Foto: Neo Sor/DivulgaçãoRyuichi Sakamoto em Berlim: por dentro da exposição baseada na obra do eterno artista japonês
Edição: Flávio Lerner
Lalai Persson esteve no preview da mostra Ryuichi Sakamoto: seeing sound, hearing time, no Hamburger Bahnhof
Uma sala escura no Hamburger Bahnhof, em Berlim. No centro, um piano tocando sozinho com espaço grande entre uma nota e outra, como se parasse para pensar antes de tocar na próxima tecla. Acima dele, uma tela mostra neve caindo. É a obra IS YOUR TIME (2017/2024), de Ryuichi Sakamoto (1952-2023) com Shiro Takatani, que abre a retrospectiva do primeiro.

Foto: Jacopo La Forgia/Divulgação
O instrumento foi encontrado numa escola em Miyagi, danificado pelo terremoto e tsunami de 2011. Ryuichi o chamou de “piano afinado pela natureza”. As teclas respondem a dados sísmicos: um tremor em qualquer lugar do planeta vira nota ali dentro.
Na coletiva de imprensa, a curadora Sachiko Namba fez a pergunta que sustenta a exposição Ryuichi Sakamoto: seeing sound, hearing time inteira: por que alguém conhecido no mundo inteiro como compositor está dentro de um museu e não de uma sala de concerto? A resposta não vem de agora. Desde o fim dos anos 1990, Sakamoto instalou música em espaços físicos, ao lado de concertos e álbuns.
Namba contou ter ficado surpresa com o número de adolescentes que visitaram a mostra em Tóquio. Muitos deles não conheciam o artista, mas chegaram até ele pelas redes sociais e se conectaram com o trabalho dele mesmo assim. Ela espera que o mesmo aconteça em Berlim, com uma geração mais nova descobrindo-o pela primeira vez através dessa retrospectiva.

Foto: Jacopo La Forgia/Divulgação
Dança, ciência, filosofia e meio ambiente entravam nesse processo tanto quanto a composição. Sachiko chama o grupo que construiu essas obras ao longo dos anos de “Team Sakamoto”: Shiro Takatani, Toshio Iwai e uma equipe japonesa que se manteve junta por décadas. Esta é a primeira grande mostra solo do Ryuichi Sakamoto na Europa apresentando a consolidação de um trabalho que ele já vinha fazendo havia mais de 20 anos.
A curadora pediu ao público para usar o corpo inteiro ao visitar a exposição. “Abra os ouvidos. O som é a vibração do ar e o ar toca a pele antes de chegar a eles.” Em async–immersion, também feita com Takatani, são 14 canais de som espalhando a composição pela sala enquanto uma tela mostra objetos do estúdio dele em Nova Iorque: piano, livros, plantas e outros objetos. O som e a imagem seguem caminhos separados. A gente anda e a obra muda com nosso movimento.
No telão de LED de 18 metros de comprimento de async–immersion, o interior de um piano vai e vem em cinza. Depois vira céu com nuvens que se movimentam em câmera lenta, uma faixa branca cruza a tela de um lado a outro, como um scanner percorrendo a imagem. Uma nota só, grave e esticada, dura a cena inteira. O som e a imagem seguem relógios diferentes: a projeção nunca acompanha a música, cada uma corre no seu próprio tempo dentro da sala.

Foto: Lalai Persson/Music Non Stop
Sakamoto dizia que música é uma arte do tempo que só existe no tempo. A pergunta seguinte era inevitável: o que é o tempo? Ele existe? TIME TIME, novamente com Shiro Takatani, ocupa uma sala com três projeções imensas e água. Imagens e sons avançam e voltam, sem início nem fim marcados. Não existe primeiro minuto pra assistir desde o começo, porque não existe o primeiro minuto.
Três telas formam uma imagem só: água, vegetação, uma figura entrando no quadro, tudo cruzado por linhas retas que se sobrepõem à imagem como um mapa de constelação ou como se alguém tivesse esticado fios de um canto a outro da cena.
Depois as telas mudam: fundo azul, ondas de água em câmera lenta, narração em japonês e o texto sendo traduzido simultâneo em inglês e alemão ocupando todas telas. Uma mulher avisa que vai morrer com uma calma que convence o narrador. É o conto Primeiro Sonho do Sōseki, de Natsume Sōseki, lido em fragmentos soltos, sem ligação direta com o que vem antes ou depois na projeção.

Foto: Lalai Persson/Music Non Stop
Carsten Nicolai, conhecido como Alva Noto, participa com PHOSPHENES e ENDO EXO, construídos a partir de 12, o último álbum de Ryuichi Sakamoto. Na coletiva, falou de vida e morte, de um trabalho que segue sendo desenvolvido mesmo depois de encerrado, de uma colaboração que teve com o artista por mais de uma década. Contou que Ryuichi pediu a ele para trabalhar do jeito que sentisse, sem medo.
A exposição de Tóquio tinha 12 obras. Para o espaço Rieckhallen, do Hamburger Bahnhof, um corredor longo e linear, Namba e Ingrid Buschmann refizeram a seleção: sete obras organizadas em cinco instalações de grande escala, pensadas para essa arquitetura específica. Berlim tem uma relação antiga com música eletrônica, sound art e mídia baseada em tempo. Faz sentido que seja aqui.
IS YOUR TIME surgiu de um acidente. Terremoto e tsunami forçando um piano a virar um instrumento sísmico. async–immersion nasce do contrário. Shiro Takatani volta ao estúdio de Ryuichi Sakamoto depois que ele morreu e monta a obra com o que sobrou ali: piano, livros, plantas e a ausência. A primeira obra é a natureza compondo sem querer. A segunda é alguém compondo com o vazio que ficou.

Foto: Jacopo La Forgia/Divulgação
Num concerto, alguém decide quando a música começa e quando termina. Aqui, é a gente quem escolhe: quanto tempo fica parado diante do piano ou quando sai da sala. Sachiko Namba diz que a experiência não termina quando você sai do museu. Ela assenta, fermenta, e daqui a cinco ou dez anos ainda pode virar alguma coisa.
Saí de lá ainda ouvindo o piano, e continuo ainda pensando na exposição.
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No Hamburger Bahnhof, Ryuichi Sakamoto: seeing sound, hearing time abre no dia 11 de setembro de 2026 e fica em cartaz até 11 de junho de 2027. Dá tempo para planejar uma viagem e vir curtir o verão em Berlim.



