Smiley Imagem: Reprodução

Do mundo corporativo à música eletrônica: A história do Smiley

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Como um despretensioso logotipo se transformou em símbolo da contracultura e hoje está gravado na memória da humanidade

Um risquinho convexo que graficamente nos lembra de um sorriso, expressão tão benéfica para a saúde, não é bem uma novidade. Já foi encontrada em pote confeccionado pela civilação hitita, com cerca de quatro mil anos, a curvinha simpática que nos remente a alguém sorrindo. É possível que, desde então, a forma de simbolizar rapidamente o que é agradável e divertido tenha se reproduzido e ficou por aí, flutuando na memória coletiva que abastece a humanidade. No entanto, o logotipo conhecido como Smiley Face, a bolinha amarela com dois pontos como olhos e a curva como sorriso, apareceu muito tempo depois, em 1963, pelas mãos do designer americano Harvey Ball (sobrenome bem sugestivo, levando em conta o logo que criou).

Smiley

Harvey Ball e seu icônico Smiley. Foto: Reprodução

Os gerentes da companhia de seguros State Mutual Life, em Worcester, Massachusetts, perceberam que seus funcionários andavam meio carrancudos. Em vez de aumentar seus salários ou reduzir as metas de vendas para aliviar a barra, tiveram uma ideia mais econômica: pagaram 45 doletas a Harvey, encomendando uma campanha para melhorar o clima no escritório.

Poucos dias depois, as salas da State Mutual expunham na parede um cartaz com o Smiley Face, sempre satisfeito e sorridente, olhando para os funcionários sob a frase “Have a Nice Day” (“tenha um bom dia”). A ideia foi tão rápida e despretensiosa que nem a companhia, nem seu criador tiveram a preocupação de patenteá-la. Harvey Ball só teve a ideia de fazê-lo em 1970, depois que a bolinha amarela começou a ser copiada e impressa em camisetas, virando um hit da geração hippie. Tarde demais. Dado o contexto de contracultura que o símbolo tomou (jovens ensolarados e sorridentes contra pais de família submissos e carrancudos), o designer acabou tentando mover diversos processos por uso indevido para receber seu quinhão, alguns deles em julgamento até hoje.

A explosão da música eletrônica no final dos anos 80 na Europa se apropriou muito da estética hippie da época chamada, historicamente, de Verão do Amor. Claro que o retorno da onda do LSD, mesma droga usada pela juventude daquela época, ajudou muito. Rapidamente o movimento inglês inspirado na house music americana passou a ser chamado de acid house, e seu maior símbolo, até hoje, é o Smiley Face de Harvey Ball, com leves modificações. Graças ao DJ Danny Rampling, que se apropriou do logotipo para divulgar suas festas na Shoom, um dos primeiros clubs londrinos abertos para divulgar, na cidade, aquele som louco vindo de Ibiza.

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Flyer da Shoom de 1988 desenhado por George Georgiou. Imagem: Reprodução

A partir daí, a reprogramação mental estava feita. Bastava bater o olho no sorridente solzinho amarelo que um flashback lisérgico nos vem à mente, com house music tocando em um porão cheio e enfumaçado, e alguém gritando “aciiiiieeeeeed” na sua orelha. O Boys Own, primeiro fanzine inglês impresso para divulgar as festas, DJs e a cultura house, trouxe em sua capa de estreia um Smiley pixado em uma parede, e a frase: “drop acid, not bombs” (“solte acid, não bombas”).

Não seria a última vez, porém, que nosso sorridente amigo mudaria a história do design gráfico. Nos anos 80, com o advento das conversas por texto nos primórdios da internet no meio universitário, usuários sentiam falta de expressar seus sentimentos em suas frases. Para resolver o problema, o professor Scott Fahlman, da universidade de Carnegie Mellon, criou códigos feitos com pontuações no lugar dos olhos e da boca, resultando nos famosos emoticons. “:-( ” , vire a cabeça para entender, significa triste; “;-D”, um sorriso largo com piscadinha, e por aí vai.

Até que, em 1990, uma companhia telefônica japonesa tratou de fornecer aos usuários minifiguras de expressões faciais. A conexão foi lógica. Bastou “roubar” o logotipo do Smiley Face e redesenhá-lo com todas as expressões possíveis, que você conhece e usa tão bem. Hoje, existem mais de cem expressões diferentes representadas por ícones, os emojis.

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George Georgiou ao lado de seus cartazes identificando onde foram os clubes City of Angels e Screamadelica. Foto: Dan J Burwood/Reprodução

Em 2024, o sentido lisérgico do Smiley Face foi revivido em Londres. George Georgiou, o artista gráfico contratado por Danny Rampling para fazer os primeiros cartazes de divulgação de suas festas (e, portanto, o grande responsável por todo o significado que o Smiley Face tem até hoje na cultura eletrônica), decidiu criar um design inspirado no logotipo para confeccionar cartazes que remetiam aos clubes icônicos de acid house da capital da Inglaterra, como Sin, Raw, Velvet Underground, City of Angels, Screamadelica e, claro, a própria Shoom, colando-os nos lugares onde ficavam essas boates. A iniciativa foi feita junto do Acid House Map em seu site pessoal, no qual é possível ver um mapa que aponta a localização de cada club. O identificador, é claro, é um Smiley.

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.

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