Selvagem no Paribar, em São Paulo. Foto: Divulgação“Vamos refundar a Selvagem em São Paulo”
Edição: Flávio Lerner
Representantes de uma das festas de disco house mais queridas do Brasil, Augusto Olivani e Daniel Ramos conversam com Jota Wagner
Em novembro de 2026, a Selvagem fará um festival de aniversário com o objetivo de “renovar os votos” com São Paulo. Apesar de nunca ter abandonado a cidade, a poligamia com o Rio de Janeiro acabou cooptando uma parte da exposição recebida pela label dedicada à fusão de música brasileira perdida com tempero eletrônico.

No último Carnaval, o núcleo precisou mudar a locação de sua festa carioca, às vésperas do evento, porque tinha muito mais gente querendo ir do que o espaço original comportava. Mudou-se para a Nau, na zona portuária, e foi um sucesso, com cerca de oito mil pessoas. O maior evento de sua história.
Sem tirar o chinelo de dedo, a Selvagem quer mostrar que há muito mais por vir. Festas itinerantes pelo Brasil (Porto Alegre e Brasília já estão confirmadas), um novo gás no selo Selva Discos, disponibilizar mais conteúdo para seu público enquanto as festas não chegam em muito mais.
Para nos revelar a quantas andam os projetos futuros na selvageria — e são muitos! —, Augusto Olivani (Trepanado), fundador do núcleo e DJ, e Daniel Ramos, diretor de marketing, conversaram com o Music Non Stop. Na entrevista a seguir, você saberá um pouco de tudo o que estão aprovando em 2026… e além.

O último Carnaval Selvagem. Foto: @thiagofmxavier/Divulgação
Jota Wagner: Após a pandemia e a consolidação de tantas festas, como tem sido conseguir locações para os eventos?
Augusto Olivani: Isso sempre foi um ponto nevrálgico.Tanto no Rio, quanto em São Paulo, é preciso seguir essa lógica imobiliária. Descobrimos um bairro para fazer festa, e logo depois vêm as incorporadoras, veem potencial, pegam uma uma área que estávamos usando e temos de correr para outro lugar. Chega um ponto em que o processo de legalização dos galpões acaba ficando muito caro, e a contrapartida, muito ruim. Você precisa montar a estrutura inteira, e os custos aumentaram demais após a pandemia.
Muita festa sentiu necessidade de aumentar de tamanho por causa desse aumento de custos…
Augusto: A gente tem lidado com isso. O Carnaval foi aumentando gradualmente. Começou com 300 pessoas, e este ano, tivemos oito mil. Mas a gente tenta manter um equilíbrio. Também faz eventos menores, para 400 pessoas, para que consigam sentir aquele clima de antigamente.
Não há um meio termo. Ou você faz um evento pequeno, ou precisa escalar para três, quatro mil pessoas, por causa do equilíbrio de custos. É importante saber o que você quer propor. Para um Carnaval ou nossa festa de aniversário, por exemplo, fazer algo maior tem tudo a ver. Mas é importante manter a espinha dorsal da festa.

Augusto Olivani, o DJ Trepanado. Foto: Eduardo Magalhães/Divulgação
Que característica vocês gostariam que a Selvagem jamais perdesse?
Augusto: Acho que uma relação com a comunidade, com as pessoas que frequentam a festa. Há algo afetivo, de gente que frequenta há muito tempo. O aspecto das pessoas se sentirem à vontade e se conhecerem. De se encontrarem mesmo sem precisar combinar. Outra parte inegociável é a questão musical. A Selvagem nunca foi ao sabor da moda. É disco e house com sotaque brasileiro. É uma festa para quem gosta de dançar, sem carão.
Até porque vocês inventaram uma linha musical bem específica para a Selvagem, com essa cara mais brasileira…
Augusto: Sim, e isso continua. Mesmo que às vezes apareçam alguns pastiches da festa por ai, tocando coisa parecida com a linha de pesquisa que a gente levantou lá atrás, durante anos. Seguimos testando coisas diferentes, tanto na festa como no selo. Acho que as pessoas esperam isso da Selvagem: ouvir coisas brasileiras que funcionam lá e não fazem tanto sentido em outras pistas.
Daniel Ramos: A Selvagem foi minha festa favorita nos últimos 20 anos. Aprendi muito musicalmente. E vejo um movimento interessante da geração Z redescobrindo isso, também, a partir de outras linhas. O rapper BK’, por exemplo, com muito diálogo entre a garotada de 20 a 22 anos, usou a voz da Evinha em seu último álbum. E eu ouvi Evinha pela primeira vez na Selvagem.

