Laurent Garnier Foto: Reprodução

Laurent Garnier: “Se você é purista, não venha me ver”

Music Non Stop
Por Music Non Stop

Entrevista por Claudia Assef

Texto por Jota Wagner

Edição por Flávio Lerner

Um dos DJs mais amados no Brasil, francês fala com Claudia Assef antes de minimaratona no país — que pode ser a última

Laurent Garnier está de volta. O francês é um dos DJs gringos mais amados no Brasil, principalmente porque está entre nós desde a aurora da música eletrônica no país. Garnier veio pela primeira vez ao país tocar na icônica Sound Factory, em São Paulo. Ainda nos anos 90, no lendário Hell’s Club e no também lendário Lov.e Club. Todas as noites são consideras históricas. No Hell’s, pagou o café da manhã de quem ficou até o fim em uma padoca da Rua Augusta. No Lov.e, estendeu a festa de segunda feira até as 09h da manhã, prejudicando o PIB da cidade na terça, quando muita gente deu cano no trabalho. Voltou diversas vezes desde então.

A sequência de três shows que fará no final de semana — toca agora em São Paulo (17, Sonora Garden), Itajaí/SC (18, Warung Beach Club) e Rio (20, Estrada do Joá, 1410) — tem um elemento extra de tensão e mistério. Garnier declarou publicamente que está encerrando as turnês. Hoje com 60 anos, a lenda francesa avisou que vai se dedicar a tocar em poucas noites e clubes pequenos perto de casa. “O que eu gosto hoje em dia é de sair para comer, sair com meus amigos e beber vinho”, contou ao Music Non Stop.

Por outro lado, é evidente a relação especial que tem com o Brasil, o que torna bastante possível a esperança de que, vez por outra, vai colar por aqui para alguns de seus longos e históricos sets. Tudo vai depender de como serão as três próximas festas. Do alto de sua experiência, o cara demonstrou na entrevista que deu a Claudia Assef que passa longe do deslumbre na carreira: “Às vezes, é um pouco assustador, porque as pessoas têm expectativas demais. Eu só toco discos”.

Confira o bate-papo completo com o mestre sobre sua relação com o Brasil, seu momento da carreira, as novas tecnologias e sua incrível coleção de 60 mil discos de vinil.

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Claudia Assef: No Brasil, você esteve na Sound Factory, no Hell’s Club, e viu tudo melhorar. Que impressão você tem desse crescimento?

Laurent Garnier: Sempre tive uma relação muito forte com o Brasil. Muitos dos meus trabalhos aí foram muito especiais. Fico feliz por ter estado aí desde o começo. Fiquei conectado com a primeira fase do techno no país. Conheço alguns dos DJs que estavam aí primeiro, como Mau Mau, Marky e Eli Iwasa. Pessoas que conheço há muito tempo. Realmente, senti que havia uma conexão muito forte com o público. O Brasil e o Japão são lugares onde sempre é muito especial ir.

Vou para fazer meu trabalho. Consigo ver muita empolgação com esse final de semana que está chegando. Há muita pressão, mas é muito empolgante ver o quanto as pessoas ficam felizes em me ver de volta. É sempre especial, porque estou aí desde o começo, quando o techno começou a creser, e muita gente se lembra daqueles dias. Se eu contribuí um pouco, é maravilhoso.

Laurent Garnier

Laurent Garnier no Lov.e Club. Foto: Fabio Mergulhão/Divulgação

Você é muito celebrado quando vem para cá.

Sim. Mas às vezes é um pouco assustador, porque as pessoas têm expectativas demais. Eu só toco discos. Lembro-me de uma vez em que voltei para São Paulo depois de um tempo, e havia tanta empolgação que senti que as pessoas ficaram um pouco desapontadas, porque eu não sabia o que elas esperavam de mim. É o que eu sempre digo: eu não pulo, só toco música. Mas tento contar boas histórias. Nem sempre dá para fazer direito, mas a ideia é tentar chegar lá. O lance é tocar a faixa certa, na hora certa, e ler o que as pessoas pensam.

