‘Relações de afeto e arte ainda vão salvar a humanidade’, diz Fernando TRZ

Fabiano Alcântara
Por Fabiano Alcântara

A música instrumental brasileira nunca deixou de ser grande, mas ela passa por uma boa onda. Isto se deve ao talento de monstros como Letieres Leite, Amaro de Freitas, Thiago do Espirito Santo, Paulo Almeida, Daniel Daibem, Vitor Araújo e grupos como Nomade Orquestra, Bixiga 70, Muntchako, ATR, Mental Abstrato. O primeiro grupo, de virtuoses, se destaca pela técnica e feeling. O segundo, que traz a música instrumental para as ruas, tornou-se relevante porque enxergou além do som, tornando-se atrativo para grandes públicos e conquistando fãs e mídia, como qualquer artista pop.

Na terceira margem está Fernando TRZ. Virtuoso e ligado em todas as tendências vanguardistas – ele pode ser visto esmerilhando, por exemplo, no Tiny Desk, programa-fetiche da NPR, que gravou com Liniker e os Caramelows -, o músico lança este ano Solstício (Pipa Music), seu primeiro álbum autoral solo. O primeiro single, Janeiro, chega nas plataformas nesta segunda (20).

Pianista, compositor e produtor musical, TRZ hoje é mais conhecido por seu trabalho com Os Caramelows, mas ele tem uma longa história iniciada em São Carlos, nos anos 90, continuando em Bauru, passando por São Paulo, retornando a São Carlos e daí para o mundo.

Hoje é um autêntico globetrotter, respondeu à entrevista do MUSIC NON STOP, em Berna, na Suíça, onde abre a terceira tour internacional com a icônica cantora de Araraquara e suas companheiras e companheiros de banda. Acabam de lançar o aclamado Goela Abaixo e vão a palcos históricos do planeta, como os dos festivais Glastonbury e Womad.

 

Voltando ao disco de TRZ, ele é composto por faixas instrumentais, com exceção de Salto, com a rapper Dani Nega. Traz também participações e colaborações de amigos e parceiros músicos de outros projetos em que atua, como Os Caramelows, Pipo Pegoraro, ATR e Lavoura, além do experiente baterista e percussionista Emílio Martins, o baixista Renato Cortez que assina a mixagem do álbum. Outros destaques são os sofisticados arranjos de metais, do saxofonista e flautista Éder Araújo e a percussão climática e energética de Marja Lenski.

Capa de Solstíco, foto de Rafael Lefcadito

O disco foi gravado entre 2018 e 2019 nos estúdios Timbrão (São Carlos), Parede-Meia Estúdio (São Paulo), aZahaVanGelder Studio (Araraquara), Casa Azul (São Paulo) e MatoRec (Carmo de Minas). A mixagem foi feita no MatoRec por Renato Cortez e a masterização por Vitor Paranhos, no VOP Estúdio (São Carlos).

Leia nossa entrevista em que ele fala de influências, seu processo de composição, tendências, diferenças entre gerações de música instrumental e outros assuntos:

De onde vem o seu som?
Fernando TRZ – Creio que a música reflete nossos sentimentos e nosso estado de espírito, como um espelho de nossa alma e nossos desejos. Seja nos momentos de angústia, ou de alegria, e tudo o que há entre esses dois estados, entendo o processo de composição como um processo de encontro com sua essência e liberdade, e que leva a um processo de cura.

E também entendo que essa revelação da composição musical se dá através de identificação com o processo histórico, através da escuta todos os sons e obras musicais, e por um filtro estético seleciono o que me toca e influencia, e também na relação e prática com o instrumento musical, no meu caso o piano e teclado.

Por que quis fazer esse disco e em que momento apareceu o conceito?
TRZ  – Trabalho com música já há mais de 2o anos, normalmente com diversas bandas e/ou cantores e cantoras, sempre atuando mais como instrumentista e/ou arranjador, às vezes como compositor também, mas sempre de forma mais coletiva do que individual.

