Jota Wagner explica o papel histórico da cantora que redefiniu a soul music nos anos 60; Flack faleceu nesta segunda, aos 88 anos
Roberta Flack entrou na igreja “errada”. E isso mudou sua música, sua vida pessoal, lhe deu a autenticidade que acompanhou toda a sua jornada, além de absurdas acusações sobre seu canto ser “branco demais”. Nada disso era preocupação para os milhares de sortudos que puderam vê-la cantar no Henry’s, em Washington D.C., no começo da sua carreira (tardio, aos 31 anos).
Ali, reinou em uma residência que lhe rendia cinco shows por semana e reuniu formadores de opinião de todo o país para ouvir a garota que estava ajudando a inventar aquilo que a imprensa chamaria de “quiet storm”, um jeito mais comedido, atento às notas, de se cantar soul music. Completamente diferente do que fazia a grande rainha da época, Aretha Franklin.
Franklin e a imensa fatia dos grandes da soul, quando adolescentes, esquentavam os bancos da Igreja Batista estadunidense, berço da música gospel como a conhecemos. Aliás, tá demorando para o Rock and Roll Hall of Fame incluir essa igreja pelo “conjunto da obra”. Mas Nosso Querido Senhor Jesus Cristo tinha outros planos para Flack, e fez com que o destino a levasse para a Igreja Metodista, cuja música nos cultos era mais suave, calma e… metódica. Ali, desenvolveu um jeito de cantar soul music completamente oposto.
Roberta Flack nasceu na Carolina do Norte em 1937, mas se mudou com a mãe, professora de música, para Washington, onde conseguiu crescer no padrão da classe média da época, apesar de sofrer com as agruras de um país ainda segregado. O que via nas ruas e sentia na pele jamais saiu de sua música, mas a perspectiva de ascensão a levou a frequentar meios intelectuais na comunidade negra. Aos 15 anos, já reconhecida como um prodígio do piano clássico, foi enviada para a Hawkins University, a melhor universidade para negros do país, celeiro de líderes e pensadores, para seguir com seus estudos musicais. Seu sonho sempre esteve lúcido na mente: se tornar uma pianista clássica profissional.
Ao se formar, no entanto, teve mais um duro choque de realidade. As portas das sinfônicas estavam fechadas a cadeado para os negros. A musicista viu seu sonho se esfarelar por completo, até que sua fama de “fora de série” rendeu um convite para uma temporada no clube Henry’s, templo da boa música na cidade e com público totalmente misturado. Chega de separação na vida de Roberta Flack.
O ano era 1968 e, por mais que os animais da Ku Klux Klan incendiassem igrejas, cruzes e casas, a revolução já estava rolando, ganhando ainda mais força com o assassinato de Martin Luther King Jr., em abril daquele ano. Muitos brancos estadunidenses também já estavam de saco cheio da segregação. E o Henry’s era o lugar para ir, conversar sobre o assunto, tomar uns tragos e ouvir aquela cantora negra que cantava de um jeito diferente, misturando folk music e soul.
Foi ali que o pessoal da Atlantic Records conheceu Roberta e a convidou para gravar seu primeiro disco, First Take (em 1969). Um clássico absoluto, repleto da vibração jazz, do cantar cool e da potência que levaria consigo para o resto da vida. A capa do álbum mostra a artista tocando seu piano no Henry’s, provando a importância do clube em sua carreira. Seu primeiro grande hit, Compared to What, um hino da afirmação da comunidade negra nos Estados Unidos, veio ao mundo neste primeiro álbum. Flack impressionava pelo estilo quiet storm, que só viria a ser popularizado dois anos depois, por Marvin Gaye.
Os nervos estavam à flor da pele nos Estados Unidos no começo da década de 70. O pessoal do “time Aretha” tentou cancelar a colega, acusando Roberta de cantar “do jeito branco”, mesmo tendo sido ela a responsável por um petardo como Compared To What. De fato, o público branco adorou seu jeito de cantar, e os seus discos batiam ponto nas vitrolas das salas de estar dos Estados Unidos. Ser uma artista agregadora em um país que amargou décadas de segregação não pegava bem entre a comunidade da black music. Em vez de se desculpar, ela provocou ainda mais.
Ao entrar em um avião para viajar da Califórnia a Nova Iorque para um encontro com Quincy Jones, Flack ouviu uma música dentro da nave que ficou em sua cabeça. Uma baladinha doce com piano ao fundo (coisa que ela adorava) cantada por uma lourinha do folk estadunidense chamada Lori Lieberman. Era a primeira vez que ouvia Killing Me Softly With His Song.
Quando chegou ao estúdio de Quincy, avisou que queria regravar a canção, e o fez dando a ela uma amplitude inédita, principalmente quando incluiu o “oh oh oh la la la” em sua versão. A prodígio do piano clássico chegava ao ápice da música pop com o maior hit de sua carreira. E mandou às favas quem a acusava de “cantar como branca”. Como se não fosse suficiente, ainda regravou Suzanne, de Leonard Cohen, para não deixar dúvida que, para ela, a segregação não tinha mais espaço.
Seu último álbum foi gravado em 2012, com covers dos Beatles. Flack foi amigona de John Lennon e Yoko Ono. Dali em diante, pendurou as chuteiras para viver com a família, até que um infarto a levou, aos 88 anos, para outro plano, nesta segunda-feira, 24 de fevereiro. Se encontrará novamente com Lennon para trocar figurinhas, e com Nelson Mandela, a quem visitou na África do Sul e tocou, especialmente para ele, Killing Me Softly ao piano, na sala da casa do pacifista.