Foto: ReproduçãoIsso o Spotify não mostra
Edição: Flávio Lerner
Plataforma celebrou 20 anos divulgando números otimistas, mas a realidade dos músicos para lucrar com o serviço é bem diferente
O Spotify comemora 20 anos de existência. Para celebrar sua dominação global, publicou um relatório repleto de louros, conquistas e otimismos. Fala de sua consolidação como a maior plataforma de streaming do mundo (o que é muito relevante, já que hoje em dia 65% da música ouvida no mundo é através do formato), que cresceu 10% no último ano e que distribuiu 11 bilhões de dólares para artistas de todo o planeta.

Em seu comunicado oficial, doura os grandes números, relevando o crescimento do grupo de artistas que fatura mais de cem mil dólares por ano (13.800) e celebrando que, atualmente, 80 superstars recebem mais de dez milhões em direitos. Não conta, por exemplo, que esse olimpo representa 0,3% dos artistas ativos em sua base de dados.
O documento foca no crescimento. O funk brasileiro, por exemplo, viu aumentar em 36%, a nível mundial, a quantidade de tocadas pelos usuários. Foi o estilo que mais cresceu nos últimos cinco anos. O K-pop ficou em segundo lugar (com 31%), e o trap latino leva a medalha de bronze (29%).
O sistema de streaming (não só do Spotify) representa uma desigualdade social capaz de fazer com que o Brasil pareça um paraíso católico. Estima-se que mais de 97% de todos os artistas que batalham por suas carreiras recebem menos de mil dólares por ano (isso o relatório não conta), um valor que não paga nem a gravação de um bom álbum.

Para ler o relatório de boas notícias dos 20 anos do Spotify, basta clicar aqui. A partir de agora, vamos entrar no gigantesco labirinto do sistema de pagamento de seus direitos autorais, onde o Minotauro se chama “algoritmo”. Um limbo que explica por que todos os seus amigos músicos fazem de tudo para jantar de graça na sua casa. Uma realidade longínqua dos bilhões distribuídos anualmente.
Primeiro passo: ser admitido no parquinho
O colorido relatório do Spotify celebra, entre seus pontos altos, os artistas independentes, relatando um crescimento de royalties pagos à galera do “faça você mesmo”. Aquela banda sem gravadora, que paga tudo do bolso e sobe seu álbum ou single na plataforma, esperando abrir o aplicativo do banco no mês seguinte e ver lá um dinheiro pago pelo conteúdo que ele está colocando de graça em uma plataforma que vive dos ouvintes de música.
Esse é o mesmo modelo de negócio de praticamente todas as redes sociais. Incentivam os usuários a criar e publicar conteúdos para capitalizar em cima da audiência. A diferença é que, na música, todos são profissionais. Vivem dela. Muito diferente de publicar o vídeo do seu gatinho arranhando o sofá.

A renda das plataformas de streaming vem dos assinantes e da publicidade. Segundo o próprio Spotify, cerca de um terço dessa grana fica para a empresa, e o resto é distribuído. Mas não para você. Apesar de sua obra artística já estar lá disponível, é preciso atingir pelo menos mil reproduções completas (do início ao fim da música) em 12 meses. Esse milhar de plays vai render à música, no Brasil, algo entre R$ 3,00 e R$ 6,00 brutos (há uma diferença significativa se o play vem de uma conta gratuita ou premium).
O cálculo, porém, é sobre porcentagem. Senta, que lá vem história!
O tal do “royalty share”
É pouco, mas tá claro: a cada mil plays da minha música, vou ganhar uns cinco reais, certo? Não. O pagamento se dá de forma diferente e complexa. Todos os dois terços que não são da administração do Spotify vão para um fundo chamado “royalty share”. A partir do momento que você atinge o número mínimo de mil reproduções em 12 meses, você entra para o cadastro de quem pode receber, mas por porcentagem de execuções musicais.
Se os números da sua banda representam 1% de todas as canções habilitadas na plataforma, esse é o número que será dedicado à sua música. Na fila de recebimento estão Taylor Swift, The Weeknd, Beatles, BTS… e, quanto mais sucesso eles fazem, lançando um novo álbum, por exemplo, menor é a sua porcentagem. Uma conta que contribui, absurdamente, com a desigualdade artística que falamos acima.

