Gilberto Gil Foto: Niclas Weber/Reprodução

A imperdível última dança de Gilberto Gil, o cantor que colocou o mundo dentro do Brasil

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Lenda da música brasileira anunciou aposentadoria dos palcos para o ano que vem

Gilberto Gil se despede dos palcos em 2025. Um dos grandes mestres da música brasileira fará uma turnê de despedida, com datas e locais ainda não divulgados pela equipe do artista. Mas você deve ficar atento, e se esforçar para conseguir um lugar entre os sortudos que verão, pela última vez, o cantor que colocou o mundo dentro do Brasil. Encerrada a tour, restará aos brasileiros apenas ouvir a fala brisada e filosófica de Gil em futuras entrevistas. O que não é nada mal. O mano é bom também na palestra, como sempre foi na música.

Desde o começo da carreira, o baiano Gilberto Passos Gil Moreira, que terá 83 anos no período em que fará seus últimos shows, se descobriu muito maior do que as convenções. Misturou rock com música baiana, chamando os Mutantes para se apresentar, e contrariando o povo que virava a cara para a alquimia que metia na “sagrada música brasileira”, o “lixo imperialista” do Hemisfério Norte. Pois o baiano não estava nem aí, e hoje não se encontra quem negue que Domingo no Parque, lançada em 1968, é uma das maiores obras do país.

Dentre os que menos gostaram da música de Gilberto Gil, destacaram-se os militares que implantaram a ditadura no país. Gil foi preso e, durante o cárcere, resolveu se dedicar aos estudos de filosofias orientais. Virou praticante de ioga e macrobiótico, para surpresa dos brutamontes que viam no encarcerado mais um “vagabundo subversivo”. Saiu da cadeia com um convite a se retirar da tirania, e teve de se refugiar na Inglaterra, ao lado do amigo Caetano Veloso.

No exílio, resolveu bater perna por Londres para entender o que estava rolando. Se envolveu com os jamaicanos que imigraram para a ilha britânica e se apaixonou pelo reggae. Obviamente, enfiou o estilo dentro da sua música (e do Brasil) para sempre. Mais um ingrediente na salada mista de Gilberto Gil, a ser servida a todos os compatriotas.

Quando conseguiu voltar para a terra natal, a cabeça de Gil era tamanha que nela deviam caber uns 20 cérebros. Quase todos, musicais. O resultado da sua pesquisa, apoiada pelos manos Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gal Costa, pôde ser degustado na turnê Doces Bárbaros, que o quarteto fantástico fez pelo país, e que resultou em um dos melhores discos ao vivo de nossa coleção, gravado em 1976 no Rio de Janeiro.

É preciso uma verdadeira autópsia criativa para identificar todos os elementos culturais que esse disco rendeu. Tem rock’n’roll psicodélico e progressivo, a MPB dos festivais, funk, soul, música nordestina… Mais do que tudo, é um disco louco. Muito louco. Isso porque Gilberto, sozinho, já havia lançado os não menos interessantes Expresso 2222 (1972), Refazenda (1975) e ainda nos presentearia com Realce em 1979, dando-nos a dica de como seria toda a sonoridade da música brasileira na década seguinte.

A partir dos anos 80, o artista virou uma porta de venda, por onde tudo entra, segundo o ditado popular. Flertou com os “punks da periferia” e versou sobre a chegada da internet, enquanto sua atuação começava a extrapolar o mundo da música. Gil agora aspirava a Buda, influenciando as pessoas com seus discursos, sempre a favor da democratização de todas as tecnologias que começavam a aparecer. Só valia, se fosse acessível ao povo.

Ao sacar os muitos que o ouviam, achou que podia fazer mais do que emocionar com canções. Elegeu-se como vereador mais votado de Salvador, tendo a cultura e a educação como pautas. Dali, foi um pulinho até ser convidado como Ministro da Cultura. E se Gil não mudou o país no engessado meio burocrático, pelo menos deu show. E que show. Arrancou lágrimas de ministros e secretários de todo o mundo, tocando Toda Menina Baiana, tendo como músico de apoio ninguém menos do que Kofi Annan, Prêmio Nobel da Paz.

Gilberto Gil trouxe o rock, trouxe o reggae, trouxe a psicodelia, a tecnologia, a discussão sobre o meio ambiente e muito, muito mais para o Brasil. E estas são credenciais mais do que suficientes para que qualquer brasileiro que goste de música dispute ferrenhamente os ingressos para seus últimos shows.

A vida no palco se encerra em 2025. Já os discos e as transformações culturais, ficarão para sempre.

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.

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