Susi in Transe: conheça a história do clube que não fechava nunca no centro de SP, o último porão underground da era pré-internet

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Por Laerte Castagna

 Num porão escuro de um prédio decrépito no centro da cidade, a noite paulistana teve por alguns anos, no início dos anos 2000, seu clube mais underground. E certamente o último antes da era dos smartphones, dos stories, do fim da privacidade.

A pista do Susi era super bem frequentada, e a cabine então… aqui o rei Marky tocando um set especial de house music. Foto: Claudia Assef

Começo dos anos 2000, o século 21 chegava e, apesar das previsões, sem o tal bug do milênio (uma suposta falha nos computadores de grandes companhias que causaria caos nos sistemas) nem o fim do mundo. Após passar os anos 90 restrita a um círculo pequeno de admiradores, a música eletrônica finalmente tinha alcançado o grande público. O drum’n’bass, que já vinha crescendo desde o final dos anos 90, nesse início dos 2000 viraria gigante, com Marky fazendo até remix da música de abertura do Fantástico. O techno, então, invadindo as raves, com Renato Cohen dando um Pontapé certeiro, colocando o país em evidência no mundo todo. O trance definitivamente atingindo o mainstream, com festivais para dezenas de milhares de pessoas fazendo o psytrance atingir um público que até então gostava de sertanejo e micareta.

Mas, na maior cidade do país, um pequeno grupo de pessoas não está interessada nesse cenário e quer mesmo é viver fora dos padrões e modismos, como sempre foi para aqueles que frequentam o chamado underground, sempre tão falado mas não tão simples de se definir e encontrar pra valer. Para esse povo, isso significa liberdade. Liberdade pra se enfurnar numa pista de dança escura, quente e apertada, com a cabeça cheia de substâncias e com muito tesão pelo agora. Apesar de haver festas e clubes que atraíam essa gente, encontrar um clube com o verdadeiro espírito underground não era fácil. O buraco era mais embaixo.

Uma boa noite no Susi: pista (minúscula) e lotada de amigos. Foto Gunther Ishiyama

Música Eletrônica no centrão de São Paulo

Os irmãos Joy, Ademir e Val, ou Ruth e Raquel, como foram apelidados na época, eram funcionários do mítico Sra Krawitz, considerado o primeiro local onde se tocava exclusivamente música eletrônica em São Paulo. Eram tipo faz-tudo; segurança, faxina, portaria, bar, os tais “pau-pra-toda-obra”, segundo Nenê Krawitz, então promoter da casa. Após o fechamento do Krawitz, passaram um período vendendo cachorro-quente na porta do Samantha Santa, casa que funcionou por seis meses no local onde depois funcionaria A Loca. Aliás, os negócios com comida sempre os acompanharam durante todos os empregos e empreendimentos.

É fervo no underground que ces querem? Toma! Foto: Claudia Assef.

Os irmãos, que já haviam trabalhado no Espaço Retrô e na própria A Loca, durante esse tempo todo só tinham uma ideia na cabeça: abrir seu próprio negócio, uma casa noturna alternativa de música eletrônica. E isso se tornou realidade quando, com o dinheiro dos lanches, conseguiram alugar um imóvel e abrir uma distribuidora de bebidas na rua Vitória, bem no centro nervoso da Boca do Lixo. Nenê conta que, quando foi até lá, se deparou com os dois reformando o local, literalmente com a mão na massa. Estavam quebrando paredes, fazendo banheiros, isolamento acústico, toda obra foi realizada por eles.

A casa ainda não tinha nome e pediram a Nenê uma sugestão. “Nos anos 80, andando pela Consolação e arredores, sempre via uma pichação que me intrigava, não sabia se era nome de uma banda ou sei lá o que, mas aquela frase me marcou, tinha algum coisa muito louca nela: Susi in Transe”. E assim foi batizado o clube. Nenê dividia com Alex Caetano a direção artística e também comandavam a noite de música eletrônica Mistura Fina, De House a Lenha, aos sábados. Chamaram então, outros promoters e DJs para dar mais diversidade à casa e trazer diferentes públicos ao local. Logo estavam como residentes  Yellow P fazendo a noite de dub, Marnel tomando conta da de drum’n’bass, Oscar Bueno com uma festa de house e, para o after, foi chamado Julião.

