Ronettes Foto: Alamy/Reprodução

Adeus à última das Ronettes: a história do trio que moldou o pop — e pagou caro

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner


Com a recente partida de Nedra Talley, Jota Wagner relembra a trajetória de um dos grupos femininos mais influentes da música

No último dia 26, o mundo perdeu a última das Ronettes, Nedra Talley. A cantora interpretava a personagem “doce” do trio, que ainda tinha Estelle Bennett, a “elegante”, e Veronica Yvette Bennett, a Ronnie, como a “rebelde”. Qualquer semelhança com o formato de construção de identidades de todas as boybands, girlbands e projetos do K-pop não são mera coincidência. Elas o inventaram.

Conquistar o país com essa união de “personagens” não foi o único legado do grupo para a música. O visual aliava o sexy e o empoderamento, servindo de referência a artistas de muitas décadas depois, como Amy Winehouse e Chrissie Hynde. O som saía dos singles como uma paulada sonora, inspirando até mesmo punks como os Ramones. A influência das duas irmãs e uma prima mais nova no jeito como ouvimos música e assistimos shows até hoje é gigantesca. Com a subida da última Ronette para o paraíso dos artistas, vale contar a história do trio, repleta de fama e drama, para que jamais seja esquecida.

O encontro que rendeu muito e custou caro

Ao contrário do que muita gente pensa, o produtor doido de pedra Phil Spector não criou as Ronettes. Ele as encontrou. O trio formado pelas irmãs Ronnie e Estelle e a prima mais nova Nedra, começou a vida artística na casa da avó em Manhattan, na cidade de Nova Iorque, por volta de 1959. Ali, ensaiavam cantando e dançando os sucessos da época, até se sentirem seguras para se inscreverem em concursos de talentos com o nome The Darling Sisters. Dois anos depois, descolaram um contrato com a Copix Records e lançaram alguns singles, mas a coisa não “pegava”.

Phil Spector, o Napoleão Bonaparte da produção musical da época, já era um pequeno milionário aos 22 anos. Começou a carreira quase ao mesmo tempo que suas futuras contratadas, em 1958, como integrante e produtor do grupo Teddy Bears. A canção To Know Him Is to Love Him, que ele compôs e produziu, chegou ao primeiro lugar na Billboard. Voltou ao topo em 1962, já como produtor contratado, com He’s a Rebel, interpretada pelo grupo vocal feminino The Crystals.

A conexão entre as duas partes rolou em 1963, durante uma apresentação das Darling Sisters no bar Peppermint Lounge. Spector já havia montado sua própria gravadora e estava empolgado com o sucesso que havia feito produzindo as músicas da The Crystals, e queria um grupo para chamar de seu. Havia encontrado!

Convidou as garotas para integrar seu casting com uma proposta clara. Mudaria tudo. Desde o nome, que passou a ser The Ronettes, até a forma como as garotas se vestiam. Trocou o vestido longo do trio por minissaias, mudou seus cabelos e demandou as maquiagens carregadas nos olhos, que viraram marca registrada.

A spectorização do grupo passou também pela música. O repertório seria escolhido pelo produtor, que não cobrou barato por isso. No contrato assinado em 1963, os direitos reservados à Ronnie, Estelle e Nedra eram irrisórios, acendendo um gigantesco processo judicial, décadas mais tarde.

A fama sem a grana

No mesmo ano em que assinaram com Phil Spector, chegava às lojas o compacto com a música Be My Baby, atingindo o segundo lugar nas paradas de sucesso. O single trazia uma inovação musical. Uma técnica de mixagem chamada “Wall of Sound”, criada pelo produtor, que usava dobras e reverbs para fazer com que a gravação soasse muito mais alta do que a de outros artistas. Em seu primeiro lançamento, The Ronettes já se tornou um sucesso mundial. O empresário, produtor musical e controlador do grupo passou a soltar um single atrás do outro, todos com resposta para lá de positiva. A família de garotas de Manhattan se tornou estrela da música.

Em 1964, lançaram o único álbum de sua carreira, Presenting the Fabulous Ronettes featuring Veronica. Atravessaram o Oceano Atlântico para abrir os shows dos Rolling Stones e acompanharam os Beatles em sua icônica primeira turnê estadunidense. O futuro da vida artística das Ronettes, e a plenitude dos cofres de Phil, estavam garantidos. Não fosse o fato de, no auge do sucesso, o produtor se envolver na atividade que ele menos sabia fazer na vida: se relacionar com uma mulher.

Ronnie teve a péssima ideia de cair nos braços de seu produtor. A irmã e a prima não se conformaram. Spector, que mais tarde se envolveria em um turbulento caso de feminicídio, nunca totalmente explicado, era tóxico ao ponto de esconder os sapatos da namorada para que ela não pudesse sair de casa, como contou mais tarde a própria Ronnie em sua biografia Be My Baby: How I Survived Mascara, Miniskirts, and Madness.

Quando percebeu que Estella e Nedra tentavam, a todo custo, alertar Ronnie sobre a roubada em que ela estava se metendo, o produtor colocou o trio na geladeira. Manteve o contrato, mas se recusava a lançar novas músicas das Ronettes. Em 1967, no auge do sucesso, o grupo se separou. O produtor manteve a namorada em seu cárcere psicológico até 1972.

A gente te disse, não disse?

Tão logo se livrou de Phil Spector, Ronnie procurou a irmã e a prima para uma reunião das Ronettes. Mas o barco da vida já havia deixado o porto em que elas se encontraram. Nedra disse “não”. Estella passava por uma barra de saúde, e também não quis voltar com o grupo. Sentindo na pele todo o tempo perdido, Ronnie convidou Chip Fields e Denise Edwards para compor o trio e lançar um álbum, mas a coisa não rolou como esperava, e a formação se desfez em 1975. Ronnie seguiu na carreira solo, colaborando com diversos artistas, até 2022.

Em 1998, meteram um processo na fuça de Spector, pedindo 2,6 milhões de dólares em direitos autorais atrasados. Chegaram a ganhar a causa, mas o veredito foi revertido quando os advogados do produtor encontraram um contrato de 1963, assinado pelas meninas, onde estava estipulada uma quantia ínfima de cada disco vendido para Ronnie, Nedra e Estelle, agora reunidas em um outro plano e, quem sabe, dispostas a fazer alguns shows angelicais com as Ronettes.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.