The Beatles em 1964 Os Beatles em sua primeira turnê nos EUA. Foto: Daily Mirror/Mirrorpix/Mirrorpix [via Getty Images]

Como os Beatles ajudaram a combater a segregação racial nos EUA

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Em 1964, no auge da Beatlemania, grupo que fazia sua primeira turnê americana avisava: “se separarem negros e brancos, não subimos ao palco”

“Nós nunca tocamos para plateias segregadas, e não vamos começar agora.” O toque estava sendo dado frequentemente por John Lennon, sempre que um jornalista (foram vários) perguntava sobre um dos shows da primeira turnê dos Beatles pelos Estados Unidos, em 1964. A apresentação aconteceria em setembro, em Jacksonville, no estado da Flórida. A tensão aumentava a cada dia, para todos os envolvidos. Todos os 32 mil ingressos para o show no estádio Gator Bowl estavam vendidos, e pelas leis vigentes no estado, a plateia precisava ser dividida: negros de um lado, brancos do outro.

O problema (pelo menos, para os organizadores) é que a banda, que chegaria em algumas semanas na cidade, já era, com apenas um álbum lançado (Please Please Me), a mais famosa do planeta, e bandeira de uma revolução cultural nos EUA, chamada de Beatlemania. Poucos meses após ter aparecido no programa de Ed Sullivan e protagonizado a maior audiência da história da TV no país, o grupo voltava à América para finalmente encarar sua primeira tour.

Os ingleses fariam 32 shows em 33 dias, todos lotados, entre agosto em setembro. No mundo da música pop, não havia força maior. E eles não paravam de avisar Jacksonville: se os promotores separassem negros de brancos, não subiriam ao palco.

Além do inédito e gigantesco sucesso que faziam, os quatro garotos de Liverpool tinham um baita aliado. O reverendo Martin Luther King Jr. O Prêmio Nobel da Paz estava promovendo passeatas por todos os Estados Unidos para pressionar o congresso a aprovar a nova Lei dos Direitos Civis, proibindo de vez a segregação racial. 1964 foi o ápice do movimento.

John Lennon
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Não sabemos qual a religião dos promotores do show de Jacksonville, mas certamente acenderam velas para tudo quanto é santo. E deu certo. Num lance de tremenda sorte, a luta de Luther King e tantos outros deu resultado, e a lei que proibia a segregação racial em todo o país passou a valer em julho daquele ano. Quando John, Paul, George e Ringo desembarcaram no país, o pessoal de Jacksonville estava aliviado. Agora, por lei nacional, o show aconteceria conforme os Beatles estavam exigindo. Sem separação racial.

A tensão porém, não foi em vão. A importância da luta pela igualdade racial não saiu mais da cabeça dos quatro integrantes da banda. Passaram a deixar claro que, ali, ninguém ficava em cima do muro. “Sem a música negra, não haveria Beatles”, disse Paul McCartney em Paul McCartney – A Biografia (Philip Norman), que, pouco tempo após a primeira tour estadunidense, escreveu Blackbird, um dos maiores sucessos do grupo, inspirado no que os quatro amigos testemunharam durante sua visita aos EUA.

Sobre a Lei dos Direitos Civis de 1964, Paul compôs o verso: “All your life / You were only waiting for this moment to arise” (“Em toda sua vida / Você estava apenas esperando por este momento”).

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.