Foto: ReproduçãoPor que interpretar Josephine Baker deve ser um dos maiores desafios de FKA Twigs
Edição: Flávio Lerner
Cantora e dançarina foi espiã na Segunda Guerra Mundial e a primeira pessoa negra honrada no Panteão de Paris
Josephine Baker (1906–1975) terá sua vida (uma das mais incríveis do universo cultural) contada em uma cinebiografia, escrita e dirigida por Maïmouna Doucouré e, vejam só, interpretada por ninguém menos do que FKA Twigs, que acaba de ser confirmada como uma das atrações do Primavera Sound São Paulo 2026.

“Estou honrada em colaborar com a imensamente talentosa Doucouré nesse projeto incrível. O legado extraordinário de Josephine Baker é uma inspiração para mim e para muitas pessoas no mundo”, declarou Twigs em um comunicado oficial. O projeto está em pré-produção, e espera-se que esteja pronto nos cinemas em 2028.
A artista exagerou no clichê em sua declaração sobre o projeto. Mas sim, deve estar bastante honrada. A história de vida de Baker é espetacular em vários sentidos. Dançarina, cantora, atriz, espiã de guerra, ativista experimental e a primeira pessoa negra (e a sexta mulher) a ser introduzida no Panteão de Paris, dedicado a grandes figuras, através de um cenotáfio de 2021, já que seu corpo permanece enterrado no Cemitério de Mônaco.
A história que você conhecerá agora mereceria umas série de oito temporadas. Um filme vai ser pouco.
Uma artista forjada pelos males do mundo
Desde que nasceu em St. Louis, nos Estados Unidos, em 1906, Freda Josephine McDonald conheceu o pior do mundo em que vivemos, como muitas mulheres de sua época. A diferença é que ela saiu metendo tapas na cara de todas as injustiças que encontraram seu caminho. Um trator em corpo de mulher. O pai sumiu já em sua primeira infância. A mãe, lavadeira, dava duro para sustentar a família, e a pequena precisou trabalhar já aos oito anos, vivendo em uma área onde a segregação racial reinava.
Com apenas 13 anos, foi forçada a se casar com um homem mais velho. O que Josephine fez? Se divorciou logo depois e se enfiou na cena de teatros Vaudeville. Aprendeu a dançar, e aprendeu bem. Tanto que, em 1925, com 19 anos, foi contratada pela trupe parisiense Revue Nègre, que a levou para o país que a recebeu de braços bem abertos.
Desembarcando na capital francesa durante os anos de ouro do jazz, Josephine começou a incorporar o canto em seus espetáculos de dança, até fazer uma transição completa para as apresentações musicais se valendo de todo o carisma e expressividade de palco que desenvolveu dançando.
Musicalmente, era filha da Era do Jazz, mas seu canto trazia vestígios do blues e uma emoção intensa. Ela não buscava a perfeição vocal, mas uma comunicação íntima com a plateia. Nos anos 1930, passou por uma transformação vocal e cênica significativa. Em 1934, após meses de aulas de canto, protagonizou uma ópera de Offenbach, La créole, no Théâtre Marigny, surpreendendo o público.
+ Participe do canal de WhatsApp do Music Non Stop para conferir todas as notícias em primeira mão e receber conteúdos exclusivos
+ Siga o Music Non Stop no Instagram para ficar atualizado sobre as novidades do mundo da música e da cultura
A icônica cantora Shirley Bassey, que cita Baker como sua maior influência, descreveu essa fase como a transição de uma “pequena dançarina selvagem com uma voz decente para uma grande diva magnífica”.
Assim, Josephine Baker se tornou uma das artistas mais bem-pagas da Europa, amada por figuras como Pablo Picasso e Ernest Hemingway. Ali, ganhou o apelido de A Vênus Negra.
Viva a França!
Sair de um país onde o racismo era apoiado pela lei para ser recebida de braços abertos e rosas nos palcos da Cidade Luz em sua fase culturalmente mais efervescente fazia parte de uma rota comum entre os grandes nomes da arte estadunidense. Era um outro mundo, onde sua profissão era inteiramente respeitada, independentemente da cor de sua pele.
Josephine Baker se tornou uma estrela máxima em toda a Europa, se naturalizou francesa e encontrou uma forma bastante corajosa de retribuir ao país tudo o que lhe foi dado. Quando a Segunda Guerra Mundial começou, a artista viu seu novo lar ser invadido pela Alemanha. E se alistou para trabalhar como espiã.
Recrutada pelo serviço secreto francês (contrainteligência militar), usou sua fama para frequentar festas de embaixadas e coletar informações cruciais sobre as tropas do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). Durante as turnês, escondia mensagens escritas com tinta invisível em suas partituras. Seu trabalho de espionagem foi oficialmente reconhecido: ao final da guerra, foi condecorada com a Cruz de Guerra, a Medalha da Resistência e a Legião de Honra (no grau de Cavaleiro).
As raízes estadunidenses
Finda a guerra, Josephine Baker apontou seu foco guerrilheiro para o país natal, que ainda vivia o inferno da discriminação racial. Ao retornar ao país natal nos anos 1950, tornou-se uma ativista ferrenha. Recusava-se a se apresentar para plateias segregadas e participou ativamente de manifestações, incluindo a Marcha sobre Washington em 1963, ao lado de Martin Luther King Jr. Por sua luta, a Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP) a nomeou “Mulher do Ano” em 1951.

