Way Out West Way Out West 2026. Foto: Ola Persson / Music Non Stop

Way Out West 2026: 4 gerações diante do mesmo palco ao mesmo tempo

Lalai Persson
Por Lalai Persson

Edição: Flávio Lerner


Lalai Persson conta por que quebrou sua promessa de não voltar mais ao festival sueco — e por que valeu a pena

Da última vez que fui ao Way Out West, saí jurando que não voltava. Estava lotado de um jeito que tirava o prazer, e eu disse para mim mesma, em voz alta, que o festival já tinha rendido o que podia. Agora, estive em minha oitava edição em 15 anos, então já sabe como terminou a promessa.

Voltei porque o Moby ia trazer seu show novo, e quando assisti ao vídeo de Natural Blues ao vivo no Coachella, com Jacob Lusk cantando, eu chorei sozinha olhando para a tela do celular. Mas voltei também porque, no fundo, eu sabia o que me esperava, e é difícil dizer não a um lugar que a gente gosta.

Realizado neste ano entre os dias 13 e 15 de agosto, o WOW acontece dentro do Slottsskogen, um parque público no meio de Gotemburgo. Isso já muda tudo: não tem acampamento, estrada de terra e nem aquela logística que transforma três dias de música em uma expedição. A gente dorme na nossa cama, ou na de alguém, e vai a pé, de bicicleta ou de bonde.

Way Out West

Foto: Ola Persson / Music Non Stop

O festival, aliás, começa antes do portão, na calçada, onde marcas já criam ativação com música e o gramado fica coberto de gente fazendo piquenique como se o dia inteiro coubesse ali.

E lá dentro é bonito como qualquer parque bem-cuidado. Cercado de verde, com dois lagos dentro da área do festival e uma área de descanso em volta de cada um, a luz que na Suécia de agosto só baixa lá pelas nove da noite, a produção dos palcos impecável com sistema de som primoroso.

O terreno é irregular, mas o que parece defeito é virtude: sempre tem um ponto mais alto de onde dá para ver um show grande mesmo do lado oposto do palco. Dá para comer vendo show, porque tem área de comida perto de todos os palcos, coisa que a maioria dos festivais não tem.

Way Out West

Bar de vinhos. Foto: Ola Persson / Music Non Stop

Tem sorveteria, carrinho de café espalhado por tudo, e são tantos bares que não peguei fila para beber uma vez sequer. O bar de vinho natural é uma atração à parte, com DJ, mesa enfeitada com flores, garrafa servida em taça de vidro de verdade. Às vezes é até difícil sair de lá. Esse ano eu presenciei um casamento acontecendo nele.

A área VIP, que eu costumo torcer o nariz, é discreta. Fica deslocada, sem ostentar para quem está de fora, com bar de coquetéis, restaurante de verdade, programação própria e até leitura de tarô tinha este ano. Uma ressalva honesta: eu só entrei nela porque fui credenciada como imprensa, e a sala de imprensa fica lá dentro. Não é um luxo que o meu ingresso teria comprado. E, mesmo assim, acabei passando rapidamente por lá duas vezes.

Tudo isso é o que me fez voltar, e é o que faz o Way Out West continuar tendo lugares confortáveis mesmo cheio. Porque cheio ele está. A promessa que quebrei não foi capricho: a multidão ainda assusta, e teve momento de precisar seguir um mar de gente parada só para conseguir chegar aonde eu queria.

Way Out West

Superlotação. Foto: Ola Persson / Music Non Stop

Este ano me pareceu mais distribuído ao longo dos dias, o aperto menos constante, mas ele existe, e é a sombra de um festival que vendeu até o último dos 81.500 ingressos, recorde pela quinta vez seguida. O parque é o mesmo de sempre, os mesmos cinco palcos no mesmo pedaço de Slottsskogen, e a imprensa local resumiu a edição numa palavra — trängsel, o aperto.

A alameda central que antes era passagem virou corredor de estande de marca. Em determinado momento, vi fila para entrar na própria área VIP, o que já é quase piada.

