Der Baum no estúdio Family Mob

A experiência 3D da Der Baum, banda que mescla referências de New Wave e Synthpop para moldar uma série de lives e novo disco.

Por Jota Wagner

Banda encerra uma “tour” de seis lives com uma experiência 3D de cair o queixo, gravada e mixada em casa. A Der Baum impressiona ao ferver um caldeirão de influências que inclui o velho post punk paulista, Devo, B-52´s e Industrial.

O sol nascia no não tão cinematográfico Jardim Hollywood, em São Caetano.  Espalhados nos colchões do sótão, fritavam comigo os integrantes da banda espanhola Doctor Explosion, a quem acompanhei pelo interior de SP como tour manager.  A cabeça inquieta e cansada, no entanto, estava em outro show. O da banda local Der Baum, que havia dividido a festa conosco no 74 Club, célebre casa underground da região. Era deles o estúdio –  residência – quartel general em que estávamos hospedados, chamado Intrínseco.

A máscara gótica da Der Baum

Horas antes, em uma sala escura e instigante que transpirava em suas paredes gotas da história industrial do ABC, tão bem decifrada por suas bandas desde os anos 80, assistia com atenção devota ao show da Der Baum. Fundidos aos instrumentos que dominam com debochada naturalidade, os quatros integrantes, mais a “quinta Der Baum” Priscila Fernandes, cujas performances em algumas músicas arrastam o show para uma obscuridade provocante e gótica que faz formigar a tela subcutânea da geração a qual pertenci. Eu estava seduzido por aquela banda. Seus caninos estavam, definitivamente, encravados no meu pescoço. E eu queria.

“Sua pergunta faz muito sentido” – disse Ian Veiga (teclado, vocal e pirotecnias sônicas) quando citei as diferentes percepções que tive da Der Baum ao longo dos rolês – “no momento, falamos que estamos vivendo nossa pequena era gótica e a gente está ouvindo muita coisa mais relacionada ao Industrial, aquele ambiente dos anos 80 onde surgiu Depeche Mode“.

banda Der Baum no estúdio Family Mob

Der Baum – foto: divulgação

Semanas depois, em uma tarde de sábado e ao rodar por algumas ruas aleatoriamente em busca do estúdio e casa de shows Casarão, descemos o vale que chega ao famoso rio  (“o riiiiiiiiio de Piracicaaaba” ouvi ao meu lado) guardado por ruinas…. industriais da usina do Engenho Central. Desta vez era a Der Baum que viajava comigo pelo interior paulista durante um final de semana, para uma mini tour da Agencia 55 que ainda incluía as cidades de Campinas e Americana.  Ao me deparar as ruínas do engenho, pensei em como as máquinas, engrenagens e fuligem os seguem, onde quer que vão.

Felizes e new wave

Outras impressões ricochetearam meu pensar neste final de semana. Dancei ao som de uma banda totalmente upbeat, levantadora de moral, com uma guitarra tocada pela frontgirl Fernanda Gamarano como quem guia o espectador por uma coleira. Havia segurança, havia autoridade. E havia uma festa.

“Ainda hoje, revivemos a festa que foi Guarujá Nights (álbum de 2018). Aquela fase foi a nossa Miami Nights, a coisa do Synthwave, uma coisa B-52’s, mas também com um pouco de Devo. Era bem festa. E nós éramos felizes naquela época” – prossegue Ian, não segurando um sorriso ao final da resposta.

A execução, mecanicamente sincopada com o apoio da cozinha imponente de Vanessa Gusmão no baixo e Cesar Neves na bateria, traz na figura da personagem Veronica Robótica, cyberwoman criada em single de 2015, uma espécie de espectro esquizofrênico que a banda conseguiu transformar em algo tangível. “Cibernética, conectada, ela é tudo e não é nada / automática, é só fachada, voltou pra casa, fodida e assaltada”.  Ainda que de uma fase antes da festa no Guarujá começar, o single forjou uma das personalidades do quarteto.

Ok, estou sendo romântico a partir daqui. Mas eu – não tão sóbrio, ok – já desci as escadas de um sobrado confuso e dei de cara com uma banda formada por uma espécie de Lux Interior nos vocais, uma espécie de Siouxie Sioux na guitarra, uma Annie Holland no baixo e um arrebatador, frenético baterista que consegue adicionar um contratempo funk à quadradeza post punk sem tirar do estilo sua beleza mecânica.

