Marina Lima. Foto: ReproduçãoPor que todo mundo sai ganhando com a treta entre Marina Lima e seu crítico
Edição: Flávio Lerner
Jota Wagner analisa a polêmica da semana no universo da música brasileira
Marina Lima lançou seu 18º álbum, Opera Grunkie. Uma crítica na Folha de S.Paulo, escrita por João Perassolo, detonou o disco, classificando-o como “o pior de sua carreira”. Deu treta nos meios digitais. A cantora ficou brava. Chamou o crítico de “escroto”. Outras celebridades apareceram para defendê-la. Todo mundo ganhou com isso. A artista, o crítico e o público. Comemorem.
Comecemos pelo público e, ampliando um pouco mais o espectro, o próprio cenário musical. Clientelismo não faz bem para a arte. Ver novamente uma crítica negativa enfurecendo seu criador é um alento. Nos faz pensar, traz outras perspectivas sobre uma obra. Traz também a humanidade tão necessária em tempos de deslumbre com a Inteligência Artificial. Somente seres humanos erram. Lembrando que o “erro” vale para alguns. Outros podem achar Opera Grunkie o máximo. A unanimidade, na música, também é chata.
O crítico, por sua vez, viu seu nome se espalhar pelo Brasil, ganhando mais fãs e haters. Sua função é ser lido e, com a brabeza de Marina Lima nas redes sociais, certamente teve seu texto muito procurado. Eu mesmo me assustei com a fúria da artista e fui correndo ler a crítica de Pessarolo que, a bem da verdade, passa longe das ofensas pessoais e da falta de respeito. Ele fala da obra. Dizer que uma “letra é boba” não significa que o artista, ou seu legado, o são. Longe disso, e o autor faz questão de deixar claro em momentos-chave. Expôs sua opinião — fez seu trabalho — falando sobre aquele que é o pior disco da carreira de Marina Lima, sob sua ótica. O que a gente faz? Vai ouvir o disco pra sacar se é mesmo.
E então, chega a vez do artista. Marina Lima ganhou muito em mídia espontânea. Inflou seus fãs, e gerou curiosidade quase viral. Entendemos a quantidade de energia que um artista coloca em um novo álbum. Anos em composições, gravações, mixagens e ações de lançamento. É natural que isso crie uma baita expectativa. Colocar “esse filho no mundo” e ver alguém falando mal dele deixa qualquer um muito bravo. Expor essa cabreiragem com um post possesso nas redes sociais é natural e, para a música, saudável.

O problema é que alguns fãs partiram para o perigoso lado do “macho” que estava falando mal de uma artista mulher. Calma lá, gente! Não é por aí. Não queremos um mundo onde um homem não possa criticar uma artista mulher, mas um onde uma crítica mulher possa detonar o disco de um artista homem, sem sofrer ataques misóginos por isso.
Na moda, temos as temidas Suzy Menkes e Cathy Horyn. No cinema, cineastas tremem antes de ler uma resenha de Manohla Dargis ou Amy Nicholson. Na música, infelizmente, o machismo ainda impera. É por isso que lutamos, todos os dias.
A crítica musical surgiu junto com o mercado de discos, lá no meio do século passado. Em um mundo sem internet, era preciso saber das novidades comprando jornais e revistas especializadas. Uma resenha publicada por um jornalista nos dava a oportunidade de saber a quantas andava o potencial daquele novo lançamento.

Com a destruição da renda obtida pela venda de discos após a popularização do MP3, o papel da crítica mudou. Todo mundo estava fodido e no mesmo barco. A indústria da música e a imprensa musical. Muito mais importante do que metralhar os álbuns ruins, nosso objetivo passou a ser o de encontrar e ovacionar os bons, em um oceano cada vez maior de lançamentos. “Ouve esse disco novo dessa cantora desconhecida” ficou mais sedutor e importante do que “não ouve esse disco fraco da Marina Lima”.
Isso não significa, porém, que quando um grande artista (aquele, de tempos passados) se aventura em um novo álbum, ele está blindado por sua carreira pregressa ou seu legado pessoal. Um produto cultural é propriedade de quem o consome, e não de quem o cria. É um bem público, adicionado à grandíssima biblioteca universal de obras criadas pelo ser humano.
Com os milhões despejados na grana dos grandes astros do pop, deu-se o endeusamento do ser humano que fazia música e tinha sucesso. Em contraponto, foram surgindo os supercríticos, com espaço em grandes veículos, cheios de acidez em suas palavras (e em vários casos, amargura mesmo), mostrando ao mundo que aqueles “deuses” não eram intocáveis. Os criticados ficavam irados. “Crítico é um músico frustrado”, diziam. Novamente, saudável.
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Amá-lo ou odiá-lo é uma deliciosa prerrogativa de quem dedica seu tempo a consumi-lo. A crítica musical ainda está viva e é livre. Para o bem de João Perassolo, de Marina Lima e de todos nós, que amamos esse rolê.



