frente, quase como uma miragem aos olhos de quem está sedento por shows e festas, podemos encontrá-lo discotecando por aí durante as vagas em sua agenda com Febem e com o BRIME! (que logo está circulando a Europa com a agenda interrompida pelo Covid). Confere as datas divulgadas deste mês:

10/10: Veneno b2b Suelen Mesmo com transmissão ao vivo
15/10: 101Ø com venda de ingressos no dia 05/10 às 10:10 (terça-feira)

Se não ouviu um dos seus sets, aproveite a deixa da leitura e dá play aí!

Bruna Guedes

Uma caipirinha autodidata movida a música, coordenadora de marketing, multi-profissional, com sol em escorpião com lua e ascendente em festa!

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