“Ainda mais pesado, tapa na orelha” – Edi Rock, dos Racionais MC´s, lança hoje novo álbum solo e fala ao Music Non Stop

Amanda Sousa
Por Amanda Sousa

Falando de política, racismo e liberdade, o álbum conta com 15 músicas e é cheio de participações especiais. Conversamos com o músico para saber um pouco mais sobre o seu novo trabalho

Ainda mais pesado, tapa na orelha e qualidade, digno de um integrante do Racionais MCs! É assim que Edi Rock define seu novo álbum solo, que é lançado hoje (sexta-feira, 23) intitulado Origens Parte 2 – Ontem, Hoje e Amanhã. Como já é esperado, um álbum potente, com músicas de letras fortes e batidas bem marcadas e com um time de artistas talentosos compondo as participações especiais. O álbum  já está disponível em todas as plataformas digitais e junto chega também o clipe da música Origens Parte 2, faixa-foco que dá nome ao disco – assista aqui (a partir das 18h). Retornando às suas raízes no rap, o disco apresenta um caráter bastante autoral e conta com participações de MV Bill, MC Sombra e Big da Godoi, Jorge Du Peixe, integrante e vocalista da banda de rock nacional Nação Zumbi, Flacko, um dos novos nomes da cena trap, assim como Lourena, que coroa a presença feminina, Morcego, Guto GT, o nigeriano-americano Meaku e Thiaguinho, que traz a  leveza da sonoridade típica do pagode, contrastando de forma harmoniosa com as rimas do rap de Edi Rock.

Edi Rock e Thiaguinho – crédito Leonardo Muniz

No auge de seus 50 anos, Edi Rock é um dos grandes nomes do rap no Brasil e um dos integrantes fundadores do Racionais MC’s, que completou 30 anos em 2019. Em entrevista exclusiva para o Music Non Stop, Edi conta um pouco sobre essa trajetória

“Tive uma infância normal, pobre, com pais que só me viam no final do dia depois do trabalho. Passava o dia sozinho, ia pra escola e ficava na rua até a hora da minha mãe chegar do trabalho. Aos 11 anos comecei a trabalhar meio período em qualquer coisa que aparecesse, até em carrinho de feira e o que despertou meu sonho foi ver o grupo Black Juniors num programa da TV Gazeta chamado Mr. Sam. Foi mágico ver 5 moleques de macacão branco dançando break em sincronia com a música e ainda cantando. Eu tinha 13 anos e dali pra frente só queria saber de break e música. Algum tempo depois conheci KLjay e foi quando tudo começou. Aprendi muito com o Racionais, passamos metade da vida juntos, então tudo que sei até aqui é escola ‘Racional’. Faria tudo igual de novo, “daria um filme: uma negra e uma criança nos braços”. Do que fiz parte, da forma que foi, tudo o que fizemos e onde chegamos tem um valor inestimável. Foi difícil, árduo, sofrido, mas compensador, divertido. Me sinto forte e realizado. Não sei se alguém faz ou fará no rap como nós fizemos! Quebramos correntes, transformamos mentes, fortalecemos espíritos, formamos guerreiros ‘com música’.”

O novo álbum conta com 15 músicas – sendo 13 inéditas – e foi produzido todo neste período de isolamento social por conta da pandemia do novo coronavírus. Edi conta que o momento teve muita influência durante a composição, construção e produção e, além disso, as letras dialogam muito com o momento atual, de ataques ao povo negro e o álbum dialoga muito com esse período. Quando questionado sobre essa relação, Edi diz que tudo o que faz é reflexo do que vive, do que viveu e do que estamos vivendo. 

“Esse disco aborda vários assuntos. É como se fosse um livro sobre a minha vida, um diário, no qual estão o meu dia a dia, os meus pensamentos, as minhas opiniões, os meus problemas, a minha mente. Funciona também como uma terapia e eu acredito que não é necessário ficar frisando a minha cara preta nas músicas pelo fato de eu já ser esse representante, o resto é identificação. Muitos se identificam com a minha poesia e não são negros. Eu acho que esse é um detalhe importante na força do rap, da poesia, da música, na transformação, na comunicação, na conscientização das massas, o negro se vê e o não negro me entende.”

Capa disco Origens – Parte 2

Ainda sobre esse período pandêmico e a relação disso com toda a humanidade, Edi acredita que estes acontecimentos são como um divisor de águas e que o caos é inevitável e prevê que uma Guerra Civil está próxima. 

“Ou o ser humano aprende a ser mais humilde e ver que a chave liga e desliga, que tem um dono e não é ele, ou a tendência é só piorar, apocalipse now, igual filme, igual o que tá escrito na Bíblia! É sabido que não são reversíveis as mazelas que o homem causou ao planeta, então é esperar o pior, tentar apenas desacelerar o fim.  É só observar: protestos, greves, fome, desemprego, genocídio, racismo, homofobia, violência contra mulher, violência policial, grupos de extermínio, milícias e facções, ditadura velada, censura, a Amazônia, queimadas, garimpo, indígenas e suas terras que não são mais suas, o mar como depósito de lixo e por aí vai. Só pode dar merda!”

 

Álbum “Origens Parte 2 – Ontem, Hoje e Amanhã” – Edi Rock

Lançamento Som Livre – 23 de outubro/2020

15 Faixas:

1) Origens Parte 2
02) Dá um grito – feat Big da Godoi
03) Só  Deus – feat Daniel Quirino
04) Um Novo Amanhã – part. Thiaguinho
05) Grão de Areia
06) Vidas Negra
07) De Angola – part. Flacko
08) Paranóia – part. MC Sombra
09)Tá Tendo
10) Vai Chover – part.  Guto GT
11) Liberdade – part. Lourena feat. Morcego
12) Som de Iemanjá
13) Vai – part. Jorge Du Peixe
14) Dinheiro – part. MV Bill
15) Heads Up -part. Meaku 

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