Calma que piora!
Mesmo que pouco, o dinheiro pago pelo Spotify e as outras plataformas pelas reproduções da sua música não vão direto para o bolso do artista. Antes, precisam ser fatiados e filtrados por diversos intermediários. Para começar, ela é dividida entre direitos autorais (pertencentes a quem compôs a música e a letra) e direitos fonográficos (aos músicos que gravaram a canção e a lançaram comercialmente). Nesse momento, o dinheiro é dividido em dois, e cada um desemboca em um funil diferente.
Para receber os direitos autorais, o compositor da música não pode bater na porta das plataformas de streaming e berrar “cadê meu dinheiro?!”. Ele precisa se unir a uma associação de compositores, instituição sem fins lucrativos que intermedia o recebimento entre as plataformas e o compositor.
Existem várias, só no Brasil, como UBC, ABRAMUS, SOCIMPRO, etc. São elas que recebem os relatórios e valores do Spotify, por exemplo, e capturam uma comissão para sua administração, em parceria com o ECAD (Escritório de Arrecadações de Direitos Autorais). Do total recebido, cerca de 10% vai para o ECAD, e 5% para as associações.

O mesmo acontece no caso dos direitos fonográficos. As plataformas de streaming não permitem que um artista faça a publicação de suas músicas diretamente. O músico precisa contratar uma gravadora ou agregadora (uma distribuidora digital). São elas que farão o serviço de enviar seu som a todas as plataformas, cobrando por isso.
No caso dos independentes, muitas vezes as pequenas gravadoras precisam contratar uma distribuidora para chegar ao Spotify. Ou seja, mais uma camada de intermediários. Aqui, os valores e porcentagens mudam de acordo com a negociação. Existem distribuidoras que cobram um valor fixo por música e repassam todo o dinheiro que chega a elas vindo das plataformas. Outras cobram em torno de 20% de cada recebimento.
Se você é músico, pegue o lencinho de papel e acompanhe o exemplo abaixo.

Me dê números!
Sua música fez um baita sucesso e lhe rendeu R$ 100,00 em renda bruta. Um terço (R$ 33,00) fica para plataformas como o Spotify. Para quem gravou a música, os direitos fonográficos resultarão em aproximadamente 40 pilas. Para o compositor da música, os outros 27 reais.
Para o dono dos direitos autorais (compositor): desses R$ 27,00 citados acima, sua associação de compositores e o ECAD ficarão com R$ 4. Ou seja, o valor final do pix para sua conta corrente será de R$ 23. Se a música tiver mais de um autor, o valor é dividido igualmente entre todos.
Para o dono dos direitos fonográficos (músicos que gravaram e lançaram): dos R$ 40,00 a que você teria direito, cerca de R$ 8,00 vão para a distribuidora digital, se você for um artista independente. Se o álbum foi lançado por uma gravadora, normalmente o combinado é metade do lucro para cada parte: 16 reais para o selo e 16 para o artista, que ainda vai dividir entre seus integrantes.
Se seis pessoas participaram da gravação, dá R$ 1,33 para cada um que trabalhou em uma música que rendeu cerca de dez mil reproduções no Spotify. Isso sem contar o amigo que fez a collab, o empresário que cuida da sua carreira, o advogado que te ajudou nos contratos, o produtor musical, etc., etc. e etc.
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Meu aluguel vence amanhã, onde eu pego essa fortuna?
Além de extremamente diluída, a grana ainda é demorada. Depois que as plataformas depositam o dinheiro para os intermediários, cada um tem seu prazo de fechamento. O padrão são os famosos “quarters”, ou trimestres. Após o fechamento de recebimentos do dia 01 de janeiro a 31 de março, por exemplo, o valor é fechado e as associações ou distribuidoras fixam um prazo de pagamento, de dez a 30 dias.
O problema, para os pequenos, é que várias delas estipulam um limite mínimo (cem dólares, por exemplo) para fazer as transferências. O dinheiro só fica liberado quando esse piso é atingido. Explique isso para a sua imobiliária!



