Definitely Maybe Imagem: Reprodução

Como “Definitely Maybe” apresentou o Oasis para o mundo

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Lançado em 29 de agosto de 1994 pela Creation Records, disco de estreia do grupo de Manchester sacudiu a cena musical

Um álbum clássico, desses que ficam para a história, sempre está envolto em um contexto perfeito, uma única peça faltante em um grande quebra-cabeças artístico e social que, por sorte, sensibilidade ou inteligência, sacode o mundo. Definitely Maybe, do Oasis, lançado há exatos 31 anos, foi um desses tiros certeiros e, embora não seja o álbum mais bem-sucedido do grupo de Manchester — (What’s The Story) Morning Glory? vendeu bem mais e guarda vários de seus superhits —, o disco de estreia, de 1998 cumpriu seu papel: fazer com que todo mundo olhasse para aqueles caipiras marrentos.

Na segunda metade da década de 90, o clima na praia da música era diferente na América e no Reino Unido. Nos Estados Unidos, o grunge de Nirvana, Pearl Jam e Soundgarden imperava. Na Europa, o mercado da música estava entregue aos sons eletrônicos, moderninhos e descolados.

“Quem não andava de skate e não gostava de roupas rasgadas não tinha uma banda para gostar”, conta Vandré Caldas, produtor de inúmeros shows com bandas alternativas com a Superkaos Produções, ao Music Non Stop. “Quando eles apareceram, pegaram de jeito a molecada que sentia falta do rock’n’roll, tanto no som, mais melódico, quanto naquela atitude, resgatando as grandes rixas da música, como a que envolvia Beatles e Rolling Stones“. A primeira coisa que Liam e Noel Gallagher fizeram quando começaram a chamar a atenção da mídia foi eleger um inimigo mortal. No caso, a banda Blur, de Damon Albarn.

Preencher a lacuna sentida pela nova geração da classe trabalhadora do Reino Unido não aconteceu totalmente por acaso. O ambiente em que viviam partilhava das mesmas dores: o rock inglês estava desértico e todos os fãs daquele tipo de som precisavam encontrar um… Oasis. Noel Gallagher era roadie do Inspiral Carpets. Alan McGee, da Creation Records, o descobriu depois que ele levou seu grupo a Glasgow e implorou para tocar, de última hora, na abertura de um show na icônica King Tut’s Wah Wah Hut, em 1993. O xaveco deu certo. McGee estava na festa e ficou impressionado, convidando-os a entrar para a sua gravadora. Graças à característica cara de pau que os acompanha até hoje, a banda Rain (que logo mudaria seu nome para o Oasis) estava na mesma panela de Primal Scream, Super Fury Animals, My Bloody Valentine… Todos no casting do selo.

O Oasis começou a causar frisson já com os primeiros singles. Supersonic, Shakermaker e Live Forever foram subindo cada vez mais nas paradas de sucesso, e quando Definitely Maybe foi finalmente lançado, vendeu cem mil cópias em quatro dias. Febre, que chama? Pois é, para quatro fãs de Beatles (embora o som do primeiro disco seja muito mais influenciado pelos Stones), um sonho realizado.

A Inglaterra traduziu a marra dos Gallagher como identidade e coragem. No disco todo, não havia nada de loops, sintetizadores ou samples, como todo mundo estava fazendo na música pop, tentando surfar a onda eletrônica. Era rock’n’roll cru. Muita gente amou. Ciente do que estavam fazendo, Alan McGee teve uma ideia genial. Gastou a pouca grana que tinha para promover o disco em dois extremos: revistas de futebol e de música eletrônica. Passou longe de grandes periódicos, pois acrediava que o verdadeiro público do Oasis, da working class, estava nos pubs ou nas raves. Deu muito certo.

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.