A própria Coretta Scott King, esposa de Martin Luther e escritora e ativista dos direitos iguais dos negros e das mulheres, a convidou para assumir uma posição de liderança no movimento após o assassinato de seu marido — oferta que Baker recusou.
Uma prova de que havia muita coisa errada naquele pedaço de chão é que, mesmo sendo uma estrela gigantesca na Europa, Josephine nunca foi bem aceita em seu próprio país.
Um rolê histórico pelo Brasil
Em 1952, a cantora foi contratada para se apresentar no Teatro Santa Isabel, em Recife. O evento foi anunciado como a apresentação mais cara já contratada no Nordeste. Convencer a “mais famosa vedete mundial” (palavras da Rádio Tamandaré, que financiou o show) foi fácil. No século anterior, o engenheiro responsável pela construção do teatro, Louis Léger Vauthier, exigiu que nenhuma mão de obra escrava fosse usada. E foi atendido. Mereceram, portanto, Baker em seus palcos.
“A notícia ecoou por toda a cidade, como uma novidade sensacional, provocando os mais vivos comentários, despertando notável interesse, causando verdadeira surpresa. E desde então, a notícia tomou conta da cidade, ocupando todas as conversas e monopolizando as atenções. A presença de Josephine Baker no Recife será sem dúvida uma atração nunca vista entre nós. Todos aguardam com ansiedade a visita da estrela internacional, cantora e bailarina negra da França”, diz um texto do Diário de Pernambuco publicado em 03 de agosto de 1952.

Imagem: Reprodução
A Tribo Arco-Íris
A atenção que Josephine Baker dava à discriminação racial era tão grande que ela decidiu começar a resolver o problema dentro de sua própria casa, bem na esteira do ditado “pinta tua vila e terá pintado o mundo”. Em sua propriedade, o Castelo des Milandes, na França, adotou 12 crianças de diferentes origens étnicas e nacionalidades (como Japão, Finlândia, Costa do Marfim e Venezuela), formando a sua “Tribo Arco-Íris”. Muitos chamavam de experimento social, mas ela chamava de família mesmo. Gastou o dinheiro que tinha, e também o que não tinha, apostando nesse sonho.
FKA Twigs tem um presente e um fardo com o job que acabou de aceitar. Interpretará uma artista que cresceu no sofrimento, testemunhou um mundo absurdo e usou tudo o que ganhou através da arte (dinheiro, fama e contatos) para mudar a sociedade em que viveu.