Nenê, diretor artístico do Susi, ao lado do jornalista Ivi Brasil. Foto: Gunther Ishiyama

O local era um porão escuro sem nenhuma decoração, era preciso dar cor ao ambiente para dar uma descontraída e quebrar a dureza do local. Foram até a 25 de março,  compraram dezenas de bonecas Susi genéricas e as penduraram no teto. Pronto, estava criado um dos interiores de clube mais bem-humorados e lembrado por dez entre dez pessoas que já estiveram lá. Quem estava lá desde a primeira noite era o barman Lucciano Salomão que ajudou a montar o bar, onde foi introduzida no cardápio uma bebida que mais tarde seria popularizada nas baladas e festas de rua, uma das prediletas da casa, a Catuaba Selvagem.

O promoter Alex Caetano, criador da estética trash divertida do Susi ao lado de Nenê. Foto: Luiz Costa

“Saía mais de uma caixa por dia, principalmente no after do Julião”, conta. “Foi ideia do Nenê e por muito tempo a gente bebia isso, pois era divertido o grau que dava”, lembra Alex Caetano. “Com o tempo, todos queriam e depois passou a ser vendida em outros clubes”, ele diz.

música eletrônica

O Susi ficou conhecido por suas noites de techno e house intermináveis, mas também tinha shows. foto: Miguel Salvatore

No início, a frequência era basicamente do pessoal que ía nos clubes Sra. Krawitz e Samantha Santa, travestis e público GLS, termo usado no lugar de LGBTQIA+ na época, acrescido de novos clubbers de uma cena em franca expansão. Logo outros seres da noite (e madrugada principalmente) começaram a dar as caras e o local se tornou o lar de gente que gostava da noite, gostava de música eletrônica, mas que amava mesmo a cultura underground e se jogar pra valer. Figuras carimbadas da cena batiam ponto no local para horas de imersão no que havia de mais subversivo em forma de house, techno, dub e db. A casa era movida pela energia desses seres incansáveis e o pico logo se transformou em ponto de encontro de coletivos com veia anarquista.

Kaka Trash era uma das celebridades clubbers que frequentavam o Susi, com ele, Renata Fasanella. Foto Gunther Ishiyama

Todas as vertentes de música eletrônica em uma semana interminável

O primeiro a chegar, e já com o dois pés na porta, foi o coletivo Dirruba, junto com o DJ Julião, para criar o afterhours mais insano de SP. A festa começava às seis da manhã de sábado, atravessava o dia todo, para acabar às seis ou sete da noite. E, como ninguém dormia, o nome só podia ser Insomnia. Era a maior concentração de gente ensandecida por metro cúbico espremido da história clubber. E com uma grande mistura de pessoas, das mais diversas classes e orientações, embora a grande maioria fosse de desorientados mesmo. Pelo Insomnia passaram dezenas, senão centenas de DJs de todo o país e do exterior em maratonas épicas embaladas por techno, house, electro, breakbeats e o melhor da música eletrônica underground. E movida a muita catuaba, vodca, cerveja e outras substâncias não tão lícitas, que eram consumidas por um povo fervido e que se jogava como se não houvesse amanhã. Bem, na verdade já era amanhã mesmo.

Julião, o DJ que não dorme, começou a fazer festas no Susi, o after Insomnia, que tinha edições às quintas e sábados. Foto Gunther Ishiyama

Os flyers do Insomnia eram arte pura, desenhados pelo artista Carcarah

Além dos desenhos de Carcarah, os flyers do Susi continham mensagens, como este recado para George Bush

“O Susi virou uma época a minha segunda casa, eu fazia parte do grupo dos Dirruba então na festas Insomnia e Creshe a gente ia em peso. Era muito divertido, lembro muito dos sets do Julião, Mara e Enrico regados a muita catuaba com gelo. Pirava nos flyers que o Carcarah desenhava pro Insomnia, um mais foda que o outro, acho que foi assim e nos flyers do próprio Dirruba que ele começou a desenvolver seu talento na ilustração e pintura”, relembra a diretora de filmes Roberta Cunha, que batia cartão no porão da rua Vitória.

O mesmo time de DJs fazia um outro after, às quintas-feiras. Talvez o primeiro afterhours mundial de quinta para sexta, diga-se de passagem, pois ele começava às 5h da manhã da quinta, logo após a festa Ambiance, das jornalistas e DJs Claudia Assef e Bruna Monteiro, uma noite que atraia, além do público de praxe, muitos jornalistas e artistas da cidade. Numa dessas noites, assim como quem não quer nada, a alemã Ellen Allien chegou para tocar, para deleite geral da nação. Também pela Ambiance passaram nomes de peso nacionais, como Marky, Mau Mau, Renato Cohen, Mara Bruiser, Andrea Gram, Scandurra aka Benzina, entre muitos outros!

