
Tarefa do dia: resenhar um novo EP, lançado após quase dez anos longe da prateleira de novidades, de uma das mais polarizadas bandas da história. Muita gente ama o U2, muita gente odeia. Dureza. O grupo irlandês lançou Days Of Ash, com seis músicas, garrado no ódio ao mundo político atual, assim como o eram quando vieram com Sunday Bloody Sunday, libelo sobre o assassinato de manifestantes da Irlanda do Norte por britânicos na cidade de Derri, em 1972.
Para começar, com a promessa de maior isenção possível ao passado de extremo sucesso, vale dizer que a banda que voltou é outra. Com a distância do tempo, é como se Bono e sua turma resolvessem se apequenar (enquanto projeto artístico, não como pessoas) para conquistar, talvez, um público que nem havia nascido quando começaram a fazer sucesso.
A personalidade do grupo foi transferida para o produtor do EP, o também irlandês e superexperiente Jacknife Lee. Days Of Ash parece um curriculum vitae do produtor, com músicas soando como as de vários outros artistas com quem ele já trabalhou. E isso é muito louco! A banda que influenciou tanta gente deu uma volta na pista e agora faz um álbum influenciada por outras, que começaram tanto tempo depois dela.
American Obituary, a música de abertura, soa como Green Day, R.E.M. e Weezer. The Tear Of Things, em seguida, como Radiohead e Blur. Song Of The Future, como Snow Patrol e The Killers. Todas já produzidas por Lee, formando um estranho Frankenstein em forma de EP que, dado o contexto de um projeto que não quer se reinventar, soa legal.

É como se Bono escrevesse as letras e dissesse: “Lee, dá seus pulos aí!”. Ou, por outro lado, como se avisasse: “faz a gente soar como as coisas que a molecada gosta”. E daí saiu uma colcha de retalhos em forma de pop-rock.
Para quem ama, é um U2 diferente, renovado, reenergizado pela situação atroz do mundo atual. Para quem odeia, Bono (cuja voz está diferente, muito bem trabalhada) pode estar tentando te conquistar.



