Wonderwall Imagem: Reprodução

‘Wonderwall’: os segredos da música que conquistou a Copa do Mundo

Claudio Dirani
Por Claudio Dirani

Edição: Flávio Lerner


Claudio Dirani traz dez curiosidades sobre o hit do Oasis e seu poder de sedução que permanece após mais de três décadas

Depois de 104 partidas, polêmicas de sobra rondando a vice Argentina e o merecido título da Espanha, quem ainda surfa pelos efeitos midiáticos da Copa do Mundo é o single Wonderwall, do Oasis, adotado pela torcida da Inglaterra como “canção da vitória”, até sua queda na semifinal para o time de Lionel Messi.

Ainda assim, mesmo depois do apito final no Metlife Stadium, em Nova Jersey, a música composta por Noel Gallagher para o álbum (What’s the Story?) Morning Glory não parou de escalar as montanhas mais altas do pop. Na semana passada, por exemplo, Wonderwall retornou ao Top 30 da Billboard, chegando pela primeira vez ao Hot 100 desde o seu auge em 1996, quando atingiu o oitavo lugar entre as mais ouvidas nos Estados Unidos.

E a coleção de gols de placa do hit parece infinita, quando contabilizamos os resultados em plataformas de streaming. Em 15 de julho, a música se tornou a terceira mais executada no Spotify Global, atrás apenas do tema oficial do mundial, Dai-Dai (Shakira e Burna Boy), e do novo single de Ariana Grande, Hate That I Made You Love Me.

Com todo o interesse renovado pela canção, o Music Non Stop aderiu ao hype de uma forma diferente. Chegou a hora de conhecermos todos os segredos do single mais famoso da banda de Manchester.

10 fatos sobre Wonderwall que você ainda não sabia

Outro nome

A canção não se chamaria originalmente Wonderwall, mas Wishing Stone. Noel Gallagher revelou que a ideia apareceu depois de ganhar de uma fã uma “pedrinha mágica” que poderia “fazer os desejos dele se realizarem”. Isso aconteceu em 10 de dezembro de 1993, após o Oasis abrir um show do The Verve no The Cathouse, em Glasgow, Escócia, como foi revelado em junho de 1997 à revista Mojo.

Noel Gallagher recebeu a tal “pedra da sorte” como um aviso. Enquanto ele cozinhava uma melodia em seus pensamentos, se deparou com a trilha sonora de Wonderwall Music, de George Harrison, que incidentalmente se tornaria o primeiro álbum solo de um dos membros dos Beatles em novembro de 1968. Em cima da hora de gravar (What’s the Story?) Morning Glory, Noel decidiu jogar fora o título Wishing Stone e substituí-lo por Wonderwall.

“É isso… Agora tenho uma conexão com os Beatles”, brincou o compositor em entrevista à NME.

Compondo depois de quebrar o pau

Em meio às gravações de (What’s the Story?) Morning Glory, em maio de 1995, Noel e Liam Gallagher travaram uma batalha quase sangrenta no estúdio Rockfield, em Gales. O pau entre eles quebrou (literalmente, um bastão de cricket) quando o irmão mais velho se deparou com uma balada improvisada no local, que quase danificou uma de suas guitarras. Ao voltar para Londres, compôs a letra de Wonderwall em seu apartamento, situado ao número 83a da Albert Street, em Camden Town. A história foi reproduzida em 2020, à hoje extinta revista Q.

Gravando para ovelhas

Pode até parecer brincadeira, mas partes de Wonderwall foram gravadas sobre um muro (não assim tão maravilhoso), localizado no exterior dos estúdios Rockfield, em Gales. “Falei para o [produtor] Owen Morris que gostaria de gravar em um muro. E lá fora tinham muitas ovelhas me assistindo tocar. Só não sei quem ficou mais assustado: eu ou elas!”, relembrou Noel no especial de 25 anos de (What’s the Story?) Morning Glory.

Apesar de ousada, a ideia de registrar a canção ao relento não deu muito certo. Afinal, não foi possível controlar o curioso rebanho de ovelhas da vizinhança. Para não deixar o clima rústico escapar, a equipe técnica do Rockfield capturou alguns trechos daquela terça-feira, em 16 de maio de 1995, mixando tudo no comecinho do disco, bem antes da faixa Hello.