“Na festa de um ano da Ambiance o convidado foi o Edgar Scandurra com seu projeto Benzina e ele tocou guitarra na pista, no meio do povo!”, conta Bruna Monteiro. “Lembro que após a festa ele disse que desde o Hell’s ele não ía numa festa tão alegre e espontânea”, ela se diverte e completa: “O Susi era minha casa, eu não saía de lá. Amava aquele lugar, os donos e as pessoas que encontrava por lá. Era o meu inferninho particular, fui feliz pra caralho ali com um monte de gente da hora!”

A alemã Ellen Allien fez um set histórico no Susi in Transe, na festa Ambiance, em 2003. Foto Gunther Ishiyama

 

As jornalistas e DJs Claudia Assef e Bruna Monteiro, da noite Ambiance, com a mascote da casa. Foto Acervo Pessoal

Um dos coletivos que estavam por lá, o Barulho.org não chegou a ter noite fixa, apenas algumas festas esporádicas, mas foi através dele que veio uma das festas mais bombadas da casa, a Suzi in Dub, com Yellow P e MC Zulu. De início ocorria às quintas, mas, com a boa resposta do público, passou para sexta-feira, onde o peso dos subgraves e o clima liberated se incorporaram ao porão instantaneamente. Não existia uma festa de dub/reggae na cidade naquela época, então a galera abraçou com tudo a empreitada. “Nós já fazíamos o Dubversão esporadicamente, mas ter uma noite fixa foi muito importante para nós e pra toda a cena”, diz Fabio Murakami, o Yellow P. Na vitrola, viraram discos gente como Ganjaman, Soul Slinger, Nuts, Dj Tudo, Bid e DJ Paulão. Uma vez por mês havia apresentações da banda Rockers Control junto com artistas como Black Alien, Simone Sou, Bruno Buarque, Fidel Nadal entre outros.

Olha a finesse deste line-up: sim, teve Intalex no Susi da rua Vitória

O drum’n’bass, que teve seu auge no país na virada dos anos 2000, ainda não tinha dado as caras no local. Marnel morava apenas a duas quadras do clube e um dia seu primo disse, “Abriram um inferninho ali na rua Vitória”. Ele foi até lá, conversou com o Ademir e na hora ficou decidido que ele cuidaria das noites de domingo. Fez um flyer xerocado com toda a programação do mês e foram juntos distribuir na Parada da Paz, que ocorria na cidade no final de semana. Bingo! Na primeira noite já tiveram casa cheia e foi assim toda noite durante os dois anos em que durou o clube. “Quem não tinha grana pra frequentar a noite do Marky no Lov.e, colava na nossa que tinha a mesma qualidade de artistas, inclusive o Marky foi grande parceiro e sempre cedeu atrações pra nós”, lembra Marnel.

Astros internacionais do Drum’n’bass

Tocaram no The Bass todos os principais DJs do país, grandes astros gringos e mais uma multidão de novos talentos. Tudo acompanhado de muito perto pela galera que literalmente colava na grade (que não existia). “A cabine era dentro da pista, então fervia mesmo, as pessoas vinham pra cima da gente gritando, rewind! rewind! Era uma coisa muito louca, o porãozinho fervia!”, conta Marnel. A vibe ali realmente era única e impressionava todo mundo. “Tivemos noites inesquecíveis ali, com gente pra fora do lugar querendo entrar, com  Marcus Intalex, Bryan Gee, Cleveland Watkins, fora o Carnaval, que foi absurdo. O Bryan Gee fez uma noite histórica ali e ficou passado com o lugar, o Intalex também, literalmente pirou!”, completa Marnel.

Um dos personagens mais interessantes da noite paulistana também nasceu no Susi, o carismático Jimmy The Dancer. “Ele era o Sorriso, cuidava da chapelaria, faxina e que mais aparecesse pra fazer”, diz Yellow P sobre o cara que vira e mexe largava o trampo pra se jogar na pista e dançar com maestria, o que lhe valeu essa alcunha. “Com o tempo ele passou a ajudar carregando os equipos e nos acompanhar nas festas que fazíamos com o Dubversão pela cidade. Hoje ele é nosso staff fixo e dança também pro Bixiga 70”, completa.

