Foto: ReproduçãoTinariwen no Brasil: por que ouvir o grupo africano é um privilégio
Edição: Flávio Lerner
Banda que conquistou de Robert Plant a Thom Yorke começa hoje (20) sua turnê brasileira; Rio, Franca, São Paulo e Olinda estão no roteiro
Antes de conquistar os grandes palcos internacionais, o som do Tinariwen — que retorna ao Brasil em setembro para uma série de apresentações no Rio de Janeiro, Franca, São Paulo e Olinda — já circulava pelo Saara em fitas cassete copiadas inúmeras vezes e compartilhadas entre comunidades tuaregues (povo berbere de pastores seminômades e comerciantes que habita o Deserto do Saara).
Eram gravações que carregavam uma história de exílio, resistência e pertencimento, mas também revelavam uma sonoridade impossível de confundir e que nasce do silêncio imersivo do deserto — ritmos circulares que conduzem o ouvinte a um estado hipnótico e vozes que carregam séculos de memória.
Ouvir a banda africana é ter a sensação de que o deserto deixa de ser apenas uma paisagem e passa a existir como som. Guitarras repetitivas criam movimento contínuo, como o vento passando pelas dunas, enquanto os espaços entre as notas carregam a imensidão de uma paisagem onde o horizonte parece não ter fim. É uma música profundamente sensorial, que não apenas fala sobre o Saara, como faz imaginar sua presença.
A história do Tinariwen parece saída de um roteiro de cinema, no qual os próprios personagens criam a trilha sonora. A música tem uma atmosfera futurista. A mistura de tradição ancestral, psicodelia e rock faz o ouvinte se imaginar dentro de um filme de ficção científica passado em outro planeta. Mas tudo ali é real: turbantes, tecidos, símbolos e a presença dos artistas no palco não são uma estética montada para o espetáculo; são a expressão de uma cultura tuaregue que já existia muito antes de chegar aos grandes festivais.

Formado por músicos tuaregues do norte do Mali, o grupo inaugurou uma das sonoridades mais originais da música contemporânea ao unir tradição a referências como Jimi Hendrix, Bob Marley, Dire Straits e Ali Farka Touré. Mas em vez de reproduzir influências, transformaram tudo a partir do próprio olhar, criando um som que pertence ao deserto e, ao mesmo tempo, aponta para o futuro.
Tudo começa com Ibrahim Ag Alhabib, um dos fundadores, cuja trajetória pessoal reúne muitos dos elementos que o Tinariwen transformaria em canção. Ibrahim tinha apenas quatro anos quando testemunhou a execução do pai durante a repressão à revolta tuaregue de 1963, no Mali. A família deixou o país e passou a viver entre campos de refugiados na Argélia e outros territórios do norte da África.
Ainda adolescente, o artista construiu sua primeira guitarra usando uma lata de óleo, um pedaço de madeira e cabos de freio de bicicleta, e esse foi o ponto de partida de uma carreira que ajudaria a colocar a música tuaregue diante do mundo.
No fim dos anos 1970, Ibrahim se juntou a outros jovens tuaregues exilados na Argélia, e depois na Líbia, onde muitos passaram por treinamentos militares ligados ao regime de Muammar Kadafi. Entre experiências políticas, deslocamentos e encontros musicais, começaram a gravar suas primeiras canções em fitas cassete.
Essas gravações circulavam de comunidade em comunidade pelo Saara, longe dos grandes meios de comunicação, criando uma rede de ouvintes muito antes do reconhecimento internacional. Copiadas manualmente e compartilhadas entre famílias e comunidades tuaregues, as fitas se tornaram uma forma de preservar uma identidade cultural que enfrentava fronteiras impostas e instabilidade política.
A música do Tinariwen está profundamente ligada ao conceito de assouf, uma palavra em tamasheq, a língua do povo tuaregue, sem tradução direta, que reúne sentimentos como saudade, solidão e a dor de estar distante da própria terra. Presente nas letras, o assouf está na própria construção sonora da banda e nessa sensação de movimento constante entre memória e ausência.

No Ocidente, o estilo criado pelo grupo ficou conhecido como desert blues, embora suas raízes estejam ligadas ao movimento Ishumar. O termo deriva da palavra francesa “chômeur”, “desempregado”, e passou a identificar uma geração de jovens tuaregues marcada pelo exílio, pelo deslocamento e pela busca por novas formas de expressão.
A projeção internacional começou no início dos anos 2000, quando passaram a circular fora da África e ganharam destaque no Festival au Désert, realizado em Essakane, no Mali. O evento colocou artistas tuaregues diante de uma audiência internacional e ajudou a revelar uma cena musical que durante décadas permaneceu distante dos grandes mercados.
A partir dali, o Tinariwen conquistou admiradores e colaboradores como Robert Plant, Thom Yorke, Carlos Santana, Flea, Warren Ellis e Henry Rollins. Em 2011, lançou Tassili, álbum gravado de forma acústica no Parque Nacional Tassili n’Ajjer, na Argélia, que recebeu no ano seguinte o Grammy de “Melhor Álbum de World Music”. O disco marcou um retorno às raízes do grupo e foi registrado em uma paisagem diretamente ligada à música que eles criaram.
Sua discografia acompanha as transformações do próprio caminho. The Radio Tisdas Sessions (2001) apresentou-os internacionalmente, enquanto Amassakoul (2004) consolidou sua presença fora da África. Aman Iman: Water Is Life (2007) ampliou sua projeção com uma sonoridade mais elétrica, e Emmaar (2014) foi gravado na Califórnia, depois que o conflito no norte do Mali impediu os músicos de retornar para casa. Já Amatssou (2023) aproximou a música tuaregue de elementos do country e do bluegrass.
A influência do Tinariwen ultrapassou sua própria obra e pode ser ouvida em uma nova geração de músicos tuaregues, como Mdou Moctar, Bombino, Tamikrest e Imarhan, que hoje levam mundo afora diferentes interpretações dessa tradição.
Mesmo depois de chegar aos grandes palcos, a música continua carregando a mesma sensação. Em um planeta tão tomado por imagens construídas, Inteligência Artificial, produção excessiva e experiências pensadas para redes sociais, assistir ao vivo a algo tão real e genuíno como Tinariwen é um grande privilégio.
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As datas do Tinariwen no Brasil
20/09
Rio de Janeiro/RJ
Circo Voador
23/09
Franca/SP
Sesc Franca
24 e 25/09
São Paulo/SP
Sesc Pompeia
26/09
Olinda/PE
Praça do Carmo