Der Baum está prestes a lançar um novo disco. Pergunto sobre qual das personas será assumida.

“Estamos em uma fase de referências fortes do ambiente gótico, também do Anthon Corbjin, artista plástico e diretor muito foda que fez os vídeos do Depeche Mode e outras bandas. O vídeo de Máscara já tem esta pegada e foi feito antes da pandemia. Já estávamos nesta de falar da peste, de uma epidemia “da raiva” e de ter a personagem da máscara do Dr. Praga, chamada A Cura (personagem encarnada por Priscila durante as performances na música Máscara)… o álbum inclusive iria se chamar “A Cura”, mas mudamos de ideia” – explica Ian – “A gente realmente agora está mantendo esta pegada gótica, mais obscura e pelos ensaios e singles que vamos lançar, vamos começar a botar o pezinho em uma pega um pouco mais eletrônica. Até como uma evolução do New Wave para um EBM, gótico, industrial até cair no eletrônico. E vamos ver no que vai dar (risos)”.

Segundo me conta, os primeiros tempos da Der Baum (A Árvore, em alemão) foram bem voltadas para a Bauhaus e a música concreta. A guinada para a vibração festeira, que inclusive trazia aromas de Cansei de Ser Srexy, Akira S. e As Garotas que Erraram e até mesmo Blitz, vieram em um segundo momento do grupo.

DNA? ABC!

Mas você sabe como é…  uma banda pode sair do ABC, mas a fumaça das chaminés de suas fábricas barulhentas jamais sairá de seus pulmões.

A região foi o maior polo industrial do país a partir da década de 50, sofreu uma explosão demográfica a partir dos anos 70 com a explosão das oportunidades de emprego e pulsou seu coração de forja até a crise de 90. O ABC criou, por tabela, a consciência de classe trabalhadora no Brasil, os movimentos sindicais, o questionamento dos filhos dos operários que reinterpretou o punk e a estética concreta vinda das estimulações confusas e cinzas. Assim como Sheffield. Assim como Detroit.  Assim como Düsseldorf.

Através de um apoio recebido pelo programa de incentivo a artistas durante a pandemia Proac Lab Expresso que direcionou recursos da lei Aldir Blanc, a Der Baum iniciou o ano de 2021 com um dos projetos mais bem executados dentre os artistas que estão se virando para se manterem ativos no universo online.

A experiência 3D da Der Baum

A banda produziu, de forma totalmente independente (sozinha mesmo, do it yourself) seis lives com propostas visuais completamente diferentes, em uma espécie de “Tron Tour 2021″. Bem Der Baum.

O projeto, já concluído e disponível online em seu canal de Youtube, foi executado com uma impressionante – principalmente quando se trata de uma produção totalmente caseira – qualidade. Um show utilizando cenários virtuais criados por computador na live chamada pela banda de Experiência 3D. “A Experiência 3D era algo que eu já vinha maquinando por um tempo. É para ser uma paródia dessas novas versões de shows que vão rolar, onde artistas terão uns avatares” – como por exemplo o show que Bruno Mars está planejando dentro do jogo online Fortnite – Nessa piração, decidimos fazer algo que é meio nessa onda”, explica Ian.

“Todo o conceito e execução desta live foi minha. Eu já estava mexendo bastante com fundo verde, quando fiz meu projeto solo (Ian X). Minha ideia era meio ambiciosa: gravar a gente ao vivo com o fundo e jogar o chromakey num cenário 3D. Eu já estava aprendendo um programa 3D, chamado Blender, que é open source. Muitos estúdios de cinema estão usando-o. Depois de jogar os integrantes dentro de um cenário 3D eu consigo animar as câmeras”.

O resultado é uma integração total entre o conceito e a banda. A ideia e a música foram feitas uma para a outra e conectam, de uma forma “impossível de se imaginar possível”todas os diferentes avatares da Der Baum. Mais do que o Dr. Praga, a Der Baum é metamorfose.  É o Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson.

Vários monstros.

Vários médicos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é editor chefe do Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.

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