Pista bombada de uma das festas de drum’n’bass do Susi. foto: Miguel Salvatore

Outra coisa bem legal era a mistura de público, que já não ocorria em outros clubes na época, com sua noite já bastante segmentada. “Era muito interessante essa transversalidade que havia lá”, diz Amadeu Zoe do barulho.org. “O pessoal do dub costumava emendar pro Insomnia e também era comum encontrar quem curtia eletrônico na pista do dub”, completa. Marnel concorda: “Eu mesmo, vira e mexe, colava na noite de reggae ou então passava à tarde no Insomnia”.

É importante lembrar que o centro da cidade ainda era um lugar sem vida noturna, e antes das ocupações culturais e locais alternativos que temos hoje. E, se ainda temos muitos problemas hoje, naquela época a região era uma verdadeira terra de ninguém.

A mistura de público era uma das marcas do Susi da rua Vitória. Foto Acervo Pessoal Bruna Monteiro

Mas lá dentro a coisa era um fervo do bem. “Era um lugar completamente louco, uma coisa muito libertária! As pessoas iam lá para dançar e se jogar”, conta Claudia Assef. E por um valor irrisório, já que por um ingresso muito barato, eram levados a um mundo sem limites e com a melhor música.

Flyer do primeiro aniversário da festa Ambiance, com line-up de peso

Quando o Susi completou um ano, uma grande festa foi organizada em outro local, pois o porão obviamente era pequeno demais pra isso. Foi escolhido um prédio no vale do Anhangabaú, onde ocuparam dois andares para uma comemoração que começou na sexta-feira e só parou no domingo à noite. Um evento épico, bem à altura do bombado subterrâneo, com a participação de dezenas de DJs e com milhares de pessoas passando por lá durante o final de semana.

É claro que com todo esse povo envolvido, há muitas histórias para contar. E outras tantas impublicáveis. “Você chegava no local e já na chapelaria podia encontrar um travesti pelada, ou um garoto de programa de cuecas”, conta Alex Caetano.

Edgard Scandurra aka Benzina também se apresentou no porão da rua Vitória. Foto: Claudia Assef

Era a época em que se popularizou a ketamina e isso causava congestionamento no concorrido toalete. “A casa tinha um banheiro minúsculo, ainda por cima as pessoas entravam em cinco e esqueciam da vida lá dentro”, conta Julião. “Várias vezes tive que deixar o disco tocando, subir correndo as escadas e sair do clube para usar o (banheiro) na padaria da rua”, relembra o DJ.

Quem também costumava dar as caras no local era a polícia, conta Yellow P: “Uma vez estávamos tocando e de repente entrou um batalhão inteiro no porão e mandou parar a festa”. Foi um tal de gente dispensando os corres, mas no fim eles nem queriam isso, só parar a festa mesmo. Alguém deve ter se dado bem. E na festa de dois anos do Susi in Dub, uma tropa de choque invadiu o porão e acabou com a festa na base do gás pimenta.

O superprodutor Daniel Ganjaman e Yellow P numa noite de peso na cabine! Foto: Acervo Miguel Salvatore.

No Insomnia também apareceram: “Era o final da festa naquele sábado e acho que a mulher do apartamento de cima cansou de ver suas taças andando pela estante e chamou a polícia”, conta Julião. “Tinha acabado de desligar o som e estava todo mundo no bar, quando chegou um monte de polícia e mandou todo mundo encostar na parede, tipo homem de um lado e mulher do outro”, ele conta. Nisso a Ronalda, do alto de seus saltos logo emendou: “E eu?”. O policial ficou em dúvida e mandou ela pro lado dos homens. Ela: “Eu não, meu bem, olha pra mim, sou uma lady!”. Tá, tá bom, vai pra lá. “Nesse meio tempo, vindo do porão um desavisado com a mão em palma bolando uma erva e pergunta: ‘E aí, pessoal, que tá rolando?’. Dá pra imaginar a cena tragicômica? Resultado: foram uns três pra delegacia, mas no fim todos foram liberados”, descreve Julião.

