Branford Marsalis Branford Marsalis [centro] com seu quarteto. Foto: Zach Smith/Divulgação

Expoente de família célebre do jazz, Branford Marsalis é ponto alto do C6 Fest 2026

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner


Filho de Ellis Marsalis Jr. e irmão de Wynton, Delfeayo e Jason, músico se apresenta com seu quarteto no dia 21 de maio

Chame de família, de fábrica de talentos, de dinastia… Como queira. A verdade é que o sobrenome Marsalis representa um pouco de tudo isso no universo do jazz. E Branford Marsalis, um de seus representantes, estará no Brasil com seu quarteto para se apresentar dia 21 de maio, durante o C6 Fest 2026. Os ingressos para ver o mestre, que ainda divide a noite com Anouar Brahem Quartet, Django Bates & Anja Lechner e Julius Rodriguez, já estão esgotados.

Este simpático que vos escreve já passou dos 50 anos de festa. E meu primeiro contato com o jazz, quando um garoto dos anos 80, foi através da família estadunidense. O trompetista e compositor Wynton Marsalis apresentava um programa dedicado a ensinar crianças e jovens a compreender o gênero musical, transmitido aqui no Brasil pela TV Cultura de São Paulo.

Para se ter uma ideia do impacto (e do sucesso de sua empreitada educativa), eu me lembro da “palestra” do mano, com o trompete em mãos. Ele comparava o andamento de uma música de jazz a um trem em movimento. Isso não saiu da minha cabeça nunca mais, assim como de incontáveis garotas e garotos como eu, hoje consumidores ávidos de jazz, em todas as suas tantas subvertentes.

Wynton e seu irmão mais velho, o primogênito Branford, são grudados. Viajaram o mundo participando da mais clássica formação dos Jazz Messengers de Art Blakey, no início dos 80. Dividem os holofotes com os outros dois irmãos, também músicos de sucesso, Delfeayo Marsalis e Jason Marsalis. Mas antes de falar do principado, com ênfase para Branford, que nos visita daqui a pouco, vamos contar a história do rei.

Ellis Marsalis Jr., o paizão educador

O que mais me encanta no jazz é seu equilíbrio perfeito entre improviso e estudo. É como se a música clássica e o punk-rock tivessem gerado um filho. Com a mistura do DNA dos dois movimentos (esqueça o tempo aqui), o gênero mistura a liberdade criativa com a necessidade de se aprimorar. E Ellis Marsalis Jr. compreendeu isso como ninguém.

Nascido em 1934, na cidade de Nova Orleans (“onde a música está em toda parte”), Ellis começou a tocar saxofone e piano, o instrumento que o consagrou, ainda adolescente. Mas percebeu já na década de 50, quando gigantes do jazz já haviam chamado a atenção do mundo, que a educação musical passava a ser primordial.

Se formou na Universidade Dillard em 1955, se tornou um bamba dos palcos e entendeu rapidamente que sua verve era, na verdade, de professor. Em 1974, Ellis Marsalis tornou-se diretor de estudos de jazz no Centro de Artes Criativas de Nova Orleans (NOCCA). Mais tarde, foi para a Universidade de Nova Orleans, onde liderou o departamento de jazz por 12 anos, até 2001. Ali, o sobrenome se tornou lendário, formando centenas de alunos que ocupariam palcos de todo o mundo, incluindo seus quatro moleques. O patriarca da família morreu em abril de 2020, aos 85.

Wynton Marsalis, o embaixador do reino

Se o papai ensinou todo mundo, alguém precisava espalhar o jazz aos quatro ventos. Essa foi a missão de vida de Wynton Marsalis. Nos palcos, sua carreira foi meteórica. Em 1983 e 1984, tornou-se o primeiro — e até hoje único — artista a vencer o Grammy nas categorias “Melhor Performance de Jazz Instrumental” e “Melhor Performance Clássica” no mesmo ano (1985).

Seu oratório Blood on the Fields (1997), sobre a escravidão nos Estados Unidos, foi a primeira composição de jazz a receber o Prêmio Pulitzer de Música. Ao todo, acumula nove Grammys e mais de 600 composições originais, incluindo sinfonias, balés e suítes.

Como diretor artístico do Jazz at Lincoln Center desde sua fundação, Wynton tornou-se o principal defensor institucional do jazz no mundo, liderando a orquestra da casa e promovendo programas educativos que alcançam milhões de pessoas (como o programa de TV que falamos no começo da matéria). Filósofo do swing, ele define o jazz como “liberdade e criatividade individual (improvisação), ação coletiva e boas maneiras (swing), aceitação, gratidão e resiliência (blues)”.

Branford Marsalis, promovendo o jazz através das conexões

O membro do clã que nos visita no C6 Fest 2026 aos 65 anos de idade também cumpriu a missão da família, mas de uma outra forma: atigindo novos públicos.

