
Edição: Flávio Lerner
RAYE lançou no último dia 27 seu segundo e ambicioso álbum de estúdio, THIS MUSIC MAY CONTAIN HOPE. (ô mulher boa de títulos!). Parece pouco, mas não é. Permeou sua carreira com EPs, colaborações com muitos DJs e discos ao vivo. E um novo LP significa coisas diferentes para a carreira de um artista e para o mundo.
Para ela, representa uma guinada. Dona de uma bela voz soul, causou comoção com seu debut, My 21st Century Blues (2023), no Reino Unido, que segue eternamente em busca de uma nova Amy Winehouse. A cantora se encantou com as orquestras e, no mesmo ano, pintou com um lançamento ao vivo gravado no Royal Albert Hall, chamado My 21st Century Symphony. Era um sinal do que estava por vir.
Para o mundo, THIS MUSIC MAY CONTAIN HOPE. é mais uma obra pop cravada de arranjos orquestrados e vocais líricos, uma tendência nos últimos tempos, principalmente na Inglaterra. Todo mundo anda querendo soar erudito. Com 17 faixas e colaborações com Hans Zimmer, Al Green, Grandad Michael e Amma & Absolutely, o trabalho parece uma trilha de teatro musical. Gravado com excelência, traz um apanhado de canções épicas, bem conectadas, mas sem dar descanso ao ouvinte. O que o torna difícil de encarar, como um álbum.
A música é feita do equilíbrio entre a tensão e o relaxamento. Aqui, nosso ouvido relaxa pouco, e isso é um problema. Quem gosta de soul, gosta de groove. E por mais que haja momentos muito bacanas durante a audição, chega uma hora em que somos obrigados a tirar o fone de ouvido e pausá-la.

É o famoso tédio pornográfico. Tudo é tão explícito e intenso nos closes, que sentimos falta de ver alguém vestido, sugerindo ou insinuando, apenas. Faz falta também a perfeição da voz crua de RAYE. Boa parte do disco se dedica ao ultraprocessamento de seus vocais. E o que a artista tem de mais legal é justamente seu timbre rasgado, cigarreiro e debochado, seja nas harmonias soul ou quando se aventura no rap.
THIS MUSIC MAY CONTAIN HOPE. também entrega uma questão de posicionamento. Colocar sua autora em um patamar mais alto, mais culto, do que o de seus colegas. Só que o recurso de fazê-lo trazendo uma orquestra já não é mais tão impactante.
A melhor experiência é ouvir as canções separadamente. Escolha uma, aproveite toda a profundidade do arranjo e, em outro momento, parta para uma próxima. Só que aqui estamos resenhando um álbum, né? Por isso, fica um desejo: dona RAYE, já que você gosta de guinadas musicais, que tal um próximo disco cru, somente com um quarteto, explorando tudo o que sua voz tem, com o mínimo de processamento? Queremos.



