Foto: ReproduçãoPor que este disco de Stevie Wonder é um dos mais icônicos da música pop
Edição: Flávio Lerner
Há 50 anos, gênio da soul usou todo dinheiro, estrutura e talento possível para lançar o essencial Songs in the Key of Life
Há 50 anos, chegava às lojas estadunidenses Songs in the Key of Life, de Stevie Wonder. Um disco que é muito mais do que um disco, física e historicamente falando. Afinal, foi lançado dia 28 de setembro de 1976 em um pacote luxo que continha dois vinis e um compacto, totalizando 21 músicas que levaram mais de dois anos para serem gravadas, e envolveram mais de 120 músicos.
Um álbum que fez Michael Jackson “pular e gritar”, pela maneira poderosa com que Stevie mostrou os feitos do povo preto e de várias outras culturas, em uma maneira brilhante de comunicar a verdade e a história (Revista Ebony, 1984, ao citar a faixa Black Man).
Já para a Rolling Stone, em 2022, Elton John contou: “aonde quer que eu vá no mundo, sempre levo uma cópia de Songs in the Key of Life. Para mim, é o melhor álbum já feito, e sempre fico maravilhado depois de ouvi-lo”.
Para todos, feito por um negro e financiado por negros
“A única empresa viável de propriedade negra”, justificou Stevie Wonder à Time sobre sua escolha em permanecer na gravadora Motown no momento em que já havia se consolidado como gênio da música.

O contrato de renovação, no entanto, foi meticulosamente discutido. Wonder queria orçamento gigante e total liberdade criativa para iniciar uma série de lançamentos que se tornariam peças do museu cultural da humanidade, a partir de 1971, quando tinha apenas 21 anos. A Motown lhe ofereceu um mínimo de 13 milhões de dólares anuais, que poderia chegar a 24 se o artista lançasse um álbum por ano.
Em 1972, lançou Music of My Mind e Talking Book. Em 1973, Innervisions, enquanto ia se familiarizando cada vez mais com as novas tecnologias musicais e sintetizadores, parafernália pela qual era apaixonado. Em 1974, Fulfillingness’ First Finale, um disco mais intropectivo, gravado após uma acidente de carro que o deixou cinco dias em coma e quase o levou embora do planeta que ajudava a divertir.
No ano seguinte, porém, “falhou”. Só que, além do crédito que tinha na casa por ter soltado dois álbuns em um ano só, o malandro tinha uma ótima desculpa. Estava totalmente absorto no projeto do superálbum que seria a obra de sua vida. Em 75, Wonder não lançou nada simplesmente porque estava afundado no estúdio compondo como um louco. O pessoal que trabalhou em Songs in the Key of Life calcula que o artista testou mais de cem canções diferentes para escolher as 21 finais.

Tudo grande, gigante, espetaculoso
No começo dos anos 70, a indústria da música e seus discos de vinil davam mais dinheiro do que cassino. Toda família tinha uma vitrola e uma coleção particular. Era um produto cultural popular e uma forma de expressar para as visitas. Além de Stevie Wonder, vários outros músicos negociaram contratos gigantescos, com exigências para lá de impactantes.
Mas em 1976, a própria Motown já estava com o burro na sombra. Todos os álbuns anteriores haviam vendido muito bem, dado lucro e consolidado o multi-instrumentista negro e cego ao olimpo dos grandes gênios da música estadunidense. Uma turnê com os Rolling Stones só fez crescer o mito, apresentando-o a outro público.
Era um nirvana financeiro tamanho, que a gravadora não se importou em reunir uma tropa de jornalistas em seu escritório em Manhattan, meter todo mundo em um avião fretado e levá-los, com todas as regalias, à fazenda-estúdio de Wonder em North Brookfield, Massachusetts, dia 07 de setembro de 1976, gastando 30 mil dólares (176 mil dólares, se atualizarmos para o dinheiro de hoje — o que dá cerca de R$ 920 mil), em um único evento promocional fechado. No encontro, o próprio Stevie apertou o play no gravador de fita, tocando a master para um grupo de privilegiados.

Deu tudo certo. O álbum ficou 14 semanas no top 1 da Billboard, e foi classificado por John Rockwell, do New York Times, como “o acontecimento pop do ano”. Sozinho, levou cinco Grammys. Para o músico e sua gravadora, era um final feliz de um longuíssimo filme.
Songs in the Key Of Life não levou dois anos para ser composto, mas somente para ser gravado. Consumiu cinco estúdios diferentes e mais de uma centena de convidados. O tecladista e compositor Greg Phillinganes, que trabalhou no álbum, conta que em sua carreira existiam os “tempos das sessões de gravação” e o “tempo de Stevie Wonder”, ambos completamente diferentes.
Algumas sessões de gravação duraram absurdas 48 horas, ininterruptas. Trabalharam com centenas de esboços de canções diferentes até chegarem à seleção final, que para Stevie Wonder não tinham, necessariamente, uma conexão. Como contou mais tarde, cada música era uma fotografia, um instantâneo de um determinado momento de seu dia a dia.

“Na arena, quem manda sou eu”
Em 1976, muita coisa estava acontecendo no mundo da música, gerando uma polarização que hoje, para nós, foi mais do que benéfica. Enquanto um novo e pulsante movimento cultural, o punk, contestava esses discos feitos com uma baita dinheirama e músicos tarimbados, com o surgimento das bandas do CBGB nova-iorquino e uma Inglaterra ávida por crueza e contestação, o pessoal de cima da tabela ainda não estava nem aí para isso.
Foi naquele mesmo ano que o gigantesco álbum ao vivo Frampton Comes Alive, duplo, virou um sucesso mundial de vendas. Earth, Wind & Fire e um tal de Bob Marley, aparecendo para o mundo, também tomavam conta das paradas de sucesso.
Mas Wonder queria ser o maior entre os maiores. Com seu incrível “álbum duplo e mais meio”, usou todo o dinheiro, a estrutura e o talento que tinha para criar um álbum da discoteca básica de qualquer ser humano. Um disco, definitivamente, maior do que um disco.



