Todo mundo NU, conheça o eletrônico barroco do Naked Universe

Fabiano Alcântara
Por Fabiano Alcântara
Nu em foto de Pedro Hurpia

Nu em foto de Pedro Hurpia

Cantando em português, inglês, espanhol e francês, Ligiana Costa é a resposta brasileira às cantoras e compositoras de vanguarda que flertam com o pop, mas nunca deixam de ser suficientemente esquisitas para definirmos o que fazem como arte. Estamos falando de sentimento, honestidade, talento e, sobretudo, de verdade.

A música do NU (Naked Universe), projeto de Ligiana e do produtor musical e compositor Edson Secco viaja por status nômade que vai da poesia visceral ao erótico, do político ao caótico, se funda em uma arte feminista, indígena, latina, surreal, cinematográfica, popular e brasileira.

Veja clipe gravado na Bahia num encontro inédito com alabês de um candomblé de 300 anos:

Ligiana tem especialização em canto barroco na Holanda, tem mestrado e doutorado em ópera barroca e agora faz pós doc sobre um tratado anônimo barroco. “Acho que meu modo de compor tem reflexos deste meu mergulho. O NU acabou sendo um encontro muito barroco, porque Edson pensa o som e o ritmo de forma muito cinematográfica e o cinema, como bom filho da ópera, pode ser muito barroco”, argumenta.

As paradas que eles andam curtindo e indicam revelam bastante também sobre o tipo de som que perseguem. “Eu particularmente ando muito curiosa e impressionada com a série de mulheres e bandas com mulheres que compõem, cantam e ainda dirigem e montam seus clipes. M.I.A., FKA twigs, Grimes, Die Antwoord”, elenca Ligiana.

“Gosto deste movimento de pessoas do som pensando também a imagem e da autonomia e força feminina, lembrando que M.I.A. e FKA twigs tem também discursos políticos e feministas fortes, isso me interessa. No Brasil, eu gosto da força do Aláfia, do Rico Dalasam, da Karina Buhr”, dá a fita Ligiana.

“Estou numa fase (já tem um tempo, na verdade) que, quando conheço um novo som que me toca, fico meio obcecado com ele por um período. Isso aconteceu com a FKA Twigs especialmente quando lançou o MELL155X, Die Antwoord e alguns de seus clipes incríveis, Vök, Kammerflimmer Kollektief, Bonobo”, afirma Edson.

Para baixar de graça e acessar os links das plataformas digitais: Nakeduniverse.net

Pedimos pra Ligiana explicar melhor esse negócio de juntar eletrônico e barroco. “Usamos a ideia de eletrônico barroco porque de certa maneira nos apropriamos de uma estética barroca, num sentido mais amplo e não literal. A tensão dramática, a exacerbação de afetos opostos, o claro e o escuro, os fogos de artifício e o que os italianos chamavam de ‘meraviglia’, essa capacidade da arte de surpreender. Acho que nossa música tem muito desses elementos, pelo menos tentamos que tenha”, argumenta.

“Outra coisa que é uma das sentenças do primeiro barroco é ‘a palavra é senhora da melodia’, isso foi dito pelo irmão de Claudio Monteverdi para descrever a relação dele com a poesia, de como ele compunha a partir das palavras, fazendo com que elas fossem ressaltadas pela música e não o contrário. A poesia é quem comanda”, resume.

Ligiana Costa e Edson Secco em NY

Ligiana Costa e Edson Secco em NY

Nós perguntamos também se Ligiana já teve de passar por algum tipo de situação que acredita não ocorrer com músicos homens? “Olha, essa resposta no dia de hoje, um dia depois de um golpe sexista a uma presidenta é meio forte. Eu acho que o mundo ainda é extremamente machista e o Brasil, com sua mania de grandeza, está entre os primeiros neste ranking, infelizmente. Do ponto de vista do mercado musical, em especial na MPB, eu sinto muito que o clichê da cantora, lânguida, de vestido longo na frente dos músicos em posição de solista-semi-diva-objeto é ainda um super lugar comum que na realidade é super sexista e zero empoderador”, dá a real.

“Eu mesma sinto ter embarcado neste lugar num primeiro momento de minha carreira, que é um lugar conformista, da cantora charmosa, objeto de algum desejo. O NU, no meu caso, é uma ruptura total com este padrão. Somos dois criadores, duas criaturas com pesos iguais, isso me interessa”, afirma.

Recém-chegados de uma turnê em Nova York, primeiro rolê internacional da dupla, eles falaram da recepção na Grande Maçã e como que sentiram a vanguarda da cidade mais cosmopolita do mundo.  “NY tem um trânsito enorme de diferentes culturas. Lá você cruza com um pouco de cada canto do mundo, a miscigenação sonora, a vanguarda, e incrível, o tosco, e péssimo, tudo as vezes num mesmo quarteirão. É muito sedutor”, conta Edson.

“Acho que todas as cidades que reúnem pessoas de fora que imigram para poderem criar com mais oportunidades e fazer encontros (como as grandes metrópoles) são cidades de efervescência musical. Mas NY tem mesmo uma pitada especial. A cultura negra dos bairros como Bronx e Brooklyn (onde ficamos e inclusive gravamos dois clipes que em breve sairão) é muito forte e resistente, de fato é parte do dia a dia das pessoas e em constante criação e transformação. Fora isso, conhecemos e tocamos em salas que acolhem sons muito variados, sem medo de ousar, como a incrível National Sawdust”, completa Ligiana.

Pode chamar de CocoRosie brasileiro, mas como dizia o encarte de um vinil antigo de Caetano Veloso: “…mas as polcas não tiveram coragem de ir tão fundo”. A citação, que faz menção à origem europeia do choro, tem um paralelo com a nova vanguarda. No fim, a antropofagia ainda nos une.

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