Djavan 2026 Djavan. Foto: Divulgação

“Tudo nos leva a uma só palavra: amor”, diz autor da biografia de Djavan

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner e Jota Wagner


Tiago Ramos e Mattos encarou o desafio de escrever sobre a vida de um dos mais reclusos gigantes da MPB

Como escrever a biografia de um dos artistas mais introspectivos e avessos aos holofotes, como Djavan? Tiago Ramos e Mattos sabe a resposta.

Doutor em Língua Portuguesa e autor de uma biografia de Silvio Santos, o escritor, jornalista e professor mergulhou na vida de um dos grandes nomes da MPB para entregar, antes tarde do que nunca, a história de um astro que celebra 50 anos de carreira. A biografia-reportagem Djavan: dizem que o amor atrai chegou às livrarias em 22 de agosto, pela Trend Editora.

No livro, Mattos como um garoto de Maceió se apresentou ao mundo com letras e arranjos sofisticadíssimos, construiu uma carreira sólida e hoje lota estádios, conquistando fãs de diferentes gerações.

Conversamos com o autor sobre a grande aventura de preencher uma lacuna histórica: mostrar a todos quem é o Djavan por trás das músicas e das letras — um ser humano que ele próprio nunca fez muita questão de elucidar.

Tiago Ramos e Mattos é o autor da biografia de Djavan

Tiago Ramos e Mattos. Foto: Divulgação

Jota Wagner: Qual biografia deu mais trabalho, a do Silvio Santos ou a do Djavan?

Tiago Ramos e Mattos: Acho que a do Djavan. Quando fiz a do Silvio, ele estava bem. Concluí a obra quando ele tinha 92 anos. Tudo começou com a tese de doutorado que defendi em 2020. Quando já estava com ela em mãos, antes mesmo de a banca analisá-la, levei uma cópia à casa dele. Um dia, meu telefone tocou e o Silvio falou: “Estou na página 235 e adorando”. Então resolvemos publicá-la. Ele me convidou para tomar um café, e eu levei alguns livros à sua casa.

Qual era sua relação com Djavan antes de decidir fazer uma biografia?

Eu admirava muito sua música. Quando ele lançou Luz (1984), meu pai deu esse disco para minha mãe. Eu tinha cinco anos. A gente ouvia muito lá em casa. Foi uma forma de meu pai dizer o quanto nos amava. A música dele ficou muito presente no meu imaginário.

Há quatro anos, entrei em um relacionamento. Nós ouvíamos Djavan em casa. Eu cantarolava suas músicas no ouvido dela enquanto ela dormia. “É como se eu estivesse sonhando”, ela dizia. Virou a nossa trilha sonora. Passamos a ir a vários shows. Foi quando pensei: preciso escrever alguma coisa sobre o Djavan para ela.

Escola onde Djvan estudou

A escola onde Djavan estudou, em Maceió. Foto: Tiago Ramos e Mattos

Eu já tinha escrito um artigo sobre Caetano Veloso, publicado em uma revista italiana. Também escrevi sobre Gil e Rita Lee, em textos publicados aqui. Pensei em escrever um artigo, mas a pesquisa foi se avolumando. E ele não tinha uma biografia, o que é algo até pecaminoso. Então decidimos publicar esse livro.

Ele ficou sabendo que você estava fazendo uma biografia desde o começo? Qual foi a contribuição dele para o livro?

A maior contribuição dele foi não ter proibido seus familiares de falar comigo. Quando conversei com eles, o Djavan estava em Maceió, em Milagres. Fui até lá, à Praia do Toque, onde ele tem uma casa. Mas seus parentes avisaram que ele estava com os netos, e eu não quis atrapalhar.

Ele é um cara realmente introspectivo…

Sim, meio tímido. Mas a família preencheu as lacunas que ficaram no meu texto. Então ele sabia do livro, evidentemente, porque a família deve ter contado. A editora entrou em contato com ele, mas ele não participou diretamente, não revisou e acho que nem leu ainda.

O que mais te surpreendeu na história do Djavan durante suas pesquisas?

Acho que foi a relação com os fãs maceioenses. Como ele estruturou a carreira no eixo Rio–São Paulo, surpreendeu-me que, em Maceió, ele não tenha uma resposta tão grande assim das pessoas. Eles admiram com mais sinceridade o general e marechal Deodoro da Fonseca, que foi maceioense, do que o próprio Djavan.

Nem no museu de lá se encontra alguma coisa, alguma referência. Isso me causou estranheza. O disco D, ao vivo, foi gravado em Maceió, para uma plateia lotada. Mas eles não têm uma relação de deslumbramento total. É difícil entender. Os próprios parentes têm uma relação de muito respeito, mas sem encantamento. A irmã Djanira, por exemplo, fala: “Eu não sou irmã do Djavan. Ele é que é meu irmão. Sou mais velha”. Tudo isso a gente vai relatando no livro.

