Kraftwerk - capa do álbum Computer World

40 anos de Computer World: Artistas contam como o disco do Kraftwerk influenciou suas vidas

Por Jota Wagner

Lançado no dia 10 de maio de 1981, o álbum Computer World, do grupo alemão Kraftwerk, imprimiu ao grupo o título de pais da música eletrônica

Existem poucas unanimidades no mundo da música. Uma delas é a de que o grupo alemão Kraftwerk ocupa a realeza na história da música eletrônica. Os quatro rapazes de Dusseldorf criavam instrumentos para desenvolver timbres que até então… simplesmente não existiam. Em Computer World, oitavo disco da banda lançado em 1981, o grupo puxou para si todas as sardinhas existentes no iniciante mundo da música eletrônica. Do hip hop ao techno, tudo veio dos beats do Kraftwerk, o que confere ao grupo a alcunha de “mais influentes que os Beatles”, por diversos jornalistas musicais europeus.

Perguntamos a DJs de todo o Brasil. Como o disco Computer World influenciou sua vida e qual sua faixa predileta.  Confira.

Que tal ouvir o disco enquanto lê?

 

Maior que os Beatles? 13 provas da gigantesca importância do Kraftwerk para a música

 

Claudio Manoel

Home Computer

Claudio Manoel dj do pragatecno

foto: divulgação

O disco Computer World (1981), do Kraftwerk, já apontava sobre o impacto das tecnologias computacionais na vida. Onde essa máquina – o computador – iria costurar uma nova camada mundial, passando a ser um dos regentes da vida cultural e econômica da sociedade, inaugurando assim um Mundo dos Computadores.

“Business, numbers/ Money, people/Business, numbers/ Money, people/Computer world” – letra trazida na faixa título do disco, identifica que essa máquina é local de negócios bem como de “Crime, Travel, Communication, Entertainment”: ou o mundo mesmo, como já era, dentro da máquina.

O computador também seria um um instrumento musical, já que “Pressionando uma tecla especial/Toca uma pequena melodia”. O Kraftwerk entende o computador como, também, ferramenta de produção sensível, um instrumento de geração de arte. Mas é na música Home Computer que a banda traz uma perspectiva sobre a importância de dominarmos a programação como ferramenta poderosa individual, reforçado em 2012 por Rushkoff “Programe ou será programado”: “Eu programo meu computador de casa, Transmitindo-me para o futuro”. Além das letras com frases curtas e proféticas, o disco traz músicas de sons essencialmente sintéticos, pensados para o mundo da dance music. Aí vemos a associando a experimentação estética com elementos pops da música. Uma direção contrária às experiências anteriores dos sons orgânicos processados via máquinas pelos pesquisadores da Eletroacústica, como Karlheinz Stockhausen, lá na década de 1950, na universidade de Colônia (Alemanha).

Kraftwerk rompe com o discurso acadêmico e laboratorial na música experimental que vinha da Música Concreta e da Eletroacústica e aponta para as pistas de dança. Esse é o legado que vai influenciar toda uma geração da cultura da dance music e da música experimental e ponto de promover bases para novos gêneros musicais como a música Numbers, que trouxe o conceito do electro e fincou as bases do gênero.

Renato Cohen

Computer World 2

Renato Cohen

foto: divulgação

O meu primeiro contato com Kraftwerk foi com o album “Radio-Activity”, que na minha adolescência foi meio que um choque e uma estranheza um som tão diferente de tudo que eu já tinha ouvido. Quando eu conheci o “Computer World“ apesar de um pouco mais preparado me impressionou como tudo era muito mais sintético. Eu que gostava mais de rock na época e claro que minha preferida foi “Home Computer”, hoje em dia, minha favorita é “Computer World 2

Anderson Noise

Pocket Calculator

Anderson Noise

Anderson Noise – foto: divulgação

Minha Tia Aparecida, que na época trabalhava no Jumbo Eletro na sessão de discos de vinil e fitas cassetes,  colocou para eu ouvir logo na semana em que o disco tinha chegado no Brasil. Eu estava na casa do meu avô e antes mesmo da “Computerwelt” (nome original do lançamento na Alemanha) terminar de tocar inteira, eu disse a ela que queria levar o disco e pagaria em breve. Lembro que quando cheguei em casa para ouvir todo o álbum e a agulha chegou em “Taschenrechner” (Pocket Calculator) , eu me perdi com tantas vezes que ouvi sem parar. Mas foi com “It’s More Fun to Compute” que até hoje eu me pergunto como eles conseguiram fazer esta obra prima. Na verdade, o Kraftwerk foi e é pra mim e para várias pessoas da minha geração algo mais que revolucionário, não só pela forma como eles tratavam seus sintetizadores mas também como eles se apresentavam. Gratidão eterna a estes 4 alemães que mudaram tudo.