Mas eu volto sempre que posso por outra coisa, e é a que sempre me ganha: do Way Out West, eu sempre saio fã de alguém que não conhecia quando entrei.

Way Out West

Arthur Verocai – Way Out West 2026. Foto: Ola Persson

Neste ano, começou logo na quinta. Cheguei cedo para ver Arthur Verocai e fui fisgada não apenas pelo show, mas também pela plateia. Sabia que ia encontrar o arranjador brasileiro de 81 anos e sua orquestra de cordas. Não esperava que a maioria da galera fosse geração Z, cantando Na Boca do Sol como quem conhece a música faz tempo.

Tinha um ou outro mais velho, mas foi a garotada que lotou o show, além de alguns brasileiros que gritavam entre uma canção e outra para mostrar que estávamos ali, representando nosso país do Sul Global.

O disco homônimo de Verocai de 1972 foi um fracasso de vendas na época e virou cult depois, quase tudo fora do Brasil, reciclado por gente do hip-hop, de MF DOOM a Ludacris. Ver um senhor de 81 anos mobilizar uma plateia de 20 e poucos numa tarde de sol foi a primeira coisa que me lembrou por que eu tinha voltado.

À noite veio o Moby, que era o motivo de tudo. Eu o tinha visto uma vez, em São Paulo, em 2010, e em 16 anos o show virou outra coisa, agora com uma banda enorme, com quatro mulheres à frente, e ele se divertindo muito mais do que naquela época.

Abriu com Bodyrock, tocou Porcelain, parou para exibir um vídeo que Jane Goodall gravou para ele antes de morrer, e quando chegou em Natural Blues, com Jacob Lusk encarnando a Vera Hall, era exatamente a coisa que tinha me feito chorar no celular meses antes, agora acontecendo na minha frente.

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Moby – Way Out West 2026. Foto: Ola Persson / Music Non Stop

Depois dela, disse que se entendesse da indústria encerraria ali, mas como não entendia, emendou Feeling So Real e transformou o show numa grande rave, com gente de todas as idades pulando junto.

E não foi só a plateia jovem que me surpreendeu nos dois shows, foi a mistura. Festival grande costuma ser território de geração Z e millennial, e o Way Out West tem gente de geração X e boomer em quantidade que eu não vejo em outro lugar do porte. No The Cure, de longe, era o público esperado; gente de 40, 50, 60.

Mais para frente do palco, um monte de pessoas de 20 e poucos cantando tudo com a cara maquiada de branco à la Robert Smith. Não é o jovem que está ali por falta de opção, me parece reconhecimento de verdade, e se repetiu no Wilco, no The Hives, no Nick Cave, no Gorillaz.

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Público Way Out West 2026. Foto: Ola Persson / Music Non Stop

Não vi um único show com uma geração só dominando, nem mesmo o do maior nome pop sueco, a Zara Larsson. Dizer que os jovens estão descobrindo música antiga é banal, o streaming resolveu isso faz dez anos. Mas num festival isso deixa de ser número e vira gente ao seu redor, quatro gerações diante do mesmo palco ao mesmo tempo.

Meus melhores momentos, no entanto, foram nos desvios. Às 08h45 de sábado, abri mão da Lorde, que era uma das principais atrações da noite, para ver o poeta nigeriano Joshua Idehen lotar uma tenda menor. Um imigrante de 45 anos radicado em Estocolmo, que passou duas décadas dizendo os versos dos outros antes de estrear sob o próprio nome este ano. Não me arrependi da escolha, e terminei o show abraçando uma estranha ao meu lado.

Quando eu precisava de respiro, eu fugia para a área de música eletrônica, mais afastada, onde só toca DJ e tem clima de festa o tempo todo, coisa que o resto do festival não necessariamente tem. Dancei com Ash Lauryn e Ben UFO ali.