Você acha que esse jeito dele, avesso aos holofotes, prejudicou seu posicionamento como “gigante da MPB”?

Acho que só melhorou. Criou um estigma. Não interferiu porque a música dele tem muita qualidade. Seu discurso é qualificadíssimo, sua estrutura lexical. O livro é construído também por enunciados do Djavan, retirados de jornais e veículos de imprensa. Ele tem um discurso muito rico e apurado. Sem falar na melodia, nos acordes sofisticadíssimos e em tudo o mais.

Se você for a um karaokê aqui em Santa Cecília [bairro de São Paulo], vai ouvir Djavan. Em qualquer bar de música ao vivo também. E até no TikTok. A molecada ouve muito o som dele.

Na visão de um doutor em Língua Portuguesa, qual é a raiz da erudição que Djavan demonstra em suas letras?

Embora tenha estudado no Moreira e Silva, um colégio de ensino médio em Maceió, ele sempre gostou muito de poesia. Leu pessoas como Augusto de Campos e Adélia Prado, de quem é fã. Gostou de poesia boa, como a dos irmãos concretistas aqui de São Paulo.

Infiro que ele também deve ter lido Manuel Bandeira, porque tem músicas como Sevilhando, em que cria esse neologismo, muito parecido com o que Bandeira fez com o verbo “teadorar”, por exemplo.

Suas pesquisas para o livro demandaram uma volta a um período em que não havia internet. Como foi o processo de escavação de tantos dados sobre Djavan?

Fui pegando um pouco em cada lugar. Em bibliotecas como as da PUC e da USP, fui fazendo garimpo em jornais. Consegui até recortes de amigos que tinham alguma coisa. Comprei revistas na internet, como uma edição da Veja em que ele saiu, em 1982. Busquei em acervos de jornais como Jornal do Brasil, O Globo, O Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo. A pesquisa durou uns três anos. Conseguimos reunir cerca de 200 enunciados dele.

Hoje, Djavan é uma unanimidade entre a crítica. Sempre foi assim?

Não, ele teve problemas com a crítica. Muitos. Quando foi aos Estados Unidos gravar Luz, disseram que ele não precisava vender a alma para o Tio Sam, que dava para fazer tudo aqui. Mas ele foi lá para absorver tudo e produzir seus próprios discos a partir de Lilás. Há uma história que nem coloquei no livro, mas de que me lembro bem. Um jornalista do Jornal do Brasil disse que ele era “uma cópia mal-ajambrada do Gilberto Gil”.

No começo da carreira, diziam que a música dele era complicada, de difícil entendimento, e que ele precisava mudar. Mas ele se recusou a fazer essas mudanças. Ele veio a descobrir por que a música dele era complicada na visão das pessoas quando foi pela primeira vez à África. Ali, ouviu a música africana e falou: “Meu Deus, eu entendi por que minha música é assim”.

capa da biografia de Djavan

Capa de “Djavan: dizem que o amor atrai”. Imagem: Divulgação

Quando essa viagem aconteceu?

Mais ou menos em 1981. Ele foi com Chico Buarque, Marieta Severo e outros artistas.

Já em seu primeiro disco, a gravadora deu pitacos no repertório, cortando várias músicas, não é?

Sim. Ele levou cerca de 60 músicas para a primeira gravação, e foram escolhidas 12. Todas eram sambas. Ele queria mostrar outras coisas, mas aceitou porque era o primeiro disco. O mais interessante é que essas outras 44, que ficaram de fora, se perderam. Ninguém sabe onde foram parar. Mas Djavan disse que as reconheceria se as ouvisse.

Ele também foi censurado pelo DOPS, durante a Ditadura Militar, ainda no governo Geisel. Havia uma canção sobre letramento racial, que ele adquiriu com a mãe, Dona Virgínia. Isso era para estar no primeiro disco.

Pessoalmente, como você saiu desse processo?

Enriquecido, por ter tido contato com um ser humano muito talentoso e multifacetado. Porque ele não é só um músico brilhante, genial. Também é pai, filho, irmão, tio… Essa questão mais familiar, que circunscreve a vida do Djavan, é muito importante na formação dele. Isso, de alguma forma, enriquece a gente.

Tudo nos leva a uma só palavra: amor. Tem muito amor naquilo que ele faz e nas relações dele com a família. Isso me fez aprender a ser mais amoroso. Também ampliei meu vocabulário, meu discurso lexical.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.