Martin Scorsese

A incrível história da “Lista de Scorsese”, uma seleção de filmes que o diretor fez para colegas como Tarantino e Edgar Wright assistirem durante a pandemia

Por Jota Wagner

A pedido de Edgar Wright, Martin Scorsese fez uma lista de filmes britânicos essenciais para que ele visse durante a pandemia. As dicas do mestre inspiraram um grupo de diretores, que inclui nomes como Quentin Tarantino, que se dedicaram a “zerar” as recomendações do cultuado diretor

Uma grande amiga do teatro uma vez me disse que se recusaria a aceitar qualquer trabalho cujo tema seria criar sobre a pandemia. Segundo ela, não seria possível escrever qualquer coisa válida sobre o assunto enquanto ainda estivéssemos dentro dele. Há de se ter um distanciamento temporal para entender exatamente, como tudo isso afetou nosso modo de ver as coisas.

Aos poucos (não que já estamos fora do mundo pandêmico, mas parece que pelo menos a porta de saída já nos é visível), histórias de acontecimentos de dentro do espaço-tempo da quarentena começam a vir à tona. Em entrevista ao jornal britânico The Observer, o diretor Edgar Wright revelou ao crítico de cinema Mark Kermode os detalhes fascinantes da chamada Scorsese’s List, uma lição de casa dada por Martin Scorsese a seus colegas diretores (e também fãs) para cumprir durante a pandemia.

 

 

Falta do que faze uma certa cara de pau

Tudo começou quando Wright viu o projeto em que estava trabalhando,  o filme que conta a história sobre estudantes de moda na Swinging London dos anos 60 chamado Last Night In Soho, ser paralisado durante a pandemia.

Sem previsão para retorno (A Noite Passada em Soho teve sua estreia agendada na Inglaterra para 29 de outubro, mas há rumores de adiamento), Wright decidiu que usaria o tempo livre para aprimorar seus conhecimentos sobre o cinema britânico e de quebra ainda descolar mais algumas referências para usar em seu projeto.

Sua primeira ideia foi maratorar uma lista de filmes essenciais que seu ídolo Martin Scorsese havia publicado em 2007, com clássicos como Umberto D (1952) e Rocco e Seus Irmãos (1960). O objetivo era “acabar com alguns gaps desconsertantes do meu conhecimento em cinema”, disse Wright.

Após a missão devida mente cumprida, Wright então resolveu escrever para Scorsese agradecendo pela lista, e contando sobre o dilema que paralisou seu trabalho em progresso. No final do e-mail de agradecimento, encerrou comentando que “sempre foi curioso sobre quais seriam os filmes britânicos preferidos” do mestre.

Um presente surpresa

Dias depois, Wright recebeu um baita de um presente surpresa.  Um arquivo de áudio com uma mensagem de voz do próprio Scorsese, indicando nada menos do que cinquenta filmes indispensáveis!

A lista, que salvou a quarentena do presenteado, logo foi encaminhada ao amigo Quentin Tarantino.  O arquivo virou um Santo Graal no mundo do cinema e estava formada, assim, uma espécie de Clube de Cinema da Quarentena, onde a gincana constava em assistir os filmes da Lista de Scorsese.

“Assistir à lista foi como completar um jogo de quebra-cabeças; filmes menos conhecidos de diretores que eu já admirava, obras obscuras lançadas por grandes estúdios e, o mais recompensador, filmes que teriam passado completamente desconhecidos se um diretor como Martin Scorsese não o tivessem recomendo. Ele assiste a filmes com objetividade e talvez sem a arrogância com que diretores que são meus conterrâneos muitas vezes o fazem”. Contou Wright na mesma entrevista.

 

Quer entrar para o Clube?

Se você curte cinema e quer entrar para o seleto clubinho dos que zeraram a Lista de Scorsese, nós facilitamos sua vida.  Segue a lista com as 50 indicações que o mestre enviou a Edgar Wright

  • Kind Hearts & Coronets — Robert Hamer (1949)
  • Station Six Sahara — Seth Holt (1962)
  • Brief Ecstasy — Edmond T. Greville (1937)
  • The Halfway House — Basil Dearden (1944)
  • Went The Day Well — Alberto Cavalcanti (1942)
  • Nowhere to Go — Seth Holt (1958)
  • The Nanny — Seth Holt (1965)
  • Madonna of the Seven Moons — Arthur Crabtree (1945)
  • The Man in Grey — Leslie Arliss (1943)
  • So Long at the Fair — Terence Fisher (1950)
  • Stolen Face — Terence Fisher (1952)
  • Four-sided Triangle — Terence Fisher (1953)
  • The Sound Barrier — David Lean (1952)
  • This Happy Breed — David Lean (1944)
  • Guns at Batasi —John Guillermin (1964)
  • Green for Danger — Sidney Gilliat (1946)
  • The Mindbenders — Basil Dearden (1963)
  • To the Public Danger — Terence Fisher (1948)
  • It Always Rains on Sunday — Robert Hamer (1947)
  • A High Wind in Jamaica — Alexander Mackendrick (1965)
  • The Queen of Spades — Thorold Dickinson (1949)
  • Hue and Cry — Charles Crichton (1947)
  • Pink String and Sealing Wax — Robert Hamer (1945)
  • The Blue Lamp — Basil Dearden (1950)
  • The Good Die Young — Lewis Gilbert (1954)
  • Mandy — Alexander Mackendrick (1952)
  • Vampyres — José Ramón Larraz (1974)
  • Uncle Silas — Charles Frank (1947)
  • The Legend of Hell House — John Hough (1973)
  • Night of the Eagle — Sidney Hayers (1962)
  • The Flesh and the Fiends — John Gilling (1960)
  • The Snorkel — Guy Green (1958)
  • Taste of Fear — Seth Holt (1961)
  • The Damned — Joseph Losey (1963)
  • Plague of the Zombies — John Gilling (1966)
  • Quatermass and the Pit — Roy Ward Baker (1967)
  • Dr Jekyll and Sister Hyde — Roy Ward Baker (1971)
  • The Devil Rides Out — Terence Fisher (1968)
  • The Asphyx — Peter Newbrook (1972)
  • Underground — Anthony Asquith (1928)
  • Shooting Stars — Anthony Asquith (1927)
  • Sapphire — Basil Dearden (1959)
  • Whistle and I’ll Come To You — Jonathan Miller (1968)
  • Dead of Night — Alberto Cavalcanti (1945)
  • Enfield Haunting
  • The Lonely Passion of Judith Hearne — Jack Clayton (1987)
  • The Pumpkin Eater — Jack Clayton (1964)
  • The Innocents — Jack Clayton (1961)
  • The Seventh Veil — Compton Bennett (1945)
  • Yield to the Night — J. Lee Thompson (1956)

 

 

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é editor chefe do Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.

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