Selvagem no Rio de Janeiro. Foto: Divulgação
A Maria Rita Stumpf se mostrou muito grata à Selvagem pela redescoberta de sua música. Após 15 anos de festa, ainda dá para redescobrir coisas?
Augusto: Por um lado, tem coisas que eu já havia descoberto antes e que não faziam sentido no começo da Selvagem, mas hoje fazem. Até porque as coisas foram se sedimentando. Antes, tocar disco com coisas regionais era forçar a amizade um pouco. Hoje, faz muito sentido. Estamos tocando um versão disco do Roberto Leal. A batida é um clássico de pista e o vocal de Portugal. Ousadíssimo.
Vocês têm a festa e o selo, Selva Discos. Quais os novos projetos?
Augusto: A gente está querendo desenvolver uma plataforma de conteúdo. Acho que é um dos eixos da Selvagem, até por eu ser jornalista de formação. Algo que faz parte do universo da festa, abordando de uma forma mais série, falando de comportamento, moda, vida e experiência. Seria um jeito de estar mais presente na vida das pessoas, falando da cultura brasileira de pista, diferente de todos os outros lugares do mundo.

Selvagem no Paribar, em São Paulo. Foto: Divulgação
Daniel: Eu trabalhava na Globo do Rio de Janeiro, na área de cinema. Vim para São Paulo e comecei a trabalhar com o marketing de uma festa que sou fã. A Selvagem é uma plataforma de entretenimento. E plataforma serve para catapultar gente boa, que não tem, necessariamente, visibilidade.
Temos todo um universo de coisas. Uma delas é fazer eventos em outros lugares do Brasil. Uma festa ultrabrasileira precisa disso. Queremos fazer eventos menores para ocupar a rua novamente, como fazíamos no tempo do Paribar. E estamos desenhando o aniversário da Selvagem, um festival, em novembro.
Temos várias ideias, como uma pista dedicada a donos de lojas de vinil. Chamá-los para tocar. Trazer artistas diferentes. Marcelo D2 me disse que adoraria discotecar numa Selvagem. Vi o Ed Motta discotecando em Buenos Aires e foi incrível.
Falem mais sobre essa plataforma de conteúdo.
Daniel: Hoje temos a newsletter, que muita gente lê, bem-escrita. Vamos investir mais nela esse ano. Nós temos o Selva Clube, que é um clube de benefícios. Ali você tem conteúdo, acessos sociais nos eventos…
Augusto: Já fiz muito fanzine. Talvez transformar a newsletter em algo impresso, com temas diferentes em cada edição.
Daniel: O site também está sendo estruturado para virar um acervo. Para fazer com que as pessoas conheçam uma parte da festa que não sabem. É importante preservar a história.
Augusto: Estou com uma ideia maluca relacionada a mixtapes. Levar as coisas para o mundo físico. Sinto que tudo fica desarticulado no digital. As pessoas já não estão mais guardando, não tem mais muita memória das coisas, porque já não sabem o que aconteceu.
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O que já está formatado para o aniversário da Selvagem, em novembro?
Augusto: Sabemos que vai ser um evento privilegiando o dia, mantendo a estética sonora da Selvagem, mas com palcos menores, para cada comunidade. Vamos pegar o que está no nosso cerne e vamos refundar a Selvagem em São Paulo. Recuperar a essência do Paribar.
Essa ideia de refundar a Selvagem em SP passa por trazer a estética das festas do Rio?
Augusto: Não. No Rio, a Selvagem funciona melhor de noite. Não dá para concorrer com as coisas que se pode fazer lá durante o dia. Em São Paulo, é uma festa para se ir de dia. Óbvio que a gente também viu umas transformações de comportamento. Nosso público também envelhece, começa a sair menos e privilegiar os eventos diurnos.
Os jovens também estão saindo mais de dia…
Augusto: Pois é. Eu observei tudo isso, como as coisas estão se desdobrando. Queremos algo ao ar livre. E a disco house brasileira tem elementos orgânicos que podem ser trazidos para o festival. A coisa da banda. Pensei em experimentar um pouco mais trazendo um palco com shows. Mas o trabalho forte desse ano é refundar a história da Selvagem. Renovar os votos com a cidade.

Selvagem no Edifício Martinelli, em São Paulo. Foto: Divulgação
E em relação a viajar pelo Brasil?
Daniel: Temos duas festas confirmadas, em Porto Alegre e Brasília. Seguiremos essa lógica dos eventos em praça, parques e tal, o que é muito Selvagem. Queremos seguir essa lógica de ocupar espaços públicos com sonoridade cultural. Vamos levar a alma da festa para outros lugares do Brasil, com uma estratégia já garantida.
Isso vai ser feito em parcerias com produtores locais?
Augusto: Sim, com produtores parceiros. Pessoas que conhecem o público, para não parecer uma coisa impositiva. Não é porque você é de São Paulo que pode chegar e botar o pé em outra cidade, sem lastro com a comunidade, com o povo que gosta de dançar.
Em quais capitais vocês querem fazer primeiro?
Augusto: Belo Horizonte, Fortaleza e Salvador. Lá, temos a BATEKOO. Gop Tun também já está em Salvador há três anos, e a Selvagem deve muito a Salvador. A cidade tem um ziriguidum que nenhum outro lugar tem.