Tenho muito viva a lembrança de uma noite longa com você no Lov.e Club — uma segunda feira em que você tocou até as 08h da manhã, misturando coisas muito diferentes. Como você pesquisa música assim, de uma forma tão global?

Eu passo umas nove horas por dia ouvindo música. Escuto todos os dias, o tempo todo, desde as 08h da manhã. O problema é que agora é tudo tão exponencial… Tem muito mais faixas saindo, muito mais gravadoras, e não é tão fácil. Mas está mais disponível, por outro lado. E eu amo tantos gêneros diferentes, que não me importo. Se no Bandcamp encontro uma gravadora que faz blues, por exemplo, escuto tudo e fico completamente louco. Escuto até rockabilly, coisas dos anos 60. Às vezes tenho de dizer para mim mesmo: “Laurent, pare agora, ou vai acabar comprando tudo”. É uma compulsão.

Além disso ouço muita house nova, techno, tudo o que está saindo, música americana. O problema é que isso me consome tanto tempo que não consigo mais produzir. Antes, você tinha que ir até uma loja de discos pra comprar as coisas. Não tinha acesso a tanta quantidade. Se resolver explorar tudo, vai enlouquecer como eu. Amo tudo e não sou especialista em nada.

Você tem ideia de quantos álbuns tem, ou já perdeu a conta?

Os de vinil eu sei dizer. Estão todos na minha sala. Tem uns 60 mil.

Meu Deus…

Só em vinil. Porque também tenho muitos CDs. Nos anos 90 eu comprava muito. Agora, com o download digital, impossível saber quantos. É patético. Fico nervoso só de falar. É meio idiota porque sei que não terei tempo suficiente até o dia em que eu morrer para ouvir tudo. Estou construindo um templo musical enorme, mas quem vai ouvir isso?

Você também é um bom jornalista. Fala muito bem não só sobre sua história, mas sobre a história com a qual você se envolveu, fazendo documentários, escrevendo livros…

Não acho que seja um talento especial. Uma grande parte do nosso trabalho, como DJ, é observar. Eu sempre digo, você não pode preparar seu set antes de um show, por um motivo simples: porque você nunca sabe qual vai ser o clima, você nunca sabe quais discos o cara ou a garota antes de você vai tocar, você nunca sabe como vai ser, você não sabe o tempo, você não conhece o clube, não conhece o som, não conhece o clima.

Se você não observa, está impondo algo, e eu não gostaria de impor nada. Acho que uma das coisas principais sobre ser DJ é conseguir observar as pessoas, ouvir e criar um relacionamento observando a reação. Eles estão sorrindo? Eles estão felizes? Tem uma grande mudança nesse disco? Tem gente saindo ou entrando na pista? Gosto de observar, e é por isso que nunca curti tocar em palcos grandes, longe do público. Eu amo estar com as pessoas, porque amo ver os olhos delas e gosto de pelo menos enxergar a linha de frente e ter uma conexão com elas.

Recentemente você voltou a se aproximar do techno, produzindo-o…

O techno hoje em dia parece ser mais pesado e rápido. É uma nova tendência com a qual não me sinto muito conectado. Mas não é a primeira vez. Se você olhar para 20 anos atrás, com o gabba na Holanda, era ainda mais pesado. Sempre estive entre o techno e a house. E sempre estive satisfeito com todos os diferentes gêneros de música eletrônica. Às vezes produzo muito, às vezes não. Tudo depende das outras coisas que faço na minha vida.

Hoje estou passando mais tempo fazendo rádio, porque estou ouvindo mais música. E também trabalhando com chefs, fazendo playlists especiais sobre comida, por exemplo. Estou passando muito tempo na minha gravadora [COD3 QR], fazendo A&R.

Além disso, o que eu gosto é de sair para comer, sair com meus amigos e beber vinho. Desculpe, mas sou uma pessoa completamente normal, com 60 mil discos em casa.