A garota da capa

Em 30 de outubro de 1995, Wonderwall foi selecionada como o terceiro single de (What’s the Story?) Morning Glory, recebendo uma arte caprichada de Brian Cannon. Já a foto da modelo escolhida para ilustrar a capa foi tirada por Michael Spencer Jones em Primrose Hill, um parque imenso, localizado ao norte de Londres, próximo aos estúdios Abbey Road.

Wonderwall

A capa do single de “Wonderwall”. Imagem: Reprodução

Os fãs mais apaixonados pensaram que a garota que aparece na moldura de um quadro na capa do single seria a então namorada de Noel Gallagher, Meg Matthews. A suspeita surgiu após o próprio Noel ter dito que a letra se referia a sua futura esposa (e seu primeiro divórcio).

O mito foi derrubado meses depois, quando o nome da modelo foi revelado: Anyta Heryet, que até hoje presta serviços à ex-gravadora do Oasis, a Creation Records. Ela foi escolhida de última hora, após Noel vetar uma foto do irmão Liam. “Isso aqui é uma canção de amor!”, esbravejou.

O verdadeiro significado de Wonderwall

Em 1995, quando questionado sobre a letra, Noel Gallagher escolheu uma resposta óbvia e rápida para satisfazer o repórter da Melody Maker: “É sobre minha namorada, Meg”, declarou.

Sete anos mais tarde — e já separado —, ele recontou a história à rede BBC: “O significado daquela música foi ‘roubado’ de mim pela mídia, que apenas aproveitou o embalo. Na verdade, como você diz à sua esposa que não é sobre ela, depois que ela leu a respeito?”, ponderou.

Ao desmentir a origem, o músico retificou a história: “É sobre uma amiga imaginária que chega para lhe salvar de si mesmo”.

Violoncelo?

Quem ouve Wonderwall pela primeira vez imagina que o emblemático violoncelo ouvido logo no início da música remete a algumas faixas dos Beatles, como Eleanor Rigby e I Am The Walrus. A pegadinha: o instrumento, na verdade, é um tipo de sintetizador criado em 1963 chamado Mellotron, que Paul McCartney, não por coincidência, toca na introdução de Strawberry Fields Forever.

Inspiração em Magritte

As conexões da faixa com os Beatles, aliás, são quase incontáveis. Uma delas está na própria capa do single. Segundo o designer Brian Cannon, a inspiração veio do pintor surrealista belga René Magritte — o mesmo criador da tela Le Jeu de Mourre, de 1966, que inspirou o logotipo da Apple Records, fundada pelo quarteto de Liverpool.

Curiosamente, Magritte foi homenageado nesta última Copa do Mundo no uniforme reserva da Bélgica.

Primeiro ou segundo lugar?

Esta curiosidade faz até o mais radical seguidor do Oasis coçar a cabeça: por que o single mais conhecido da banda parou na segunda posição, não atingindo a primeira colocação no Reino Unido? Bem, trata-se de uma meia verdade. A versão original do Oasis perdeu o título para um cover da balada Unchained Melody (lembra do filme Ghost?), dos atores Robson Green e Jerome Flynn, que na época atuavam na série Soldier Soldier, do canal ITV.

E o mito que Wonderwall nunca teria ficado em primeiro lugar? Agora você pode contar para seus amigos que a música realmente escalou até o topo (ainda que apenas na Escócia), mas em cover lounge de dezembro de 1995 da banda Mike Flowers Pop (ironicamente, da rival Liverpool!).

Ainda assim, a gravação original atingiu a primeira colocação na Austrália.

Amor e ódio

A relação do criador Noel com a criatura sempre oscilou entre amor e ódio. Em 2008, ele disse à revista UNCUT que odiava saber que a música era a mais famosa do Oasis. “Fico puto ao saber que não é uma rocker… Quando me falam que Wonderwall é sensacional, eu pergunto: você já ouviu Live Forever?”.

Outra voz

Todos sabem que Liam é o vocalista na gravação original incluída em (What’s the Story) Morning Glory. O que poucos sabem é que Wonderwall foi executada pela primeira vez em 24 de junho de 1995, em uma apresentação solo de Noel Gallagher para o Channel 4, registrada nos bastidores de Glastonbury.

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Claudio Dirani

Claudio D.Dirani é jornalista com mais de 25 anos de palcos e autor de MASTERS: Paul McCartney em discos e canções e Na Rota da BR-U2.