Flyer da festa Creshe, também desenhado por Carcarah

Por um bom tempo, outro after de música eletrônica acontecia ali, comandado por Carcarah, que também desenhava flyers para as noites. “Quando começou chamava Crash, mas não gostava do nome e mudei para Creshe! Começava às quatro da manhã de quinta, após a Ambiance, e ia até a tarde de sexta”, conta Carcarah, “Misturava tudo ali, os clubes iam fechando e o povo escorria pra lá. Ainda tinha shows ao vivo como do Z’Africa Brasil, Fulerô o Esquema e até banda punk já tocou”. Como já dá pra imaginar, a coisa fervia. “Nunca tive notícia de um after que acontecesse em uma sexta-feira, lembro de algumas vezes encerrar o Ambiance e ficar até as dez da manhã na pista, para depois ir trabalhar”, lembra Claudia Assef. “Era bizarro, em plena quinta-feira, quando chegava o final da noite, em vez de a casa esvaziar, começava a chegar mais gente e enchia o clube novamente”, conta o barman Lucciano.

Uma vez, durante o Susi in Dub, estourou um encanamento e a pista ficou alagada. A solução foi apenas desligar o registro, mas a festa não parou e ainda teve o Insomnia em seguida, que aconteceu normalmente. Perigas o pessoal nem ter notado.

Renato Cohen, em pleno auge da carreira, também tocou no Susi da Vitória. Foto: Acervo Claudia Assef

A noite de fechamento também foi marcante. “A polícia tinha aparecido numa sexta-feira para uma grande operação e na semana seguinte veio a Prefeitura, bombeiro, defesa-civil, todo mundo.” Era a noite de banda então havia muitos cabos esticados pelo local, que não tinha palco. Os bombeiros viram as instalações, ficaram espantados e quando souberam há quanto tempo funcionava a casa não teve jeito: “Você tá maluco, olha esses cabos expostos, olha esse porão sem rota de fuga. Sem chance, vamos lacrar”. E assim foi feito. Era o final de um dos últimos redutos do comportamento libertário na noite paulistana.

Uma batida policial, um novo passo de dança? Nunca saberemos, mas dá pra saber que era parte do fervo na parte do fora do velho Susi. Foto: Acervo Julião

Foram pouco mais de dois anos de muita festa, liberdade, jogação, excessos, pegação, amores e muita música eletrônica boa. Lembranças embaçadas pelo tempo e pela loucura que se viviam ali, mas o sentimento de que foi um clube único e especial é indelével. E os que ali encontraram seu underground são uníssonos em exaltar a importância do Susi para a cena e em sua vida. Yellow P fortaleceu o Dubversão e popularizou o dub nas festas de rua pela cidade, Sorriso virou Jimmy The Dancer, Marnel alçou voo e saiu de lá pra fazer uma noite no D-edge, Julião pegou gosto em fazer festa e até hoje tem seu Vai Ter After. Claudia Assef, Nenê e Alex Caetano têm o logo do Susi tatuado pelo corpo….

Julião (acima) com Ademir (dono), Maria Angelica e Josy. Acervo Julião

O Susi talvez tenha sido o último clube desse tempo em que as pessoas ainda não carregavam seus smartphones com suas câmeras onipresentes e invasivas em todo tipo de evento existente. Não dá para imaginar um local como aquele nos dias atuais, onde a cada minuto uma selfie é disparada e o momento é banalizado e eternizado em redes sociais. Muito da magia daquilo tudo é saber que só vai ficar na lembrança e, pra falar a verdade, nem nela restou muito. Mas sobra a certeza de que foi bom demais! Porque a gente ama a música eletrônica e o underground. E porões escuros, quentes e apertados, de viver sem rota de fuga e com tudo exposto como se não houvesse amanhã. Mas pensando bem, já era amanhã mesmo.

Camilo Rocha e Luiz Pareto juntos na cabine do Susi. Foto: Claudia Assef

”O Susi tá vivo ainda, mas aquele ficou marcado. Somos muito gratos por ter entrado nesse universo festivo, foi muito importante e alavancou nossa vida financeira”, Joy (dono)

“O Susi foi muito importante pra um monte de gente, formou uma geração. E até tem vários casos de pessoas que se conheceram ali e depois terminaram se casando”, Marnel (DJ)

“Foi um divisor de águas na minha vida, de jovem cheio de preconceitos passei a conhecer e respeitar todo tipo de pessoa”, Lucciano (barista)

“O Susi foi muito importante para mim e pra toda a cena dub-reggae da cidade”, Yellow P (DJ e promoter)

Fotos da galeria: arquivo pessoal Bruna Monteiro e Claudia Assef

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