
8.5/10
Edição: Flávio Lerner
Por mais que Bob Dylan se recuse a confessar que 101% do clássico LP Blood On The Tracks sejam conversas dilacerantes sobre separação, dor, angústia e abandono, todos os álbuns sobre fim de relacionamentos que surgirem até o fim dos tempos serão comparados à sua obra-prima de 1975. Lost Weekend, quinto álbum de Phoebe Bridgers (contando os dois gravados como integrante do Boygenius), não apresenta nenhuma semelhança estética com ela. Ainda assim, a compositora de 32 anos fez questão de deixar trilhas de sangue em algumas das suas 16 faixas.
Ao menos, é o que apontam os chamados “legistas de corações partidos” que vagam pelas redes. Na hipnótica balada em 3/4 The Governor’s Waltz, por exemplo, esses leitores forenses identificaram uma linha que aparenta ser um comentário sobre o término de seu noivado com Paul Mescal (o mesmo que será Paul McCartney nas cinebios de Sam Mendes), e o início do namoro de Mescal com a rival de Bridgers no pop, a não menos excelente Gracie Adams.
Agora vamos ver até onde eu posso correr sem parar e até onde ela consegue fingir que sou eu… Desde que ela roubou o meu lugar na cama, digo a você que não perdi um dia sequer de sono.
Ser eu mesma não era nada fácil
Faça isso por mim
Contrariando essa ideia (ou em um movimento de autodefesa), Phoebe afirmou que a canção seria “uma visão fictícia” de sua vida.
“Estranhamente, um dia sentei para escrever e o único modo que achei correto foi compor a respeito de minha vida como se fosse um conto de fadas — nada tão literal”, explicou a artista em um podcast universitário no final de julho.
Já em outra entrada — especificamente na música que batiza o disco —, ela canta de forma resignada ou confusa. Ou talvez os dois:
Acho que sei por que você anda me ignorando.
Tenho usado meus amigos e perdido a cabeça.
Sobrevivendo ao meu dom até ser atingida.
Eu deveria estar casada, mas cancelei o casamento.
Lost Weekend: DNA de John Lennon
Os indícios de que Lost Weekend seja um diário manchado de vermelho são visíveis (ou audíveis) desde a abertura, em The Outside, até o encerramento com a reprise da faixa-título. Há também o seu DNA musical, e o histórico de ser fã dos Beatles.
Não por acaso, o título “fim de semana perdido” é uma conexão direta com o tempo de separação de John Lennon e Yoko Ono, que durou bem mais de dois dias (no caso, cerca de um ano e meio). Depois de retomar o casamento, Lennon classificou o período como “um fracasso”.
“Nós sempre soubemos que voltaríamos um dia”, declarou o ex-Beatle em 1975, comparando o momento de crise com The Lost Weekend — um filme de 1945 que aborda o alcoolismo (no Brasil, o longa dirigido por Billy Wilder foi lançado como Farrapo Humano).
Ao mesmo tempo que a atmosfera do álbum de Phoebe Bridgers nos envolva com um aspecto fúnebre (Still Standing é sobre seu saudoso pai, Tony, falecido em 2023), a obra (assim como o Blood On The Tracks de Dylan) reserva espaço para momentos mais festivos.
Bobby é um desses caminhos de luz, em que Phoebe tenta escapar do rastro de trevas deixado pelas anteriores The Other Side e Kill Me, por motivos de sobrevivência. A música é uma declaração de amor literal ao artista (e sucessor de Mescal em seu coração) Robert Pickering “Bo” Burnham, coautor desta e de outras seis no LP.
“Eu quis compor algo sobre o sentimento de amor à primeira vista — como se sua vida capotasse”, revelou a cantora.
No prelúdio deste pergaminho digital, é válido pontuar que a combinação de texturas sonoras encontradas pelas camadas de pop-folk, country, rock e eletrônica seja a melhor forma de contextualizar tudo o que orbita o universo criado por Phoebe Bridgers.
Agora é o momento de parar de escrever e voltar a se inspirar pelo álbum mais uma vez.