Tatá Aeroplano

Home Computer

Tata Aeroplano sentado no sofá

Tata Aeroplano – foto: divulgação

Computer World foi um dos discos que fez minha cabeça. Fiz muitas viagens e introspecções o escutando. Compus alguns melodias e escrevi letras inspirado nas canções. Um clássico que eu revisito sempre. Destaco no disco Home Computer, que é totalmente chapante. Meu sonho era encontrar timbres viajantes que estão nela. Com um pedal reverb delay e brinquedos sonos consegui inserir sons loucos nas bandas Chill Out Company e Luz de Caroline, que integrei no início dos anos 2000.

 

Eli Iwasa

Computer World e Numbers

DJ Eli Iwasa

Eli Iwasa – foto: Antonio Wolff / Divulgação

Acho que todo mundo que foi criança nos anos 80, vai se lembrar da “Hall of Mirrors” no comercial dos sapatos medonhos da Starsax.

Só fui realmente comprar discos e me aprofundar em seu trabalho muitos anos depois, já na adolescência, quando comecei a encorpar minha coleção de discos e CDs com bandas de synthpop, new romantic e post punk, muitas delas influenciadas diretamente pelo Kraftwerk.

É missão impossível escolher o álbum favorito deles, mas o Computer World traz músicas que me acompanham desde então. E apesar da estética rígida e fria dos robôs, eles tinham sim muito groove, entre característicos vocais com vocoder, as batidas marcadas de “Numbers” (e sua contagem em japonês!), ou as melodias de Computer Love, minhas favoritas do disco.

Muita gente achou o show morno (eu sempre falo que foi culpa daquele pavilhão gigante e sem vibe) quando eles vieram para o Sónar em São Paulo (2012), mas para mim, foi emocionante ouvir estas duas ao vivo.

Sempre pensamos em como os Rolling Stones ou o Michael Jackson são referências definitivas no mundo da música, mas o Kraftwerk também é. Do hip hop à música pop, e obviamente à música eletrônica e synthpop, de Afrika Bambada a Miley Cyrus e Coldplay, 40 anos depois de seu lançamento, o Computer World continua a inspirar e transformar a vida de muitos artistas, jovens produtores, e pequenas sonhadoras descobrindo o universo musical como fui um dia.

Raul Aguilera

Numbers

DJ Raul Aguilera

Raul Aguilera – foto: divulgação

O primeiro sinal de vida que tive desse disco, curiosamente, foi pelo anúncio de uma novela que ia estrear nessa época na Rede Globo. O anúncio dizia: “vem aí, BRILHANTE” e por baixo, aquele riff da virada inconfundível de “Home Computer”.

Aqueles sons sintéticos não eram nada parecidos com nenhum outro som que se ouvia nos grupos do começo dos anos 1980. Vínhamos da era disco, acostumados com efeitos em profusão nas tracks claramente dançantes mas aquelas batidas retas e repetitivas do álbum Computer World eram outros bichos.

Outra que me chocou pela sua estrutura não usual foi “Pocket Calculator” com sua estrutura limpa, minimal mas com uma batida que soaria mais própria naquele café em Mos Deff no primeiro Star Wars em que Han Solo entra e tem uma banda tocando ao fundo.

Porém o grande legado e minha predileta, a joia mais reluzente desse disco é mesmo “Numbers”. Sem melodia, sem tom definido, apenas uma saraivada rítmica com números contados de um a quatro numa voz fria entremeada de outras vozes robóticas, como se eternamente o grupo estivesse reiniciando a track, mas com uma sacada interessante: a contagem dos numero era feita em várias línguas diferentes. Uma verdadeira dica da tal globalização que veríamos materializada no planeta, anos depois. Viajando ainda nessa estrutura rítmica da, erm, música, dá para arriscar que o andamento delimita claramente a batida que interessa, o tal 4/4. Não a toa esse funk mutante foi depois copiado por Afrika Bambaata para criar outra pedra fundamental da eletrônica, Planet Rock. Cuja batida seria repetidamente copiada pelo miami bass. Cuja batida seria arduamente copiada pelo nascente funk carioca. Em questão de 15 anos o expresso trans europeu dos branquelas alemães saía de Dusseldorf e encostava em alguma estação da periferia do Rio de Janeiro.

 

 

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é editor chefe do Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.

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