No início dos anos 1980, Branford Marsalis integrou os Jazz Messengers de Blakey e formou, ao lado de Wynton, o quinteto que gravaria álbuns seminais e faria turnês mundiais, inclusive com Herbie Hancock em 1981 no Japão. Em 1984, lançou seu primeiro disco como líder, Scenes in the City, e seguiu com o irmão mais novo até 1985, período em que também colaborou com Miles Davis e Dizzy Gillespie.

Em 1985, surpreendeu o mundo do jazz ao juntar-se a Sting, recém-saído do The Police, para gravar seu álbum de estreia The Dream of the Blue Turtles. Ao lado de Omar Hakim, Darryl Jones e Kenny Kirkland, o saxofonista ajudou a moldar o som de um dos discos mais influentes da década. Tocou com Sting no Live Aid e manteve-se como membro regular da banda até Brand New Day (1999), transitando com naturalidade entre o rigor do jazz e a comunicação de massa do pop.

E com vocês, o Branford Marsalis Quartet

Em 1986, Branford formou seu quarteto com Kenny Kirkland (piano), Robert Hurst (baixo) e Jeff “Tain” Watts (bateria). O grupo tornou-se uma das formações mais celebradas do jazz contemporâneo. Seu quinto álbum, I Heard You Twice the First Time (1992), venceu o Grammy de “Melhor Álbum de Jazz Instrumental”. Após a morte de Kirlkand, em 1998, Joey Calderazzo assumiu o piano.

Entre 1992 e 1995, Marsalis liderou a banda do programa de auditório The Tonight Show with Jay Leno, levando o jazz ao horário nobre da televisão americana. Paralelamente, desenvolveu uma carreira como solista clássico, interpretando obras de Copland, Debussy, Glazunov, Ibert, Mahler, Milhaud, Rorem, Vaughan Williams e Villa-Lobos com orquestras como a Orquestra Filarmônica de Nova Iorque.

O músico consolidou-se também como compositor para teatro e cinema. Seu trabalho na remontagem da peça Fences, de August Wilson, rendeu-lhe uma indicação ao Tony e um Drama Desk Award em 2010. Compôs ainda trilhas para filmes de Spike Lee, como School Daze (1988) e Mo’ Better Blues (1990).

Branford Marsalis acumula três prêmios Grammy, indicações ao Emmy e ao Tony, e foi nomeado um NEA Jazz Master, maior honraria dos Estados Unidos para um músico de jazz.

Fundou em 2002 o selo Marsalis Music, criando um espaço independente para projetos que vão de seu próprio quarteto a novos talentos, como o saxofonista porto-riquenho Miguel Zenón e veteranos como Harry Connick Jr. Arrumando tempo para honrar o legado do pai edudacador, também atuou como professor em universidades como Michigan State, San Francisco State e na Universidade da Carolina do Norte, onde atua desde 2005.

Enquanto Wynton assumiu o papel de guardião da tradição, Branford tornou-se o explorador — do jazz ao pop, do clássico ao hip-hop, do cinema ao teatro —, mostrando que o saxofone pode ser tão versátil quanto a imaginação de quem o sopra.

Calma que ainda tem mais: Delfeayo e Jason

Nascido em 28 de julho de 1965, Delfeayo Marsalis é trombonista e um respeitado produtor de jazz do jazz, responsável por dezenas de álbuns, incluindo trabalhos de seus irmãos. Começou no trombone aos 13 anos, estudou no NOCCA e formou-se em performance de jazz pela Universidade de Louisville, obtendo depois mestrado e doutorado. Dedicando-se à formação de jovens músicos, fundou o Uptown Music Theatre em Nova Orleans.

Jason Marsalis, o caçula, nasceu em 04 de março de 1977. Aos seis anos, estudou bateria com o lendário James Black e, ainda adolescente, estreou em disco no álbum de Delfeayo Pontius Pilate’s Decision (1992). Com o tempo, migrou para o vibrafone, e lidera atualmente o Jason Marsalis Vibes Quartet, mostrando que a tradição familiar não sufoca a individualidade.

O Auditório do Ibirapuera ficou pequeno

A noite com Branford Marsalis foi uma das primeiras a ter os ingressos esgotados, quando o C6 Fest 2026 abriu suas vendas. O quarteto que sobe ao palco é história viva e representa uma missão, assumida sem fardos por toda uma família de Nova Orleans. Toda boa vida demanda uma grande luta por um ideal. No caso da família Marsalis, a da união através da música. E que música!

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Serviço

C6 Fest 2026

Datas: 21 a 24 de maio de 2026 (quinta a domingo)
Local: Parque Ibirapuera – São Paulo/SP
Lineup completo: Veja aqui
Ingressos: Sujeitos a disponibilidade de lote via Eventim

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.