Mr. Bungle Foto: @ianrassari/Divulgação

Mr. Bungle no Brasil: quando o caos também é arte

Music Non Stop
Por Music Non Stop

Zé Antonio Algodoal conta como foi o show do grupo americano nesta segunda-feira, 26, no Cine Joia, em São Paulo

Por Zé Antonio Algodoal

Muito além das métricas de sucesso comercial, o Mr. Bungle é uma verdadeira instituição da vanguarda musical. Formada em 1985 pelo trio Mike Patton, Trey Spruance e Trevor Dunn, a banda construiu seu legado desafiando fronteiras musicais e fundindo sonoridades que vão do death metal ao ska, passando por trilhas de desenhos animados.

Essa alquimia sonora ganhou ainda mais peso em 2020, quando o grupo recrutou o lendário guitarrista do Anthrax, Scott Ian, e o baterista Dave Lombardo, conhecido por seu trabalho com o Slayer e o Misfits. Após décadas de espera, o público brasileiro finalmente testemunhou esse caos controlado de perto em 2022, na estreia histórica da banda no país durante o KNOTFEST, onde dividiram o palco com nomes como Slipknot e mostraram por que sua técnica e criatividade permanecem inigualáveis. Agora, quatro anos depois, o grupo retornou para uma miniturnê sul-americana que, segundo boatos, poderia ser a de despedida.

O show desta segunda-feira aconteceu em um Cine Joia abarrotado por fãs ansiosos, já aquecidos pela performance visceral do duo paulistano TEST. Após um breve hiato, as luzes se apagaram sob os acordes imponentes de Also Sprach Zarathustra, de Richard Strauss. A entrada triunfal do Mr. Bungle, no entanto, veio acompanhada de uma dose generosa de ironia: para a surpresa geral, o grupo iniciou o set com uma versão de Tuyo, a balada caribenha de Rodrigo Amarante que embalou a abertura da série Narcos.

A calmaria durou pouco. Logo as guitarras rasgaram o ambiente com a sequência brutal de Grizzly Adams, Anarchy Up Your Anus e Bungle Grind, arrebatando de vez a plateia. Mike Patton, mestre em subverter expectativas, quebrou a escalada sonora com um cover inusitado de I’m Not In Love, clássico setentista do 10cc. O fôlego foi retomado com uma sequência de oito faixas explosivas, incluindo as autorais Eracist e Hypocrites / Habla Español o Muere (transformada em Fala Português ou Morre) e releituras de State Oppression (Raw Power) e USA (The Exploited).

Mr. Bungle

Foto: @ianrassari/Divulgação

Mais uma vez, o caos deu lugar ao kitch quando Patton e companhia entregaram uma bela (e improvável) versão de Hopelessly Devoted To You, de Olivia Newton-John, eternizada na trilha de Grease, que curiosamente foi acompanhada por boa parte da plateia, que visivelmente estava entregue ao carisma do frontman.

A sequência final do show foi uma verdadeira avalanche sonora, enfileirando My Ass Is on Fire, Sudden Death e um cover avassalador de Refuse/Resist, do Sepultura. Seguindo a tradição recente, o encerramento ficou por conta do deboche peculiar do Mr. Bungle: uma versão de All by Myself, de Eric Carmen, cujo refrão ganhou uma adaptação no nosso idioma consideravelmente menos polida (e muito mais divertida) que a original.

Na véspera de completar 58 anos, Mike Patton reafirmou por que é uma das figuras mais magnéticas e respeitadas da história do rock. Com uma performance vocal impecável, transitando sem esforço entre a doçura das baladas e o vigor dos urros guturais, ele esbanjou carisma, dominou a plateia com um português quase fluente e provou que o caos, quando regido por um mestre, é também uma forma de arte.

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