Dessa forma, ao longo do tempo, fui sentindo necessidade cada vez maior de deixar minha marca na história, como compositor e criar um álbum, por que não dizer uma “obra artística”, que de fato refletisse quem eu sou, para que as pessoas ouvissem e se identificassem com essa obra, e para que ele tenha alguma relevância, seja no âmbito artístico/intelectual, seja no âmbito espiritual.

Em relação ao conceito Solstício, creio que esse trabalho reflete relações entre espaço-tempo tanto no plano subjetivo, de minha história de vida onde busquei em diferentes memórias afetivas relações com a música, quanto também nos aprendizados em viagens pelo mundo, pelo qual cruzando os hemisférios procurei assimilar culturas e acumular aprendizados, tudo isso me influenciou e fez nascerem essas composições.

Existe algo na sua música que seja típico de seu lugar de origem?
TRZ  – Com certeza. Tive a primeira parte de minha infância, dos 2 aos 7 anos, no Rio de Janeiro, onde já escutava muita MPB em casa, pelos vinis e fitas cassetes dos meus pais e também carnavais e festas de rua, no momento seguinte da infância, no interior de São Paulo, em São Carlos, dos 8 aos 16 anos, escutando muito rock progressivo, blues e jazz, e tocando com amigos e musicos locais, e posteriormente na época de faculdade em Bauru, onde toquei com a banda Mercado de Peixe, que era um verdadeiro liquidificador de referências musicais, tudo isso me influenciou, e muito.

Que diferenças destaca entre a nova geração da música instrumental e a de grandes monstros como Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti e Moacir Santos?
TRZ – Acho que são épocas bem distintas e que se têm influencias de forma bem diferentes, esses mestres citados são grandes referências para mim e acredito que sejam atemporais como músicos e compositores, mas a formas como eles compunham estavam muito ligado aos instrumentos musicais que tocavam, piano, violão, sax, etc, e também de formações de grupo mais clássicas, como os trios, quartetos, quintetos, sextetos, orquestras, etc.

Já as novas gerações se influenciam por diversas forma e processos, seja por essas formações clássicas, seja pela música eletrônica, o cinema, a internet, as tecnologias, enfim, o espectro de influências artísticas aumentaram, no entanto é mais difícil hoje encontrar uma identidade musical tão forte quanto a que esses grandes mestres criaram, pois muita coisa já foi feita e está sendo feita, fica mais difícil criar uma linguagem criativa, original e diferenciada. Mas esse desafio de superar as gerações é fascinante e por isso a arte nunca morrerá.

Quais são suas principais referências estéticas fora da música?
TRZ – Com certeza as demais linguagens artísticas, o cinema, que abrange todas as artes, mas também as artes gráficas, o design a arquitetura, a dança, o teatro, a poesia e literatura.

Também busco refletir e desenvolver minha estética observando elementos do contidiano, do dia-a-dia, e viagens, na observação da natureza, e muito também nas relações afetivas, com a familia, minhas filhas, e meus amigos e amigas.

Quais são suas maiores influências?
TRZ  – Os grandes maestros, compositores e arranjadores brasileiros, Antonio Carlos Jobim, Eumir Deodato, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Arthur Verocai, os pianistas Cesar Camargo Mariano, Wagner Tiso, João Donato, todos os trios de jazz e bossa nova dos anos 60; no jazz americano Miles, Coltrane, Horace Silver, Art Blakey, Lee Morgan, Herbie Hancock, Chick Corea, etc. e as bandas de rock progressivo dos anos 70. Mais recentemente o rock, o hip hop e musica eletrônica feita nos anos 90 e 2000, e a cena contemporânea de nu jazz e nu soul, Robert Glasper, Mark de Clive Lowe, Kaidi Tatham, Taylor Macferrin, etc

Quais são seus valores essenciais?
TRZ – Acredito na amizade e no respeito ao próximo, na generosidade, acredito na liberdade de expressão e na liberdade artística, e na família, não só aquela que a gente tem por nascimento, mas a que a gente forma ao longo da vida, mesmo com o mundo querendo se desumanizar acredito que as relações humanas pelo afeto e arte ainda irão salvar a humanidade.

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