Agora que a cena de DJs cresceu muito, o primeiro compromisso é ter uma boa conta no Instagram, um logotipo…

Eu não sou uma marca. Nunca me vi como uma. E não quero ser. Não trabalho com pessoas assim. O principal deve ser a música. Meu filho também é DJ, e eu fico dizendo para ele: você vai aprender muito mais fazendo shows ruins no começo, indo para lugares onde não tem ninguém, onde você tem que tocar por cinco horas.

Tocar em um palco grande, por uma hora e meia, com uma plateia enorme com as mãos pro alto é muito, muito fácil. Saber como conquistar um público que não é seu? Isso é aprendizado. Digo a ele que toque em bares, lugares diferentes. E ele está fazendo muito isso, o que é muito bom.

Posso tocar a noite toda. Gosto de sets longos, quando posso ser eu mesmo. Se é preciso voar 12 horas até o Brasil para fazer isso, qual o problema? Você pode odiar ou adorar, mas pelo menos vai saber um pouco sobre quem eu sou. Se eu tocar uma hora, você não vai saber nada sobre mim. Não haverá conexão.

Se você tivesse que fazer uma curadoria só de artistas brasileiros para seu set, o que tocaria? Baile funk?

Às vezes até toco funk brasileiro, mas fiz isso uma ou duas vezes no Brasil e a reação foi muito estranha. Umas pessoas ficaram ofendidas e outras felizes. Estou ciente do que está acontecendo aí musicalmente e acho bem legal. Mas eu não moro no país. Não sei exatamente a história, como os brasileiros percebem essa música. Se um estrangeiro viesse tocar música francesa aqui, ficaríamos muito felizes. Mas sei que o funk pode ser complicado. Toquei algo parecido com baile funk aqui um vez, e um brasileiro fez um comentário: “espero que você não toque isso quando vier ao Brasil”. Achei meio violento. Eu estava em Paris. Era um long set e eu toco o que eu quiser.

Além disso, agora você tem uma nova onda de DJs que misturarm muito bem baile funk com techno, bass music e tudo o mais. Então pode ser que seja mais aceitável. Mas se você estiver tocando para um público mais velho, vão achar irritante.

Mas deixe-me ser muito claro com as pessoas que irão me ver: eu odeio puristas, porque eles fazem coisas que acabam matando a música. Aconteceu com o jazz. Muita gente achou que o jazz estava morto quando Miles Davis morreu. Muito blablablá. E eu não toco mais techno como antigamente. Não toco hard techno. Hoje toco mais house do que techno, porque acho mais interessante.

Amo música. E sim, talvez toque funk, música acústica, bass music… Ouça minha rádio e você vai ver o que estou tocando. Se você é purista, por favor, não vá. Vai ficar superdecepcionado.

Eu já fiz até turnê com o Marky. Tocamos juntos. Foram uns 10 ou 12 encontros. Posso fazer uma noite inteira tocando drum’n’bass. Há duas semanas, fiz um set de blues e R&B. É ótimo. A música é boa se faz você dançar.

Eu sei que você não prepara seus sets, mas pensa nisso de acordo com o país que vai? O que tocar no Brasil ou no Japão, por exemplo?

Não tem nada a ver com o destino. Depende do clima, do tamanho do lugar, da atmosfera. Uma coisa é certa: odeio ensaiar comigo mesmo. Sei que tem fãs que vão sempre que eu toco, e tem gente de outros países também. Para você ter uma ideia, sei que dois franceses vão viajar para ver os três shows no país. Estiveram na Suíça e em Viena. Sabem que nunca toco a mesma coisa. Claro que há uma faixa ou outra que toco várias vezes — mas não da mesma forma, não na mesma direção e não na mesma sequência.

Gosto de surpreender e gosto de dançar. E eu não gostaria de dançar a mesma música toda noite. Eu nunca sei com antecedência.

Uma coisa certa é que vou tocar muitas músicas da minha gravadora. Inclusive as que ainda não foram lançadas.