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Ash Lauryn @ Way Out West 2026. Foto: Ola Persson / Music Non Stop

E então o Gorillaz, que fechou tudo e fez o melhor show do festival. Abriu com The Mountain, faixa-título do disco novo, e do começo ao fim foi um desfile de convidados: Kara Jackson, Yasiin Bey, Bootie Brown, Anoushka Shankar na cítara em Orange County, a mesma que eu tinha visto sozinha de tarde. Mas quem levou o público ao delírio foi Yukimi Nagano, do Little Dragon, que é de Gotemburgo, cantando Empire Ants em casa.

“Aqui está a rainha de vocês”, disse Damon Albarn ao chamá-la. Da plateia, partiu um Free Palestine, e ele, que já cantava com uma bandeirinha da Palestina fincada no pedestal do microfone, deixou o grito responder por si. Foi um show de catarse e de respiro, os trechos mais lentos servindo de pausa entre uma explosão e outra, uma coisa estranha e bonita ao mesmo tempo, que flui em vez de terminar. Fecharam com Clint Eastwood, e foi o tipo de encerramento que faz a gente entender por que atravessou o mundo.

O Way Out West tem por trás a máquina Live Nation, ou seja, isso provavelmente contribui para ter essa lista de artistas headliners que os festivais vizinhos, em Oslo e Helsinki, não conseguem. Mal 2026 acabou, já está vendendo ingressos para 2027.

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Parte de trás do palco Música Eletrônica @ Way Out West 2026. Foto: Ola Persson / Music Non Stop

Mas ele usa esse tamanho para bancar uma curadoria que ainda arrisca, que ainda coloca um arranjador brasileiro de 81 anos e um poeta imigrante no meio de The Cure e Gorillaz, e que enche os palcos de artistas suecos, dos pequenos aos gigantes, que sempre trazem hordas de fãs junto.

Foi isso que quebrou a minha promessa. Voltei pelo conforto e pela beleza do lugar, mas fiquei porque ele me deu, de novo, alguém para eu admirar que eu não conhecia. É para isso que um festival também serve.

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Entrada do Way Out West 2026. Foto: Ola Persson/Music Non Stop

Uma das várias áreas de alimentação do Way Out West 2026. Foto: Ola Persson / Music Non Stop

Way Out West 2026 – área VIP. Foto: Lalai Persson / Music Non Stop

Moby – Way Out West 2026. Foto: Ola Persson / Music Non Stop

Moby – Way Out West 2026. Foto: Ola Persson / Music Non Stop

Moby – Way Out West 2026. Foto: Ola Persson / Music Non Stop

Moby – Way Out West 2026. Foto: Ola Persson / Music Non Stop

The Hives @ Way Out West 2026. Foto: Ola Persson / Music Non Stop

Público Way Out West 2026. Foto: Ola Persson / Music Non Stop

Palco Música Eletrônica @ Way Out West 2026. Foto: Ola Persson / Music Non Stop

The xx @ Way Out West 2026. Foto: Ola Persson/ Music Non Stop

The xx @ Way Out West 2026. Foto: Ola Persson/ Music Non Stop

The xx @ Way Out West 2026. Foto: Ola Persson/ Music Non Stop

Geese @ Way Out West 2026. Foto: Ola Persson/ Music Non Stop

Geese @ @ Way Out West 2026. Foto: Ola Persson/ Music Non Stop

Blood Orange @ Way Out West 2026. Foto: Ola Persson/ Music Non Stop

Público @ Way Out West 2026. Foto: Ola Persson/ Music Non Stop

Público @ Way Out West 2026. Foto: Ola Persson/ Music Non Stop

Wilco @ Way Out West 2026. Foto: Ola Persson/ Music Non Stop

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Wilco @ Way Out West 2026. Foto: Ola Persson/ Music Non Stop

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Wilco @ Way Out West 2026. Foto: Ola Persson/ Music Non Stop

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Celeste @ Way Out West 2026. Foto: Ola Persson/ Music Non Stop

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Lila Iké @ Way Out West 2026. Foto: Ola Persson/ Music Non Stop